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Teatro Antônio Hohlfeldt | a_hohlfeldt@terra.com.br

Teatro

Notícia da edição impressa de 13/07/2012

Os brincantes do boi maranhense

Levado por motivos profissionais, estive, no último mês, por dois fins de semana seguidos, na cidade de São Luís, capital do Maranhão, que em outubro vindouro estará comemorando 400 anos de fundação. Todos sabemos que as festas juninas têm uma comemoração muito especial no Nordeste e no Norte brasileiros. No caso do Maranhão, contudo, e levando em conta, tanto as comemorações de fundação, quanto as disputas políticas entre as administrações da capital e do estado, estas comemorações ganham dimensões quase inimagináveis. Em toda a cidade, espalham-se o que se chama de “arraial”, onde se localizam palcos, com cerca de metro a metro e meio de altura acima dos pisos calçados. Em torno desses palcos, dezenas de barracas se acumulam, vendendo iguarias regionais. Todo o pátio fica coberto de bandeirinhas coloridas. E no tablado, sucedem-se os “bois”, variando os “sotaques”, quer dizer, os tipos de espetáculo que apresentam: o sotaque orquestra se caracteriza pela forte presença de um conjunto musical formado por sopros, enquanto o conjunto coreográfico evolui no palco. O “sotaque” matraca traz os componentes do grupo portando duas placas lisas de madeira, ligadas entre si por um cordão. Os “brincantes”, que é como se chamam, tanto os participantes dos grupos coreográficos dos bois quanto os espectadores em geral, que aqui se juntam ao conjunto, batem uma contra a outra estas placas de madeira, produzindo sons secos e muito agudos. O ruído varia segundo o tamanho das “matracas”: elas podem ser não maiores que a palma da mão, mas também podem chegar a mais de meio metro de comprimento cada uma, produzindo sons estridentes que chegam a ensurdecer as pessoas em geral.

Este conjunto tem, ainda, como atração especial, enormes pandeiros, com mais de metro de raio, e que produzem sons cavos, marcando fortemente os ritmos interpretados. Há, ainda, “sotaques” outros, como o da baixada - marcadamente africano - ou o zabumba. As denominações variam, ora indicando lugares de origem, ora identificando origens sociais ou grupos étnicos. O que sempre surpreende, na verdade, é a criatividade dos enredos, que enriquecem e variam a trama original e, por conseqüência, permitem a diversidade das evoluções, a multiplicidade de personagens e a explosão dos figurinos coloridos.

Originalmente, o bumba meu boi é um auto religioso: Mãe Catirina (Catarina), grávida, tem um inusitado desejo: quer comer língua de boi. Pai Francisco, a contragosto, acaba matando o animal de estimação para atender ao desejo da mulher. Mais adiante, o boi renasce, figurando a ressurreição de Cristo, e a festa se espalha pelo terreiro. Na tradição de mais de dois séculos, mesclando a cultura medieval europeia, as coreografias indígenas e a tradição africana, os enredos incluíram personagens variados, o que amplia os enredos.

Cada grupo de boi visita um sem-número de arraiais, com espetáculos que se sucedem, quase ininterruptamente, a partir das 20 horas, até o amanhecer, e isso, nas sextas feiras e sábados. No final de semana passado, ocorreu, fechando os festejos, a chamada “lavagem do boi”, quando cada grupo dirige-se às igrejas para receber graças, evidenciando fortemente o sincretismo religioso de tais manifestações.
Apesar do forte calor, pela temperatura natural e pela concentrada iluminação que reforça a atração dos espetáculos, as pessoas se aglomeram em torno dos tablados, comem alimentos regionais – do peixe ao feijão-de-corda – ouvem grupos especialmente contratados que se apresentam durante os intervalos dos bois, e torcem, e participam, e dançam sem parar, o tempo todo, enquanto bebem.

Se é bonito de se ver e ouvir, não é fácil de se dançar. Movidos a cachaça, sobretudo, os brincantes carregam enorme peso nas armaduras dos animais ou dos imensos cocares constituídos de penas de ema; portam roupas decorativas com imagens de santos, ou trazem oferendas variadas. Dançando e pulando sem parar, todos invadem as madrugadas e estão sempre simpáticos, disponíveis para as fotos dos turistas. O negócio não está afastado: vendem-se DVDs e CDs, com registros dos grupos. Mas o que emociona é ver que crianças, desde 4 ou 5 anos de idade, precocemente já se integram a estes grupos, levando dentro de si a tradição que se mistura ao modernismo do cotidiano.    

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