O diretor Tim Burton, desde que realizou seus filmes sobre Batman, sempre deixou bem claro que jamais abandonaria personagens excêntricos e figuras bizarras para compor imagens e situações que imprimissem na tela uma visão de mundo destinada a resumir imperfeições de um cenário comandado por forças que, embora as repressões sofridas, sempre terminam por impor sua vontade. Num de seus filmes, Edward, mãos de tesoura, ele chegou à causa de todo esse conflito, ao colocar em cena um indivíduo incapaz de exercer a ternura por ter, agregados ao físico, elementos capazes de causar danos a quem dele se aproximasse ou por quem ele sentisse alguma atração. Numa só figura o cineasta concentrava o dilema que o atrai e por isso transformado em tema principal de todos os seus filmes: a dificuldade do ser humano em dominar sua agressividade. O Batman que ele focalizou em dois títulos, ambos admiráveis, não é um herói defensor de valores, mas um homem traumatizado pela perda violenta dos pais e transformado, por impulso interior, numa figura que tem no Coringa um equivalente ou um crítico, que se expressa pela gargalhada. A ordem na cidade é então mantida por um justiceiro movido pelo sofrimento e orientado pelo desejo de vingança.
A questão não é procurar em Sombras da noite novos temas, pois isso seria negar a Burton a condição de autor. É possível fazer restrições a seu cinema, mas é inegável que estamos diante de uma personalidade criadora, um realizador que desenvolve a cada filme variações que sempre partem do mesmo tema. Eis um diretor que procura revelar o oculto, que se empenha em flagrar o processo do retorno do que é reprimido pela civilização. Outra cena reveladora é aquela do primeiro Batman na qual o Coringa e seus roqueiros alucinados invadem o museu da cidade e investem contra alguns dos símbolos da civilização. E naquele que talvez seja o maior de seus filmes, Ed Wood, os obstáculos enfrentados pelos que anseiam produzir arte sem possuir meios e qualificações terminam por criar o impasse que origina o conflito entre sonho e realidade, tema de uma narrativa que focaliza a distância entre desejo e realização.
O filme de Burton agora em cartaz é mais uma variação em torno do motivo central de sua obra. Desta vez o protagonista é um vampiro que permaneceu dois séculos sepultado e quando retorna não aparece apenas com sede de sangue, pois se mostra um empreendedor capaz de assimilar rapidamente as regras do mundo competitivo, mesmo que se surpreenda com a maioria de seus rituais. O filme, obviamente é uma sátira. Em tal campo, Burton não alcança o Polanski de A dança dos vampiros e nem se aproxima dos clássicos do gênero. Mas sabe se expressar com propriedade em alguns momentos cômicos, como na referência a Michael Jackson, enquanto investe contra costumes e vícios modernos. A cena da conversa com os contestadores que termina com o anúncio de que todos serão mortos pelo vampiro é mais do que uma crítica: é uma clara demonstração de como as vítimas estão enganadas em seus movimentos de rebeldia, tão superficiais como inúteis. A força do reprimido, que regressa para exercer a vingança, é bem maior do que desejos de harmonia que ignoram o essencial: o impulso destruidor de tudo que é impedido de se manifestar. E ao repetir, no epílogo, o ritual que lança os amantes no abismo, o realizador volta a focalizar o drama do indivíduo, que, como se tivesse armas nas mãos, não consegue concretizar o gesto de ternura. O cinema de Tim Burton é o da impossibilidade da ação humana. O cenário em que a ação se desenrola é sempre dominado pelas sombras. É nelas que se movem criaturas impulsionadas por forças quase sempre livres de qualquer obstáculo erguido por normas civilizadoras. O cineasta, por isso, é um fascinado pelo grotesco e pelas fantasias. E também pelas deformações geradas pelas mais diversas formas de repressão. Seu cinema é voltado para as inconformidades e as agressividades que respondem às imposições limitadoras. E costumam reaparecer como um vampiro vingador.