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SAÚDE Notícia da edição impressa de 27/06/2012

Uso de drogas está relacionado a traumas na infância

Jessica Gustafson

FREDY VIEIRA/JC
Kessler afirma que o crack afeta o cérebro do dependente, tornando-o impulsivo
Kessler afirma que o crack afeta o cérebro do dependente, tornando-o impulsivo

O 1° Seminário Estadual de Políticas Públicas sobre Drogas, realizado ontem na Assembleia Legislativa e promovido pela Secretaria da Justiça e dos Direitos Humanos do Estado (SJDH), trouxe para o debate diversos especialistas que atuam no combate às drogas. O psiquiatra Félix Kessler, vice-diretor do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), apresentou dados de um estudo que está sendo elaborado pela instituição, o qual revela o perfil dos usuários. De acordo com o psiquiatra, a maioria dos dependentes, principalmente de crack, são pessoas que sofreram muito na infância, já tendo passado por traumas graves, como abuso emocional, sexual e físico e negligência afetiva por parte dos pais. 

“Não são todos os indivíduos que têm estrutura para superar o problema. Ninguém usa crack por acaso. Outra característica constatada é que normalmente estes jovens já apresentam traços antissociais desde criança”, explica. Kessler acredita que esses adolescentes, que já possuem transtornos mentais, são os que precisam ser observados pelos familiares, pois correm mais risco de se tornarem usuários de drogas.

O palestrante relata que, entre os anos de 2001 e 2005, o número de usuários de crack dobrou e que, de 2005 até 2012, deve ter dobrado novamente. A ação da droga no cérebro é imediata, sendo eliminada a cada cinco ou dez minutos. Por esse motivo, é difícil ver casos de overdose por essa droga de efeito rápido. Um dos grandes problemas trazidos tanto pelo crack quanto pela cocaína é que elas agem no local do cérebro responsável pelas decisões do indivíduo, torna-os impulsivos. “Quando essa pessoa está com vontade de consumir o entorpecente, ela se torna animalesca, parecendo um animal selvagem com fome”, relata.

Além das decisões, segundo o psiquiatra, outros campos do cérebro são afetados, como a razão e a memória, o que torna o comportamento desorganizado. As sequelas do uso de drogas são ainda mais fortes em um cérebro infantil, porque a criança acaba se desenvolvendo com traços impulsivos.

O palestrante alerta que não é apenas o crack que modifica as condições cerebrais do indivíduo. A cocaína também quebra a capacidade mental, fazendo com que esta pessoa perca a vontade de realizar tarefas mais difíceis, como estudar e trabalhar. Outro fator prejudicial é o consumo de entorpecentes na gravidez, que causa no bebê danos no crescimento e na sua função cognitiva.

Para reverter a situação crescente de usuários, Kessler acredita que é preciso focar principalmente na prevenção. “Quando esta pessoa já está dependente, os tratamentos tem baixa adesão. Cerca de 20% dos que procuram tratamento continuam depois de oito meses.”

Outro dado preocupante do estudo é o índice de mortalidade dos dependentes de crack. “Em cinco anos, cerca de 20% morrem. Em 12 anos, esse índice aumenta para 25%”, diz. A morte destes usuários é consequência principalmente da criminalidade que envolve o consumo do crack. Mais de 50% deles são vítimas de homicídio. Além disso, o gasto mensal de um consumidor é em torno de R$ 426,00. “Prefiro não dizer que existe uma epidemia de crack porque o número de dependentes de álcool é dez vezes maior. No entanto, se comparado a outras drogas, o crack é o que mais leva para a criminalidade”, completa. 

Delegado critica sistema que ‘facilita’ vida dos traficantes

Durante o evento, foi realizada uma mesa de debate para discutir com autoridades tanto os meios de tratamento quanto as formas de repressão. Heliomar Franco, delegado do Departamento Estadual de Investigação sobre Narcóticos (Denarc), explicou que o trabalho realizado pelo órgão é muitas vezes cansativo, pois o sistema prisional, em sua opinião, está falido. De acordo com ele, os policiais são destinados para operações perigosas que demandam longos meses de investigação. “Quando prendemos os traficantes, já sabemos que em breve eles estarão nas ruas novamente e que teremos de refazer todo o trabalho”, explica.

Franco compara o sistema prisional ao sistema de tratamento de drogas, no qual o dependente, depois da internação, volta para as ruas para consumir os entorpecentes. Desde maio do ano passado, o Denarc tem realizado uma operação de combate ao narcotráfico ao redor das escolas.

Segundo o delegado, as crianças e jovens precisam de uma proteção mais forte por parte do Estado. “Nos aproximamos de forma discreta das escolas e começamos a separar os estudantes dos traficantes”. Um dos problemas enfrentados pelo departamento é que muitos vendedores de drogas estão todos os dias nos colégios, com quantidades pequenas. Ao serem abordados, afirmam que são usuários. “Não podemos deixá-los acabar com o futuro destes jovens”, ressalta Franco.

Já o juiz Marco Aurélio Xavier, do Juizado Especial Criminal, relatou as implicações que o consumo de drogas tem na Justiça. “O Judiciário se dedica muito para o trabalho em prol da recuperação dos indivíduos, da prevenção e da repressão ao tráfico. A droga é um grande problema social”, diz. O juiz relata que em muitas audiências da Vara de Família, os pais, que são dependentes de entorpecentes, brigam pela guarda do filho. No entanto, a criança acaba ficando com outros familiares até que os pais comprovem que fizeram o tratamento. 

Pelo menos 5% da população mundial já usou substâncias ilícitas

O Relatório Mundial sobre Drogas 2012, divulgado ontem pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc), revela que cerca de 230 milhões de pessoas usaram alguma droga ilícita pelo menos uma vez em 2010. Esse número representa 5% da população mundial adulta, com idade entre 15 e 64 anos.  Uma em cada 100 mortes entre adultos é atribuída ao uso de drogas ilícitas. 

A maconha e os estimulantes do tipo anfetaminas são as drogas mais usadas no mundo. Já o consumo de cocaína ficou estável, com o número de usuários estimado entre 13,3 milhões e 19,7 milhões em 2010. As Américas do Norte e do Sul e as Europas Central e Ocidental ainda são os principais mercados de cocaína. Nos Estados Unidos, o consumo dessa droga diminuiu, passando de 3% em 2006 para 2,2% em 2010. De acordo com o Unodc, isso pode estar relacionado com o declínio de 47% na fabricação de cocaína na Colômbia.

Em algumas nações sul-americanas, incluindo o Brasil, o uso da cocaína aumentou a partir da década de 1990 até 2005. Segundo o relatório, as apreensões federais no País triplicaram desde 2004, atingindo 27 toneladas em 2010.

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