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teatro Notícia da edição impressa de 26/06/2012

Delicadeza e provocação nas ruas de Belo Horizonte

Michele Rolim, de Belo Horizonte

KIKA ANTUNES/DIVULGAÇÃO/JC
Gólgota Picnic, dirigida por Rodrigo García, faz releitura da Bíblia
Gólgota Picnic, dirigida por Rodrigo García, faz releitura da Bíblia

O 11º Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte levou à capital mineira uma programação equilibrada, com montagens de qualidade. Um dos espetáculos de rua que emocionou a todos era velho conhecido do teatro nacional e íntimo da plateia local. O Grupo Galpão remontou sua peça mais conhecida - a adaptação de Romeu & Julieta, com concepção e direção geral de Gabriel Villela. A peça projetou o coletivo no Brasil há 20 anos e foi refeita para comemorar os 30 anos da companhia, que é mineira.

Um público massivo ovacionou as apresentações e chegou a cantar Parabéns a você para o grupo, além de cantar com ele a trilha sonora da peça. Romeu & Julieta foi um grande divisor de águas na trajetória do Galpão, em todos os sentidos. Na época, foi extremamente ousado transpor o clássico de William Shakespeare para o contexto da cultura popular brasileira. Nos anos 1990, a montagem representou um marco no teatro brasileiro e foi encenada em diversos países, se consagrando no Shakespeare’s Globe Theatre, em Londres.

A remontagem também é marcada pela lembrança de Wanda Fernandes, que fez Julieta na primeira versão, ao lado do Romeu de Eduardo Moreira. Ela morreu dois anos depois da estreia, em um acidente de carro, em pleno auge do espetáculo. Wanda era uma das figuras centrais do Galpão e esposa de Moreira. Desde 1996, Fernanda Vianna interpreta a personagem. O grupo fez um encontro mais que merecido com o passado.

Outra peça do gênero que merece destaque é Domínio público. Nela, os espectadores são os protagonistas. A proposta do diretor espanhol Roger Bernart consiste em reunir um grupo de pessoas em uma praça (com placas sinalizando as direções direita e esquerda), recebendo instruções nos headphones distribuídos pela equipe de produção.

Perguntas transitam entre indagações aparentemente banais e outras mais complexas sobre família, comportamentos, memória, repertórios culturais, pertencimento, profissões, renda etc. O público começa a responder com gestos, deslocamentos, aproximações e distanciamentos às provocações. “Você gosta desta música? Então, vá para o centro e comece a dançar”. “Você ganha mais de R$ 1 mil? Então, vá para a direita”. “Se ganha menos, fique no centro”. “Se ganha mais de R$ 4 mil, vá para a esquerda”, entre muitas outras questões direcionadas ao público.

A plateia sente-se como se estivesse no divã. A partir do movimento dos participantes, formam-se pequenos grupos que refletem padrões sociais. É um jogo em tamanho real, no entanto, os espectadores são os peões e o tabuleiro, o ambiente social.

Entre 1997 e 2001, Roger Bernat fundou e dirigiu a General Elèctrica, com Tomàs Aragay, um centro de criação de teatro e dança na Espanha. Atualmente, trabalha como diretor cênico e dramaturgo interdisciplinar, utilizando a leveza, o humor e o cotidiano como suas ferramentas.

Polêmica, Gólgota Picnic divide opiniões na capital mineira

Com um cardápio de espetáculos políticos e polêmicos, o 11º Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte recebeu Gólgota Picnic, produção hispano-francesa que fez sua estreia no evento. A encenação foi uma das que mais dividiu opiniões.

A atração era uma das mais aguardadas na programação. Isso porque a peça foi considerada blasfema por um setor extremista de católicos, estreando em Toulose, na França. Com proteção policial, cerca de 200 manifestantes se juntaram diante do teatro Garonne.

Dirigida pelo polêmico argentino-espanhol Rodrigo García, um dos nomes mais importantes da vanguarda europeia, o texto não linear traz à tona uma leitura particular da Bíblia e encena passagens como a crucificação de Jesus Cristo.

Com atores em cima de um tapete formado por nada menos do que 25 mil pães, de corpos pintados e projetados em uma grande tela, a peça se propõe a uma crítica corajosa aos valores de adoração e mercantilização da fé. Em um dos momentos fortes da produção franco-hispânica, um ator diz: “Jesus foi um dos primeiros demagogos, ele multiplicou os pães em vez de trabalhar ao lado do povo. Aliás, Jesus nunca trabalhou”.

O espetáculo, de 2h20min, exige muito dos atores e do público, este provocado a todo instante (muitos abandonam a montagem antes do final). Também sobe ao palco o cultuado pianista Marino Formenti, que toca - sem roupa - praticamente um concerto dentro da peça, executando os nove movimentos de As sete últimas palavras de Jesus Cristo na cruz, de Joseph Haydn, encerrando a montagem.

COMENTÁRIOS
miguel anunciação - 26/06/2012 - 18h16
adorei a matéria, só me faltou um pouco de vinho para este prazer descer mais redondo hehehe

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