A superfície da sombra é o romance mais recente do consagrado escritor, jornalista e roteirista gaúcho Tailor Diniz, nascido em 1955. Autor de 11 livros publicados, Tailor recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura 2007 e o Prêmio Associação Gaúcha de Escritores 2007 por Transversais do tempo (Bertrand, 2007). Seu romance mais recente, Crime na Feira do Livro (Dublinense), foi finalista do Prêmio Açorianos 2011 como narrativa longa. Como roteirista escreveu, entre outros, os curtas Terra Prometida, que ganhou, em 2006, o prêmio de Melhor Filme nos festivais de cinema de Gramado e de Brasília, e Rolex de Ouro, também baseado em um conto seu, que recebeu o prêmio de Melhor Filme na mostra gaúcha do Festival de Cinema de Gramado. A superfície da sombra foi escrito, com muita habilidade, em terceira pessoal do singular e em primeira pessoa do singular. Os focos narrativos se alternam e proporcionam movimento e leitura prazerosa. O romance é um verdadeiro vira-página, e foi escolhido para publicação pelo Conselho Editorial da Editora Grua entre 194 livros inscritos. A narrativa se inicia em meio à ação - in media res - com um homem saindo de Porto Alegre rumo a uma cidade que faz fronteira com o Uruguai. Ele viaja sozinho, com seus silêncios e segredos, que os leitores vão desvendar, ao menos em parte, ao final da história. Depois de dirigir uma noite pelo pampa, ele encontra uma moça, Blanca Lúcia, filha de Adèle, que faleceu poucas horas antes. Adèle o mandara avisar de sua morte, pouco antes de partir. Entre luzes e sombras, palavras em português e castelhano, silêncios eloquentes e um denso clima de fronteira, a narrativa se desenvolve e envolve o leitor. Tailor trabalhou extremamente bem o silêncio, um dos grandes personagens do livro. Antonio, o protagonista, em meio a uma trama que se desenrola à sua revelia, entre outros lances, compra uma faca e participa da Noite das Mascaradas, um antigo ritual pagão para trazer boa sorte. Entre as ruas dos dois países caminham as sete viúvas da Calle de los Desenganos, que rezam pelas almas dos desamparados. Com grande destreza narrativa, e adequada economia de personagens, cenas e palavras, descrevendo os sons e as palavras do silêncio como poucos, Tailor traz uma história sedutora, com palavras, pausas, mortes, e toques sobrenaturais, revelando bem mais que um mero romance de fronteira. “Ainda não me havia dado conta de que a superfície da sombra é a superfície das coisas”, diz o protagonista, no início. Na epígrafe, diz Adolfo Bioy Casares: El verdadero estorbo es la imaginación. Grua Livros, 160 páginas.
E palavras...
O mundo é o Moinhos, Calçada da grana, Boca Ratão, invasões noturnas etc.
Preste atenção, leitor: o mundo é o Moinhos e tomara que ele não triture teus sonhos tão mesquinhos e nem reduza tuas ilusões a pó. Passo pela Mostardeiro/Mariante, piso com cuidado na Calçada da Grana, metro quadrado e tudo mais caríssimo. Ainda bem que não preciso de empréstimo. Atravesso a 24. Na Fernando Gomes fico pensando em propor à Câmara de Porto Alegre que troque o nome da rua para Boca Ratão, em homenagem a personagens históricos que viveram e vivem no pedaço e para dar um toque fashion-Miami ao bairro. Nada contra, claro, o ilustre educador Fernando Gomes, que poderia ganhar outra rua, até melhor. Na Padre Chagas, ou Padre Cacique, como chamam alguns lugares frequentados pelos “guris”, dou de cara com o Cheiroso. Há quem diga que ele está bem assim, integrado e tal. Um amigo, integrante de uma importante associação, sugeriu que lhe providenciassem banho e visita à Tia Carmen. Decidam. Lá pelas bandas do Listo, os Mandarins do Inter e outros ilustríssimos jubilados en Porto trocam umas ideias e assistem aos maravilhosos desfiles das estonteantes gaúchas. Falando nisso, dois ou três pegadores da noite conversam num dos recantos do Climatério-Menobar e o assunto é grávido: reclamam que, especialmente nos fins de semana, paulistas, cariocas, paranaenses, hermanos e até catarinenses (imagine!) chegam de avião particular ou via passagens aéreas baratinhas e se hospedam, com grandes descontos, nos hotéis finos do bairro e adjacências. Aí fazem concorrência predatória contra os locais e vão a bares, restaurantes, casas noturnas e similares e mandam baixar tudo do bom e do melhor, e, ainda, de repente, conquistam nossas nativas, as mulheres mais lindas do planeta. Será que os caras estão ricos e generosos, bons de conversa ou será que a gauchada é meio pão-dura, mão de mulita e precisa trovar diferente? Ou os dois. O fato é grave. Os governos municipal, estadual e federal poderiam fazer algo? Está tipo guerra fiscal. Sim, estamos num mundo globalizado, tudo bem, mas a coisa não pode ficar assim, com os galos de fora cantando solto aí nos nossos terreiros. Temos que tomar algumas providências. Os caras vêm aqui, gastam a metade do que gastariam em Sampa e tudo mais e nós, como ficamos? De bombacha na mão? Acho melhor pensar em reação. Até nem digo separatismo, menos, né, mas acho que “não podemo se entrega pros home”. Sei lá, de repente cobrar uns impostos, impor barreiras albundegárias, vão pensando aí! (Jaime Cimenti)
Lançamentos
- Estou com sorte - Confissões do funcionário número 59 do Google, de Douglas Edwards, ex-diretor de marketing do consumidor e gerenciamento do Google, conta sobre os bastidores - nem sempre tão limpos -, de uma das maiores empresas do mundo. Novo Conceito, 480 páginas.
- Em alto mar, do romancista africano Wilbur Smith, campeão de vendas, traz, com ritmo frenético dos filmes de ação e muito suspense, a história de um sequestro em alto-mar, no qual piratas exigem US$ 20 milhões em meio a um cenário político e diplomático complexo. Planeta, 400 páginas.
- O fantasma de Canterville, clássico de Oscar Wilde, ganhou adaptação para os quadrinhos de Seán Michael Wilson, com ilustrações de Steve Bryant e tradução de Nina Basílio. A história se passa em 1890 quando o diplomata americano Hiram B.Otis vai à Inglaterra para comprar o Castelo de Canterville. Editora Nacional, 136 páginas.
- Dentro do espelho, de Tana French, autora de No bosque da memória, mostra a trajetória de Cassie Maddox, detetive, ainda traumatizada pelo confronto com um psicopata em uma ação policial, que é transferida de setor mas vai se deparar com uma jovem assassinada que é sua sósia. Rocco, 496 páginas.
E versos
E quando
em mim as
coisas já
não forem hei
de levar
o azul inacabado
de Isfahan
e nele dissolver
me
sem distinguir
onde
começo e onde
termino
Marco Lucchesi em Roteiro da Poesia Brasileira, Global Editora.