Um rosto bonito, romance da escritora e roteirista canadense Lori Lansens, trata, acima de tudo, da imensa luta que uma mulher de meia-idade, Mary (lm67cm e 150 quilos), trava para encontrar seu marido e, ainda, para se reencontrar, depois de sofrer um enorme baque. Lori Lansens é conhecida internacionalmente por narrativas que levantam assuntos importantes. No primeiro livro tratou do abandono de crianças pelos pais; no segundo, do nascimento de irmãs siamesas e, agora, fala de obesidade e amor-próprio, mostrando que todos podem obter sucesso e que rótulos foram feitos para serem transformados. Mary trabalha numa farmácia, tem 43 anos e está se preparando para a comemoração de bodas de prata com o alto e bonito Jimmy Gooch. Contudo, ele, que ainda é tão belo quanto no dia do casamento, desaparece, deixando-lhe um curto e estranho bilhete e uma conta com razoável quantia. Vinte e cinco mil dólares. Ela não tem filhos, amigos, dinheiro e perspectivas. Tem um enorme sentimento de culpa, um complexo de inferioridade gigante e pouquíssimas alegrias na vida além de comer. No início altamente confusa e amedrontada, começa a perceber que o sumiço do amado não é temporário. Ela simplesmente foi abandonada e despertada repentinamente da inércia inerente à sua personalidade. Mary nunca esteve em um aeroporto, não sabe usar celular e se assusta com qualquer problema financeiro. Isolada do mundo, assustada, mas meiga e determinada, Mary conquista os leitores, até divertindo-os com seus desejos alimentares que a assolam a todo momento. Busca incessante pelo corpo perfeito, não aceitação das pessoas, estar ou não apaixonado e outras questões vão surgindo, depois que ela decide ir atrás de Jimmy. Mary deixa a pequena Leaford, no interior do Canadá, vai a Toronto e depois a Los Angeles, faz amigos, descobre que em sua vida faltava mais que marido. Faltava respeito, aceitação, amor-próprio e autoestima. Vítima do “complexo do rosto bonito”, Mary vai atrás do tempo perdido, de si mesma, procura mudanças e quer se livrar do medo. Enfim, um relato sensível mas cômico sobre obesidade, esse mal universal que anda por aí, fazendo sofrer e engolindo milhões. Um romance que mostra com acuidade a conexão entre um corpo obeso e um espírito sufocado pela solidão e a busca por novo “eu”. Bertrand Brasil, tradução de Fak Azevedo, 406 páginas, R$ 49,00.
Lançamentos
- Contos gauchescos e Lendas do Sul, clássicos de Simões Lopes Neto, mereceram cuidadosa edição conjunta com fixação de texto, notas e alentada introdução do professor Luís Augusto Fischer. As obras máximas de SLN estão acompanhadas de sua biografia e de rica bibliografia. L&PM Editores, 328 páginas.
- Caminhando na chuva, clássica novela de temática juvenil de Charles Kiefer, já vendeu mais de cem mil exemplares, marcou várias gerações e foi lançada em edição comemorativa aos 30 anos da primeira edição. Leya, 124 páginas, com ensaios de Deonísio da Silva e Sissa Jacoby.
- Noel Rosa - O humor na canção, da doutora em Educação pela USP Mayra Pinto mostra a obra de alta voltagem poética, articulando coloquialidade da língua com musicalidade e considerada paradigmática. A obra propõe estudo de Noel e, ao mesmo, tempo, à canção brasileira e sua dignidade cultural. Ateliê Editorial, 216 páginas, R$ 35,00.
- O livro dos santos de Noemí Marcos Alba com tradução de Ricardo Kowalczuk de Almeida apresenta a história de vida e de beatificação de importantes figuras da tradição cristã. Adoração, meditação, oração e devoção são as características de centenas de santos como São Francisco de Assis, São José e Santa Clara. Prumo, 184 páginas.
e palavras...
Os muitos Getúlios
Getúlio Vargas foi o homem que governou o Brasil por mais tempo: de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954, ano de seu suicídio. Antes de Getúlio o Brasil encontrava-se em estágio pré-industrial e, em poucos anos, a era Vargas construiu uma indústria siderúrgica imensa, houve uma revolução na infraestrutura de transportes e energia, as bases da indústria petrolífera foram lançadas e o proletariado foi incorporado à vida nacional. Getúlio Vargas - A esfinge dos pampas, biografia do conceituado professor e brasilianista inglês Richard Bourne, editada pela Geração Editorial, soma-se à já extensa bibliografia sobre nosso maior político do século XX e demonstra que, sopesadas as qualidades e defeitos de Vargas e as realizações de seus governos, o fiel da balança pende a favor do gigante de lm60cm de altura. Bourne publicou, pela Geração, Lula do Brasil, a história real e, nesta biografia de Vargas, considerada a mais imparcial, bem escrita e profunda, tanto em termos de análise política quanto de análise psicológica, decifra o sorriso enigmático do presidente suicida e outros enigmas da “esfinge dos pampas”. Segundo o brasilianista, Getúlio chegou ao poder através de uma revolução e esmagou várias revoluções. Fortaleceu a classe trabalhadora mas enfraqueceu a democracia. Vargas lutou pelo bem-estar social mas atentou contra liberdades individuais, industrializou o País e defendeu os direitos dos cidadãos, mas também dotou de poder quase ilimitado as forças armadas, assim criando, inadvertidamente, um monstro que acabou por devorá-lo em 1954 e, depois, ao Brasil, em 1964. As muitas faces do homem de São Borja que governou como ditador, suprimiu liberdades e exerceu a censura e, anos mais tarde, eleito pelo povo, governou como democrata, colocou o interesse público acima de tudo, desagradou reacionários e acabou por seu deposto por militares. Quem foi o homem que modernizou o País? Revolucionário ou reacionário? Autocrata ou democrata? Fascista ou comunista? Progressista ou conservador? Opressor ou vítima? Quem foi realmente o homem que criou três partidos, legou muito à nação e até hoje divide opiniões? O certo é que Vargas transformou o País numa nação, que sua vida e seus atos merecem muitas reflexões e que o julgamento das pessoas, do tempo e da história, os que interessam mais, sem dúvida lhe são amplamente favoráveis. A obra de Richard Bourne vem em boa hora. Geração Editorial, 320 páginas, R$ 39,90. (Jaime Cimenti)
e versos
Loucura
A órbita da loucura é imensa.
Aviso às incautas criaturas
tanto quanto
aos navegantes com rumo.
Nela se movem constelações superiores
ilimitadas águas
e as mãos com que Deus nos acena
(segundo a segundo)
com a sua graça.
Consolos prontos a redimir o mundo
palavras ausentes da escrita
ali se asilam
e mais
o risco do iminente abissal.
É tão amplo o rosto da loucura
que podem caber nele
quaisquer
de nossas muitas faces
-inclusive esta com que agora me empenho em aprendê-lo.
Maria Lúcia Dal Farra em Alumbramentos, Editora Iluminuras