ELENIZE DEZGENISKI/DIVULGAÇÃO/JC
Montagem de Tio Vânia resultou em espetáculo burocrático
Os espetáculos que nos visitaram, ao longo de 2011, de modo geral, foram bastante significativos. Para isso, colaborou o fato de que, além do Porto Alegre em Cena, tivemos a realização da sexta edição do festival Palco Giratório, do Sesc, entre nós e, surpreendentemente, recebemos um Festival do Teatro Brasileiro patrocinado pela Petrobras, com espetáculos oriundos de Minas Gerais e produzidos nos últimos anos, e que passaram pelo Sul do País, para além, evidentemente, da temporada desenvolvida na ribalta do Theatro São Pedro.
As coisas começaram a se movimentar, de fato, a partir de maio, graças ao Sesc. Aí tivemos uma série de espetáculos que se apresentaram em diversas casas da cidade, como a produção de Trilhas sonoras de amor perdidas, do Paraná; Concerto de Ispinho e Fulô, de São Paulo; O julgamento do macaco, baseado no conhecido texto de Kafka - Informe a uma academia - Frankenstein, de São Paulo, e assim por diante. Assisti ao extraordinário R&J de Shakespeare - Juventude interrompida, com direção de João Fonseca, sem dúvida um dos mais criativos e bonitos espetáculos que nos visitaram durante a temporada. Em compensação, o texto Felizes para sempre, do dramaturgo paulista Mário Bortolotto foi um espetáculo que revelou três textos curtos do jovem dramaturgo, que mais adiante viria a Porto Alegre, inclusive. Particularmente, achei os textos repetitivos e com uma virulência que, se remete a Plínio Marcos, não tem a naturalidade e a organicidade dos textos daquele grande dramaturgo dos anos 1970. De qualquer modo, foi importante conhecer este trabalho, uma vez que o teatro brasileiro anda necessitado de novos autores: desde o final da ditadura, e lá já se vão quase três décadas, praticamente não descobrimos nenhum grande nome para o teatro brasileiro, o que é preocupante.
No mesmo mês de maio recebemos, ainda, a Cia.Wupperthal de Dança, criada pela falecida Pina Baush, e que nos apresentou um de seus últimos trabalhos, Ten Chi, inesquecível e profundamente emocionante: foi, sem dúvida, o grande momento da temporada, que teria, não obstante, outros significativos espetáculos na agenda, como se verá a seguir.
O Festival do Teatro Brasileiro ocorreu em junho, trazendo uma dezena de produções mineiras de anos recentes. A primeira grande surpresa foi Coreografia de cordel, da Cia. de Dança do Palácio das Artes, de Belo Horizonte. Para quem, sugestionado pelo título da obra, imaginasse um espetáculo folclórico, ficou a decepção: ao contrário, o grupo apresentou um trabalho profundamente contemporâneo, em que a experimentação é tão radical que nem trilha sonora existiu!
Foi frustrante, em compensação, a encenação de Tio Vânia, de Tchekov, pelo Grupo Galpão, que se limitou a um espetáculo burocrático, sem qualquer emoção, compensado pelo provocativo e oportuno Hamelin, do espanhol Juan Mayorga, com direção de André Paes Leme, a respeito de pedofilia e do desafio de os pais enfrentarem tais dificuldades. Um momento difícil mas inesquecível do teatro nesta temporada, fez calar a plateia e emocionou a todos, especialmente pelo seu final.
A dança voltou a chamar a atenção em outubro, quando o grupo de Antonio Gades revisitou Porto Alegre, trazendo, mais uma vez, Carmen, só que desta vez sem a sua grande estrela que viveu a personagem, tanto no filme de Carlos Saura quanto na montagem que nos visitou, anos atrás.
É evidente que, em setembro, todos nos dedicamos a usufruir das atrações extraordinárias do Porto Alegre em Cena. Muita coisa poderia ser destacada, é claro, mas eu fico com alguns poucos espetáculos que fugiram ao corriqueiro, como a Flauta encantada de Peter Brook, Krapp’s last tape, texto de Beckett, na versão de Bob Wilson, e o extraordinário Medéia, na performance do grupo de Burkina Faso, sob a direção de Jean-Louis Martinelli. Do Uruguai, há que se citar, obrigatoriamente, Ella, de Susana Torres Molina, e da Argentina, Dolor exquisito, em torno de dois homens duplamente traídos por uma mesma mulher. Do Brasil, por motivos diferentes, destacaria Pterodátilos, com a extraordinária interpretação de Marco Nanini, e A lua vem da Ásia, a partir do romance de Campos de Carvalho. Na área da dança, sem dúvida alguma, Out of context, do belga Alain Platel, foi a grande e desnorteante novidade a que pudemos assistir nesta temporada.
O Porto Alegre em Cena culminou nos primeiros dias de dezembro, com a vinda do Théâtre du Soleil, que se apresentou em espaço cedido pela prefeitura municipal de Canoas, mostrando o extraordinário trabalho de Os náufragos da louca esperança, encenação de quase cinco horas de duração, que deixa marcas profundas em todos aqueles que tiveram a oportunidade de assistir àquela encenação.
Não vivemos, contudo, só de festivais, e, assim, ainda recebemos, entre outros trabalhos, o tocante e sensível Fragmentos do desejo, da Cia. Dos à deux, de dança e de teatro, com o que, pode-se dizer, tivemos uma bela temporada em relação a grupos que nos visitaram neste ano.