A azáfama que por vezes toma conta do Parque da Harmonia nesta época não contagia o patrono da Semana Farroupilha. Aos 79 anos, por trás de uma longa barba branca que lhe confere um ar de sábio, Telmo de Lima Freitas parece viver no ritmo do campo. Antes de conceder esta entrevista, apresenta seus companheiros do Piquete 38, oferece um prato do mocotó que cozinha lentamente no fogão a lenha, penteia os cabelos frente ao espelho, pede mais três minutos para tomar um café. Só então se acomoda na cadeira forrada com um pelego. Atira a parte frontal do poncho para as costas e, pausadamente põe-se a, mais do que responder perguntas, refletir sobre música, tradicionalismo, costumes, sua vida. Renomado por seu trabalho como compositor, o autor de clássicos como Esquilador, ainda faz questão de se despedir convidando os parceiros Osmar Carvalho, no violão, e Jorge Trindade, na gaita, para demonstrar os ritmos sobre os quais se referiu na conversa.
Música gaúcha
Quando era criança no bairro do Paraboi, em São Borja, não tinha uma música que tu pudesse dizer: esta música é gaúcha. A gente tocava polcas paraguaias, música sertaneja, Tonico e Tinoco. Também o trabalho dos cantadores do Nordeste. O som do Pampa era o trovador. O sujeito vinha com uma gaita de boca, que tirava do bolso da bombacha, batia em cima da perna e tocava. A música que se caracteriza como gaúcha veio depois, quando Pedero Raymundo tocou a primeira, Adeus Mariana (1943), que contagiou. Mas para mim música gaúcha existe uma, que é o bugio, um sincopado três por quatro. E esse bugio foi criado por um tio meu: Cantalício Pires de Lima, de São Francisco de Assis.
Acampamento Farroupilha
O acampamento cresceu bastante e vai crescer mais. Eu não gostaria de ser um patrono sem voz ativa. E digo que fico triste de ver o nosso Parque (da Harmonia) do jeito que está. Se tu trazes a tua família, esposa, filhos, em um dia de chuva aqui, não dá para andar. Acho que está na hora de corrigir. Outra coisa que acho que vão ter de repensar são os galpões. Porque é uma judiaria fazer obras como estas e depois desmanchar tudo no fim. Por que desmanchar? Eles vão reestudar isso. O Parque vai ser um ponto inclusive para o turista.
Modernidades
A música é uma faca de dois gumes. Tanto ajusta quanto desajusta. Por exemplo: se tu pegar um rock pauleira, aquela barulheira que te deixa estonteado, e colocar um disco desses na estrebaria de um cavalo, um animal que tem sensibilidade, ele não aceita. Porque é uma loucura. Agora, se tu bota outro ritmo, ele vai aceitar. Te digo isso porque acho que não temos direito de enlouquecer nossa juventude. Por acaso você vê um cantador, um violeiro que participa de um programa na TV, com um espinho no nariz, nas orelhas, uns brincos? Dizem que isso pode até passar, mas não gostaria que nossos adolescentes usassem essas coisas que chegam de fora, até para ridicularizar o nosso jovem.
Cidade Grande
Quando cheguei a Porto Alegre (aos 25 anos) não conhecia elevador. Não conhecia bonde, para mim pareciam umas cobras-cegas. Na minha primeira viagem de avião, eu agradecia o que eles ofereciam porque achei que tinha de pagar. Pensava que se eu fosse tomar um trago daquele carrinho sortido ia sair caro. A minha mãe fez uma mala de garupa com galinha, farofada. E eu abri a minha mala e agradeci pelo que ofereciam: muito obrigado, eu tenho meu fiambre. Todo mundo me olhava, e eu achava que estava agradando bastante.
Educação
A gente (no Piquete 38) sempre está ensinando ao jovem como se trança um laço, como se torce um sovéu, como se faz uma canga, um candil. Eu acho que todos os nossos centros de tradição, não só na Semana Farroupilha, devem continuar fazendo isso. Porque cada um tem sua comunidade, com jovens que não conhecem nossa cultura, não sabem nem vestir uma indumentária gaúcha. Então, tem de recebê-los e aceitá-los como são e não dizer: “não, mas tu não estás de bombacha, não sabes andar a cavalo, não sabes domar”. Se tu queres que aprenda, tem de ensinar. Porque ninguém pode gostar do que não conhece.