Ao contrário de outras crianças do Acampamento Farroupilha, engalanadas em suas pilchas completas, Luan Marco Gonçalves usa tênis prateado, calça jeans e uma camiseta com estampa dos brinquedos Hot Wheels. Nem o chapéu de feltro na cabeça lhe rouba o ar urbano.
Pudera. Aos sete anos, nascido e crescido no bairro Partenon, em Porto Alegre, o guri pisa pela primeira vez neste ano na cidade dos Piquetes, onde cada passo é uma nova descoberta. Diante de uma das bancas montadas no galpão reservado aos livros, no Parque da Harmonia, entre clássicos como Martin Fierro ou Don Segundo Sombra, Luan Marco encontra uma distração: fã das revistas em quadrinhos do Quarteto Fantástico, ele agora é apresentado pelas páginas de “Não Tá Morto Quem Peleia” a outro tipo de herói - Macanudo Taurino, o célebre personagem gaudério do cartunista Santiago. Gosta tanto do livro que, antes de deixar a banca, lança ao pai um olhar pidão.
- Me dá? - pergunta o guri.
- Estou sem dinheiro. Prometo que depois voltamos para buscar.
Dinheiro, o pai não tem; cartão de crédito, sim. E sabe muito bem o que fazer com ele. Auxiliar de escritório, Diego Gonçalves esperou sete anos para levar o filho ao acampamento. Mas agora, com Luan Marco crescido e a autorização da mãe, da qual é separado, é hora de fazê-lo estrear naquele mundo até então exclusivamente seu. Para marcar esse momento, o pai está disposto a gastar.
* * *
Debaixo de chuva, Diego Gonçalves conduz o filho pelas vielas lamacentas do Parque da Harmonia. Tem destino certo: a loja de indumentária gauchesca. Com o toró na rua, o estabelecimento está lotado. Os clientes, interessados em mais uma novidade para o guarda-roupa ou apenas na proteção do telhado, espremem-se entre botas, lenços, bombachas, ponchos, boinas, chapéus, rebenques e toda sorte de artigos campeiros. Diego tem dificuldade em achar algum atendente livre. Quando uma vendedora se apresenta, precisa gritar, para que a voz não seja abafada pelo barulho dos pingos agredindo o zinco:
- Queria ver uma bombacha para ele - pede, mostrando o filho.
- Que tamanho?
- Ele tem sete anos... Que tamanho que é?
- O meu é oito - interrompe Luan Marco, desfazendo a dúvida.
A vendedora saca uma bombacha marrom da pilha, e o piá se toca para o provador. Enquanto isso, o pai vai atrás de uma alpargata. Com 26 anos, o auxiliar administrativo Diego conheceu o tradicionalismo aos 14, e desde então anda com a turma de bombacha. Hoje, faz parte do Piquete Aporreados do Partenon. Pelo terceiro ano consecutivo, tirou férias do escritório em que trabalha na época do acampamento. Sua rotina nesse período é sair de casa depois do almoço e só voltar do Harmonia à noite ou de madrugada - “no último sábado, cheguei às 6h30min”, conta. Esse comportamento de jovem festeiro tem pouco a ver com o ar responsável que assume ao ajudar o filho quando Luan Marco abre a cortina do provador em busca do aval do pai. Diego aproxima-se, pede que o guri levante a camiseta, inspeciona diligentemente o fechamento do botão da bombacha junto ao umbigo.
- Está bom. Serviu na cintura. Sobrou até um pouquinho - atesta o pai.
O filho abre um sorrisão, e Diego logo chega com a primeira alpargata. Grande demais. Vem outra. Ainda não. Mais fácil comparar o tamanho com o do tênis. Trinta e três, o número. Agora, sim, a alpargata serve. O pai entrega para a vendedora, que anota o pedido em uma comanda. Luan Marco ainda tenta espichar a compra.
- Agora só falta a camisa e o cinto, né, pai?
* * *
Diego fica sério. O filho entende: por enquanto, é só: uma bombacha marrom mais uma alpargata de camurça: R$ 70,90. Só falta pagar. Simples, não fosse a fila, que faz com que os dois esperem quase dez minutos para entregar cartão de crédito e botar a mão na sacola. As compras não fariam de Luan Marco um gaúcho de visual tão caprichado quanto o pai, elegante em sua camisa de grife, lenço meticulosamente amarrado, bombacha fina, sapatênis, boina e uma faca de cabo de osso e lâmina de 35cm atravessada na cintura. Por outro lado, eram um bom começo.
O guri está louco para se paramentar, mas ainda tem de esperar mais um pouco. Justo na hora de saírem da loja, a chuva engrossa. Os dois têm de aguardar, com dezenas de outros clientes, amainar. Sorte que o temporal dura menos de cinco minutos, e pai e filho se tocam rumo ao acampamento do Piquete Aporreados do Partenon. Caminham sérios pelas vielas, atentos ao chão escorregadio. Não trocam uma palavra, o pai não faz um carinho. Bastam as mãos dadas. E o gesto automático de botar o guri no colo para passar por uma poça d’água.
* * *
Na frente do piquete, está o cavalo do patrão do grupo. Diego tem de empurrar-lhe a garupa para que desobstrua o portão de entrada. O filho cruza pelos salsichões e a cabeça de porco que assam na churrasqueira de tonel à frente do Piquete e corre até uma área reservada. Quando volta, já está (semi)pilchado: alpargata, bombacha, chapéu de gaúcho. A meia colorida e a camiseta Hot Wheels são detalhes. Em casa, ele tem camisa bonita, e o pai pode emprestar um lenço para o dia 20.
- No dia 20, vou levá-lo (Luan Marco) comigo a cavalo, no desfile - planeja Diego.
Antes de o filho montar no cavalo do patrão para posar para uma foto com sua primeira pilcha, o pai coloca a camiseta do filho para dentro da bombacha. Ao responder até quando pretende usar as roupas tradicionalistas, como o pai, o guri não titubeia.
- Até quando eu morrer.