As cancelas e porteiras fechadas à frente de cada piquete podem dar a impressão de que o Acampamento Farroupilha é uma festa exclusiva para tradicionalistas. Os organizadores, no entanto, garantem que não só o fluxo do público eminentemente urbano tem crescido nos últimos anos, como também os piquetes se mostram mais dispostos a abrir seus galpões e ensinar aos curiosos a história e os costumes típicos do Rio Grande do Sul. Visitas guiadas organizadas pela Secretaria de Turismo da Capital são outra novidade neste ano para reforçar o elo entre os acampados e demais interessados que não tenham ligação com piquetes.
O presidente da Comissão Municipal da Semana Farroupilha, Vinícius Brum, explica que a integração com o público foi reforçada a partir de 2005, quando a organização exigiu de cada piquete a apresentação de um projeto cultural. “No começo o pessoal ficou um pouco desconfiado, mas hoje é algo consagrado, e você pode ver que inclusive arquitetonicamente os galpões estão mais bem-acabados, com iniciativas criativas. E sempre de portas abertas para qualquer um que chegue e peça para conhecer. O gaúcho é um povo hospitaleiro”, analisa Brum.
Um dos piquetes que leva a sério a proposta de transmitir com um projeto cultural conhecimento aos visitantes é o Laços de Sangue. O galpão de pau a pique - com paredes de barro e telhado de capim santa-fé - é por si só um museu, à vista de quem simplesmente passa pela frente ou solicita uma visita mais detalhada. Relembrando os velhos ranchos pobres, a construção é tomada por raridades e quinquilharias. O lampião, as panelas de ferro, as velhas alpargatas, a boleadeira, o tarro, as cuias, os pedaços de charque e as cebolas penduradas pelas vigas e paredes conferem uma atmosfera única ao local. “Construímos isso com todo o amor e carinho”, diz Gislei Scheffer, responsável pela recepção aos visitantes.
O Laços de Sangue é apenas um entre 364 piquetes acampados em um Parque da Harmonia saturado. Há cerca de cinco anos, não há mais lugar para novos centros de tradição acamparem. Neste ano, o espaço ficou mais reduzido devido à área destinada ao novo teatro da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Para 2010, outro lote terá de ficar sem acampamento: os fundos da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, onde será construído um prédio. Diante da falta de espaço, Brum acredita na adoção de novas soluções para os próximos anos. “Já existem algumas iniciativas localizadas. Este ano, há um acampamento paralelo com 35 piquetes no bairro Belém Novo. É uma oportunidade de descentralizar o evento, mas isso tem de ser espontâneo.”
Para quem acompanhou os primeiros anos do Acampamento Farroupilha, na década de 1980, quando alguns tradicionalistas usavam o parque como base para deixar seus cavalos que participariam do desfile de 20 de Setembro, a dimensão atual do evento impressiona. Neste ano, quase 1 milhão de pessoas devem passar pelo local. Entre as atrações, há praça de alimentação, feira de artesanato, bancas de livros, shows, bailes, concursos de dança, esportes campeiros, rodeio. “Há uma enorme acolhida do povo urbano, que termina se interessando por nossas coisas”, avalia o presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho, Oscar Gress.
As novidades para este ano incluem a realização, no dia 20 de setembro, de uma gineteada na pista de provas de campo, seguida de um grande baile de ramada, ao ar livre, lembrando as antigas festas nas estâncias.