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Cinema Hélio Nascimento | hr.nascimento@yahoo.com.br

Cinema

Notícia da edição impressa de 20/04/2011

O palco e a vida

O realizador de Turnê, Mathieu Amalric, é bastante conhecido por aqueles que acompanham o cinema francês. Ele é um dos atores mais ativos da atual cinematografia da França. Mas sua carreira como intérprete não tem se limitado à produção francesa, já que ele chegou a ser vilão em um dos filmes recentes da série 007 e também apareceu em um dos papéis de destaque em Munique, de Steven Spielberg, no qual vivia o filho mais velho do chefe daquela rede de informação que auxiliava o grupo de vingadores. Com este longa-metragem agora em exibição ele recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes do ano passado como melhor diretor. Antes, ele havia realizado curtas-metragens e trabalhos para a televisão francesa e atuado como assistente de direção, inclusive em Adeus, meninos, um dos melhores filmes de Louis Malle. Turnê, portanto, pode ser o início de uma nova fase na carreira do ator/diretor e marcar um começo de uma verdadeira filmografia. Certamente que não apenas pelo prêmio. Festivais costumam, além de fazer justiça em muitas oportunidades, cometer erros monumentais em outras. Mas a constatação a ser feita é que o filme, independentemente de comparações, se destaca por vários motivos, entre eles por estar repassado de observações inteligentes sobre um tema que interessou a muitos cineastas e já permitiu a realização de algumas obras-primas: aquele que coloca em cena a fantasia e a realidade. Amalric, que além de dirigir interpreta o papel principal em Turnê, cria imagens e situações que permitem ao espectador contemplar um espetáculo de luzes e um cotidiano opressivo e sem perspectivas.

O filme evidencia muitas e benéficas influências. Há muito de Federico Fellini nesse relato que, de certa maneira, inova o chamado filme de estrada. E também, algo reconhecido pelo próprio cineasta, do coreógrafo e diretor Bob Fosse, mesmo que o filme não possa ser equiparado a filmes como A estrada e Cabaret.  Mas estas referências deixam claro que estamos diante de um trabalho a ser prestigiado. Em primeiro lugar, Amalric não parece contaminado por aquele intelectualismo de superfície que tanto tem marcado o cinema francês posterior à nouvelle-vague. Em vez de citações e da pose, o realizador prefere criar tipos humanos. No lugar da afetação, procura o realismo. Em vez da deformação do real, procura nele os significados. Não investe no espetáculo pomposo e sim numa visão crítica daquela encenação que procura ser apenas uma forma de esconder as dores e compensar a solidão. As plumas e os jogos de luz são apenas uma forma de mascarar a realidade. Enquanto um espetáculo se desenrola, paralelamente é mostrada uma viagem do protagonista empenhado em corrigir alguns erros. Nesta viagem, o filme também vai revelando a vida verdadeira do personagem, seu passado e seu presente, seu desespero e sua solidão.

Portanto, de um lado o espetáculo; do outro o drama real. Não há preocupação em registrar as causas do comportamento do protagonista. O que importa para o cineasta é acompanhar seu drama presente, algo que revela todo um universo povoado de antivalores. A presença dos filhos - e principalmente a agressividade de um deles - flagra a crise da família humana. A cena do hospital contribui para que essa visão do passado seja ampliada e aprofundada. E o plano que encerra a narrativa torna ainda mais profundo esse olhar para a inutilidade de uma arte voltada para a forma e nunca para a busca dos sinais reveladores. Amalric parece ter tentado recuperar uma das características mais nobres do cinema francês: aquela que, descendendo de Jean Renoir, permitiu a criação de obras-primas de Alain Resnais, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol e Louis Malle. Tendo como centro o personagem, filmes como Turnê o utilizam para exercer sua crítica. Um exemplo e um dos motivos condutores do filme: a ojeriza do protagonista por este costume moderno de impor imagens e sons em momentos nem sempre adequados. A inconformidade vai crescendo até se transformar em revolta, síntese reveladora do conflito entre o indivíduo e os rituais disciplinadores.

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