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Teatro Antônio Hohlfeldt
a_hohlfeldt@yahoo.com.br

Teatro

Coluna publicada em 25/03/2011

Desconstrução de Clarice Lispector

Estreado durante o ainda recente Porto Verão Alegre, o espetáculo Viva-água-viva, livremente inspirado no livro de Clarice Lispector Água Viva (1973), retornou agora à Usina do Gasômetro. Tanto a dramaturgia - livre adaptação do texto original literário - quanto a direção do espetáculo são de Renato Del Campão, que ainda responde pela trilha sonora, enquanto Eduardo Kraemer assina a cenografia, numa produção do grupo Teatro Ofidico, que vem encenando diferentes autores, tanto dramáticos quanto literários, buscando dar aos textos uma linguagem criativa e inovadora.

No caso de Viva-água-viva Renato Del Campão buscou a inspiração na situação central do texto - uma escritora em luta com a palavra - mas de certo modo deslocou esta luta para a questão da solidão individual. Permanece a constante indagação sobre o sentido da vida, típica na obra de Clarice Lispector.

É evidente que todo o diretor de teatro ou de cinema, ao buscar um texto literário, tem plena liberdade de recriá-lo, porque se trata de uma outra linguagem. Mas será fundamental que se respeite o próprio universo criado pelo texto original. Não é o caso que aqui acontece: Del Campão desconstrói o texto. Aquilo que flui - ainda que fragmentariamente - no texto literário, ganha outra perspectiva no espetáculo teatral, para o qual o elenco inclusive busca, a cada espetáculo, um participante da plateia para incluí-lo na performance. A consequência é que tudo o que em Clarice Lispector é sugerido, suspenso, tensionado, mas sempre colocado a meia voz, no espetáculo teatral é gritado aos quatro ventos, desde a abertura do espetáculo, no terraço da Usina. Enquanto Clarice Lispector busca a entrevoz, Del Campão escolheu o grito multiplicado dos atores em cena. Assim, o tom de anunciação e de revelação, que é característico em Clarice Lispector, dá lugar a uma evidenciação que obriga a um comportamento diverso do espectador: o leitor precisa adivinhar por entre as linhas, enquanto o espectador apenas identifica e evidencia aquilo que lhe é como que escancarado à sua frente.

O espetáculo perde a poeticidade - ainda que dramática - do texto, o que parece ser uma contradição, pois que o teatro é que deveria ampliar a tensão preexistente da literatura, ao mostrar – e não apenas referir, os acontecimentos.

Para compensar este prosaísmo do teatro, Del Campão valeu-se da cenografia de Eduardo Kraemer que, graças aos véus que circundam a cena, tenta recriar aquele desvanecimento do texto literário, às vezes com sucesso, outras vezes nem tanto, porque a direção de Del Campão não lhe permite: um dos aspectos mais mortais para a literatura de Clarice Lispector seria a blague e a paródia, justamente elementos de que se vale o diretor teatral para a sua encenação. Perde-se a revelação, ganha-se a evidenciação, vai embora a poesia.

No elenco, Thuanie Cigaran encarna Clarice Lispector. É um desafio que o intérprete consegue ultrapassar com dignidade, embora às vezes com visível esforço, talvez muito mais devido às opções da direção. Jairo Klein vive com convicção uma espécie de extensão da personagem, compondo com o próprio Renato Del Campão, que desenvolve a mesma função, uma espécie de coro, lembrando a tragédia grega, que ora dinamiza a fala da personagem, ora comenta-a e até mesmo a glosa.

Não gosto do espetáculo. Melhor, não gosto da linha do espetáculo adotada por Renato Del Campão mas, ao mesmo tempo, reconheço que nenhum autor é tão sagrado que não possa ser desconstruído, redimensionado, relido. Por isso mesmo, embora sem gostar, registro que se trata de um trabalho interessante, sempre polêmico e sempre provocativo, como são todos os trabalhos de Del Campão. Não imagino o que a escritora diria ao ver tal trabalho. Quem sabe não gostaria, já que ela persegue aqui e em outros textos, o agora, o isto da literatura como das artes plásticas ou da música - por que não do teatro?

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