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Literatura Notícia da edição impressa de 25/02/2011

Caio Fernando Abreu: mais vivo do que nunca

Brigida Sofia

VANIA TOLEDO/DIVULGAÇÃO/JC
Nesta sexta-feira, completam-se 15 anos da morte do escritor gaúcho, nesta foto com Cazuza
Nesta sexta-feira, completam-se 15 anos da morte do escritor gaúcho, nesta foto com Cazuza

Já se passaram 15 anos desde que o jornalista e escritor gaúcho Caio Fernando Abreu faleceu em função da Aids, em 25 de fevereiro de 1996, mas a sua obra permanece muito viva, inclusive entre pessoas que estão justamente na faixa dos 15 anos. Para lembrar a vida e o trabalho dele, foram lançadas biografias, um centro cultural foi montado em sua cidade natal (Santiago), um grupo de admiradores busca outro espaço em Porto Alegre para isso e, atualmente, dois documentários estão sendo produzidos. Nas universidades, Caio é tema de pesquisas entre estudantes de mestrado e doutorado. E suas lembranças, assim como ele viveu, também estão em movimento. Em novembro, seu acervo foi transferido da Ufrgs para a Pucrs.   

A professora do Instituto de Letras da Ufrgs Marcia Ivana Lima e Silva cuidou do acervo de Caio entre 2005 e novembro de 2010, quando houve a mudança para um espaço mais adequado de conservação a pedido da família do escritor. “É um acervo de porte médio, com correspondências, originais de contos e textos para teatro. Na organização, encontramos 117 poemas, a maioria inéditos”, diz Ivana.

Ela explica que, antes de falecer, Caio fez um testamento dividindo seus escritos em três partes distribuídas aos amigos Luciano Alabarse, Marcos Breda e, a parcela mais pessoal, como diários, a familiares.

Alabarse diz que decidiu entregar tudo à universidade para que mais pessoas tenham acesso. “É um material muito rico e emocionante para qualquer fã do Caio. Mas eu não tinha a infraestrutura pra cuidar bem dele. Foi um gesto de preservação, para que muitos pudessem usufruir e desfrutar dessa obra e que tudo fosse devidamente catalogado, registrado”, explica. Ele diz que conheceu Caio “da vida toda” e que eles desenvolveram uma intensa relação de amizade e confiança. “Éramos jovens que sonhavam em produzir arte em Porto Alegre. Caio, principalmente na área da literatura. Eu, desde o início, teatro. Sempre tivemos um amor fraterno, um respeito mútuo, uma amizade que atravessou todas as distâncias, as dificuldades, os anos. Quanto mais o tempo passava, mais a gente ficava próximo. Na vida e na arte”, lembra.

Declarações

“(Ele tinha) o talento para escrever com uma sinceridade que chegava a doer. A argúcia para retratar um tempo de procura em busca da felicidade, fosse qual fosse o tempo, o risco, a improbabilidade. Caio ajudou muita gente a ter identidade e coragem em busca de seus sonhos. Sua palavra era mágica e profética. Todas as dores de amores cabiam na sua escrita, como poucos souberam retratar um tempo e uma busca geracional.”
Luciano Alabarse, amigo e diretor de teatro

“É impressionante o quanto os jovens gostam do Caio. É interessante porque o momento é muito diferente em relação à política e às drogas. Eles (os jovens de hoje) não viveram a repressão e o tempo em que as drogas eram usadas para a autodescoberta, mas se identificam com ele pelo fato do Caio falar com qualquer sujeito, independente de idade, opção política e sexual, parece que ele está falando contigo.”
Marcia Ivana Lima e Silva, professora de Letras da Ufrgs

“Focamos na obra dele, na literatura, e não na vida pessoal, na Aids. Caio ficou meio marcado como ícone gay, o que ele não gostaria. Ele não gostava de gueto.”
Cacá Nazario, codiretor do documentário Sobre sete ondas verdes espumantes

Homenagens e memória

Alabarse homenageou o amigo diversas vezes através desse gosto em comum, a arte. “Fiz muitos trabalhos com base na obra dele: Pode ser que seja só o leiteiro lá fora, Morangos mofados - que montei três vezes. A adaptação teatral que ele fez para o romance da Lya Luft, Reunião de família, além de incontáveis leituras dramáticas de contos e peças, como Zona contaminada, que teve mais de uma versão”, diz.

Ele acredita que Caio é muito mais valorizado hoje, tanto pelo público, formado em grande parte por jovens, quanto pela crítica, que com o distanciamento soube valorizar o trabalho. O escritor chegou a demonstrar mágoa com os julgamentos mais pesados. “Muitas vezes vi o Caio angustiado com críticas sobre seus livros. Críticas apressadas, superficiais. Comentários que o magoaram bastante. Mas nunca desistiu, nunca ficou paralisado com uma crítica negativa.”, relata Alabarse.

O documentário Sobre sete ondas verdes espumantes, de Bruno Polidoro e Cacá Nazario, está em fase de montagem. Para falar sobre a obra do escritor, mais do que sobre sua vida pessoal, eles percorreram os lugares por onde ele passou para conversar com pessoas com as quais se relacionou de forma pessoal ou profissional: França, Inglaterra, Holanda, Porto Alegre, Santiago, Rio de Janeiro e São Paulo. “Não queríamos um documentário tradicional, linear, contando a vida dele. O próprio título já indica isso. As pessoas leem trechos da obra dele, que é o foco, não são apenas entrevistas. É mais imagem e trilha e menos depoimento”, explica Nazario, que define o trabalho como um road movie poético. 

A montadora Tatiana Nequete conta que foram ouvidas mais de quinze pessoas e que algumas se emocionaram bastante. “Elas começavam a ler um trecho e paravam no meio porque lembravam de alguma coisa”, relata. Entre os depoentes, estão Maria Adelaide Amaral, Luciano Alabarse, Greice Gianoukas e Adriana Calcanhotto, que fez uma capela de uma música escrita para Caio e que nunca foi gravada.  

“Suas cartas eram obras de arte”

A amiga Paula Dip, que vive em São Paulo, lançou um livro em 2009 (Para sempre teu, Caio F, Editora Record) para manter viva a memória do escritor e está fazendo um documentário baseado nele com a direção de Candé Salles. Além disso, teve acesso recentemente a cartas que Caio trocou com a escritora Hilda Hilst e pensa em escrever sobre o relacionamento literário dos dois. “Ela o influenciou muito, foram muito amigos”, comenta. 

Viver - Você afirma que a obra de Caio é muito lida pelos jovens de hoje. Você diria que ela é mais valorizada do que quando ele estava vivo?

Paula Dip - Com certeza. Caio morreu jovem, aos 47 anos de idade, no auge de uma carreira que começava a se internacionalizar. Já tinha livros traduzidos em vários idiomas, ganhava prêmios, mas não era reconhecido nem pelo grande público e nem pela crítica como um autor emblemático do final do século XX. Hoje ele é estudado nas universidades, tema de teses sobre os anos 1980, um ícone da literatura daqueles tempos pré-aids, de sex, drugs & rock’n’roll.

Viver - Você diz que Caio gostaria de ter suas cartas publicadas. Que elementos lhe levaram a acreditar nisso? Geralmente, uma correspondência é algo íntimo. Seria uma vaidade dele?

Paula - Não era vaidade, ao contrário, era uma atitude muito generosa dele. Caio se expressava muito melhor pela escrita do que qualquer outra maneira e suas cartas eram obras de arte. Concordo que a correspondência seja algo íntimo, mas também é um gênero literário. Logo que Caio e eu nos conhecemos, combinamos que iríamos publicar nossa história e isso inclui necessariamente as cartas. Ele costumava dizer que elas eram uma herança que deixava para os amigos, ou seja, para a gente, depois da morte dele, poder publicar um livro, virar escritor como ele.

Viver - O que o Caio falava (ou demonstrava) em relação à vida dele no Rio Grande do Sul?

Paula - Caio saiu bem cedo de casa, com 18 anos, para morar em São Paulo. Mas volta e meia estava em Porto Alegre, que ele chamava de Carroça. Não gostava da cidade, achava muito provinciana, conservadora. Mas também reclamava de São Paulo, do Rio, de Londres, de Estocolmo e até de Paris, de todas as cidades onde morou. Era meio cigano, não gostava de rotina, quando ficava muito tempo em um lugar começava a se aborrecer e queria ir embora. A única cidade que se tornou mítica em sua vida foi Santiago do Boqueirão, onde ele nasceu.

Viver - Como era a relação dele com a família?

Paula - Ele foi muito ligado à família, escreveu muitas cartas aos pais e irmãos sempre que esteve fora de casa, e voltou a morar com os pais já velhos, quando precisou de um porto seguro para tratar de sua doença. Era uma família muito unida e afetuosa que foi muito importante na formação de Caio como pessoa e como autor.

Novos leitores novos

Muitos leitores de Caio Fernando Abreu são bem jovens, não tiveram nenhum tipo de contato, mesmo que a distância, com o escritor em vida. É o caso da revisora de textos Mariane Farias de Oliveira, 19 anos, que começou a lê-lo aos 13 anos. Ela descobriu Caio quando fazia uma pesquisa sobre escritores amigos e relacionados à escritora Hilda Hist. Seu livro favorito é o Triângulo das águas.

“São, para mim, seus textos mais complexos, pelo estilo e pelo tema. O próprio Caio afirmou que foi seu livro mais influenciado pela astrologia, por seu lado mais místico, ao qual ele dava muita atenção. Também, é um dos mais passionais; mistifica todos os temas que sempre influenciaram a obra de Caio - o amor unilateral, o amor platônico, o amor erótico, a paixão autodestrutiva, a solidão irremediável -, muito diferente de seu livro mais conhecido e mais maduro que é mais ou menos na mesma época, Morangos mofados”, avalia.

Mariane, que também leu as peças de teatro, acredita que a obra se mantém atual não apenas porque os temas são universais: amor, morte, solidão. “Eles são abordados de forma única, por isso são sempre bem aceitos. Além disso, Caio tem um estilo fragmentado, que é um dos traços mais característicos da literatura contemporânea”, opina.

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