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A Voz do Pastor Dom Dadeus Grings | mitra.poa@terra.com.br

A Voz do Pastor

Notícia da edição impressa de 18/11/2010

As quatro relações humanas

O ser humano se realiza por meio de quatro relações: consigo, com os outros, com o mundo e com Deus. Ser pessoa é ser relação. Nascemos ontologicamente pessoas, ou seja, a natureza nos relaciona quadruplicamente, mas devemos tornar-nos psicologicamente pessoas, o que exige tomar consciência e elaborar mental e afetivamente estas relações que nos são dadas. É preciso, por assim dizer, torná-las próprias, conscientes e assumidas.

1) Psicologicamente, a primeira relação que desenvolvemos é com os outros. Todo o nosso ser é feito para destacar esta dimensão da vida. Ninguém é indivíduo. Não pode fechar-se sobre si mesmo. Necessariamente convive. Bem antes de se conhecer e antes de reconhecer seu próprio rosto e sua voz, conhece os outros. A criança reage ao sorriso das pessoas sem saber como resplandece seu rosto sorridente; entende os gestos dos outros antes de compreender seus próprios. Falamos por isso de intersubjetividade. É, pois, a primeira dimensão da vida humana. Nasce numa família e se descobre no aconchego de um lar.

Nossa tarefa, ao crescer, é intensificar, alargar e interiorizar estas relações com os outros. O ser humano se realiza na medida em que se abre aos outros e os conquista pelo amor. Sua riqueza são as relações humanas que desenvolve em torno de si. Sua vida são seus familiares e amigos.

2) A intersubjetividade leva à subjetividade. Aos poucos, em contato com os outros, cada um vai descobrindo sua própria profundidade e identidade. Responde ao imperativo socrático de conhecer-se a si mesmo. Não estão, em primeira linha da curiosidade, os órgãos físicos, mas suas funções. Cada um se reconhece inteligente e corpóreo, afetivo e empreendedor. Destaca três dimensões a serem desenvolvidas: inteligência, vontade e sentimentos. Sente-se rico de valores. Realizar-se é, pelo que a própria palavra diz, tornar-se real. Isto envolve autoestima. Não bastam ideias nem projetos. É preciso investir na vida, para que se torne plena.

3) A terceira relação nos leva ao mundo. As ciências e a técnica nos têm proporcionado grandes subsídios. Nossa ideia e nossa presença no mundo hoje são muito mais amplas que as de nossos antepassados. A cada cinco anos se duplica o acervo de conhecimentos e de capacidades de agir sobre o mundo. O problema é se isto nos leva também a um melhor relacionamento com ele. Conhecemo-lo, sem dúvida, melhor. Mas também o valorizamos,  na mesma medida? Estamos satisfeitos com ele? Conseguimos usufruir de seus valores e de sua harmonia ou os estamos destruindo e menosprezando? Não basta o conhecimento da história e da constituição do mundo para ser feliz. É preciso relacionar-se com sabedoria e respeito com ele.

4) A quarta relação nos leva a Deus. Está na origem e no destino da vida e do universo. Como cristãos temos uma revelação divina que nos reporta ao Pai. Para desenvolver esta relação, nos foi dado como que um terceiro olho, que nos faz ver o invisível. Pelo batismo fomos dotados de um novo organismo sobrenatural, que se manifesta por três impulsos vitais: a fé para ver o invisível, a esperança para ir a seu encontro e a caridade para, já agora, começar a vivenciar esta relação com o Pai, na qualidade de filhos, em Jesus Cristo, pelo Espírito Santo.

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