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Um olhar para a crise
Numa época em que o cinema norte-americano, com as exceções conhecidas, aparece voltado para efeitos especiais, fantasias desenroladas em mundos paralelos, comédias superficiais e filmes dedicados ao público infantil de qualquer idade, merece respeito e atenção o novo trabalho do diretor Oliver Stone. Wall Street - O dinheiro nunca dorme é uma segunda parte de Wall Street, realizado em 1987. No filme anterior, a previsão de uma crise. No atual, sua reconstituição, já que o filme se desenrola durante o ano de 2008, um daqueles períodos em que o sistema parece naufragar, enquanto espalha insegurança e medo por toda a parte. Sobrevivem, segundo o cineasta, não apenas as estruturas como também aqueles que, durante o vendaval, percebem que há caminhos salvadores. O problema é que, ao percorrer tais caminhos, os sobreviventes desconsideram valores e colocam em primeiro lugar objetos em vez de seres humanos. Gordon Gekko, o protagonista da saga de Stone sobre o mercado financeiro, defendia no primeiro filme que a ganância é algo positivo. De certa forma, através de seu comportamento neste segundo capítulo, ele demonstra que continua adepto de tal teoria. Mas a narrativa não se esgota em tal aspecto. O cineasta pretende se afastar de qualquer gênero de panfleto, mesmo que continue sendo um adepto da provocação e da inconformidade.
Na sua sequência inicial, a saída de Gekko da prisão, onde esteve cumprindo pena por suas atividades ilícitas, o realizador já expõe o tema principal da obra. Ele não sai sozinho, pois é acompanhado por dois ex-detentos, ambos recebidos por sua família, enquanto ele permanece solitário diante da prisão. Logo a seguir, ao focalizar o amanhecer de um casal de jovens, Gekko aparece na televisão e desperta a cólera de quem depois saberemos ser sua filha. Nas suas primeiras imagens, O dinheiro nuca dorme coloca, portanto, seu tema principal, que é o do conflito no interior da família humana. Passa a focalizar seres separados e distantes. Há duas crises, portanto. A econômica e a humana. Enquanto tenta encontrar uma forma de vingar a morte do protetor, um suicídio causado pela ação agressiva e desumana de um agente interessado em arruiná-lo, o personagem vivido por Shia LaBeouf procura reaproximar pai e filha. A figura paterna, ausente pela ação ambiciosa ou pela morte, aparece no filme como que duplicada. A cena entre Jake e Louis Zabel (Frank Langella) não deixa dúvida alguma que estamos diante de um encontro simbólico entre pai e filho. A ação seguinte do corretor é, portanto, a de um vingador e a de um ser humano empenhado em reconstituir seu mundo verdadeiro, enquanto perambula por uma espécie de baile de máscaras, algo que fica bem claro na sequência da festa beneficente.
Ao desenvolver tal tema, Stone, que tem fama de demolidor de mitos e de crítico severo ao sistema que lhe permite realizar filmes como este, se aproxima de um dos ícones do cinema americano mais tradicional: Frank Capra. É o perfil do cineasta de A felicidade não se compra que aos poucos vai dominando a narrativa, até aparecer de forma muito nítida na cena de encerramento. O sistema pode e deve ser humanizado, era o discurso de Capra. Os valores maiores devem ser defendidos, pois sem eles o naufrágio é uma possibilidade concreta. E estes valores são aqueles que aproximam os indivíduos, em vez de afastá-los. Assim, ao focalizar na cena final os três personagens principais, o diretor pode estar cometendo uma incoerência e concretizando uma ingenuidade, mas está propondo uma volta ao essencial, como fazia Capra. Seu filme, que por vezes poderá parecer confuso aos que não participam das batalhas da bolsa, encena essa dança primitiva da cobiça e da luta pelo poder, num ambiente suntuoso e no qual a elegância esconde instintos primitivos, algo que as palavras iniciais de Jake deixam claro. E também é obra que demonstra que olhar para a crise é um caminho importante para que o cinema, apesar de tentativas em contrário, continue sendo um poderoso instrumento para a compreensão do mundo.