Passadas
as mais fortes agruras da recém-implantada República no Brasil, o escritor
Afonso Henriques de Lima Barreto, que já ousara escrever sobre a imprensa
industrial brasileira, também então nascente (em Recordações do escrivão
Isaías Caminha), e pagaria pelo resto de sua vida tal ousadia, partia para
outro projeto audacioso e mortal: denunciar a falsidade da renovação política
que a república produzira. Para tanto, escreveu Triste fim de Policarpo
Quaresma, no ano de 1915. Isso o afastaria de vez do centro das decisões
políticas. O escritor não esmoreceu, procurou viver sempre da pena - embora mal
- e ao morrer, abrigado em um manicômio público
ironicamente, hoje uma das salas do Curso de Comunicação da UFRJ -
miserável e abandonado, não deixara de organizar sua própria obra, que
sobreviveria.
Recentemente,
Policarpo Quaresma foi transposto para o cinema. Agora, encontramo-lo
adaptado ao teatro, graças à iniciativa do diretor Antunes Filho (sim, aquele
mesmo de Macunaíma, de algumas décadas atrás). Foi este espetáculo a que
assisti em São Paulo, recentemente, dirigido por Antunes Filho, que está sempre
experimentando, ousando quebrar a tradição. Já fez um Chapeuzinho Vermelho
com um texto absolutamente inarticulado, e agora constrói uma encenação
extremamente paródica do romance, com cerca de duas horas de duração.
Felizmente para Antunes Filho, e para nós, seus admiradores, ele encontrou no
Sesc um espaço ideal de apoio para seus projetos, de sorte que tem podido
dar-se ao luxo de continuar a experimentar, mostrando a todos os resultados de
suas ideias.
Se a
escrita de Lima Barreto em Policarpo Quaresma é desequilibrada, ora
pendendo para o realismo, ora para a sátira, o mesmo ocorre com a encenação de
Antunes Filho. Ela começa devagar, mas parece apontar para um certo rumo. Pela
metade, se perde - embora seja aí que ocorra uma cena antológica e
inesquecível, a que nos referiremos de imediato - e se reencontra no final.
Talvez o excesso seja seu pecado maior, mas para reconstituir aquela república,
não seria mesmo necessário este excesso? Seja como for, Antunes Filho nunca
teve medo de romper convenções e regras, e não o faz por menos.
Com um
elenco de pouco mais de uma vintena de intérpretes, não apenas centra a atenção
em uns poucos personagens, interpretadas fixamente por determinados atores (por
exemplo, Quaresma é Lee Thalor e Floriano Peixoto é Marcos de Andrade) quanto
se permite colocar todos os demais integrantes do elenco a se multiplicarem em
figuras variadas e díspares. Na verdade, Antunes Filho está menos preocupado
pelas individualidades do que por uma certa representação social da época. Não
por acaso, dá especial atenção ao espaço do manicômio a que também o personagem
Quaresma é recolhido (premonição de Lima Barreto?), ao mesmo tempo em que faz
todo o tipo de referência, direta ou indireta, dependendo do maior conhecimento
cultural que o espectador possua, a situações e personagens de então: seu
Floriano Peixoto, por exemplo, é baixote, quepe enfiado sobre a cabeça que faz
desaparecer o rosto, jamais visto; usa um bigodinho e lembra demais a Adolf
Hitler...
Certamente
Antunes Filho deve ter pesquisado sobre as "revistas" da época, moda teatral então
em pleno vigor e que, a cada final de ano, satirizava os acontecimentos da
temporada, para gáudio de uma plateia mais popular e menos exigente, mas para
desespero, dentre outros, do vetusto Machado de Assis. Desse tipo de espetáculo
sai, sem dúvida, a exploração do clima farsesco de todo o espetáculo, a
presença das melindrosas e a representação dos diferentes espaços cênicos
apenas indicados por alguns adereços.
O
espetáculo, assim, interessante mas desigual, não deixa de ter seus bons
momentos. O melhor deles, contudo, é aquele em que Quaresma acompanha a
interpretação do Hino Nacional com um sapateado no meio da cena. O público
delira e aplaude. É aquela sacada que só um bom diretor é capaz de ter, criando
uma cena inesquecível. No mais, é um espetáculo interessante, bem produzido e
bem realizado, mas que não chega a repetir outros excelentes momentos do grande
diretor. Deve ser visto, contudo, de qualquer modo.