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artes visuais Notícia da edição impressa de 31/10/2014

Traços vivos à frente

Michele Rolim

MARCELO G. RIBEIRO/JC
A modelo-vivo Graziela Gallicchio (no centro) posa para alunos do Instituto de Artes da Ufrgs
A modelo-vivo Graziela Gallicchio (no centro) posa para alunos do Instituto de Artes da Ufrgs

Na sala 43 do Instituto de Artes, alunos desenham as curvas de Graziela Gallicchio. A modelo-vivo está nua, posando ao centro, para os alunos. Graziela tem 65 anos, é educadora e começou a servir de modelo nos anos 2000, quando frequentava, como aluna, uma oficina de escultura - segunda ela, para o “horror da família”, que desaprova o ofício de Graziela. Protagonista do curta-metragem Modelo vivo, de Zeca Brito, ela empresta seu corpo durante as aulas de desenho da professora e artista Teresa Poester. “As pessoas perguntam, por que ainda trabalhar com modelo? A academia, desde que surgiu no século XVI, na Itália, tinha o desenho como base, e no ocidente esta técnica sempre foi calcada na figura humana”, conta Teresa.

Para ela, uma das formas, de trabalhar a técnica é a observação direta. “Atualmente, temos um olhar muito rápido devido à quantidade de imagens a que o homem contemporâneo está exposto”, diz ela, justificando a importância de parar e observar. A experiência de Teresa é comprovada na prática pelas alunas, como é o caso de Barbara Neubarth: “Se desenhamos a partir de uma fotografia, já temos a leitura de alguém que escolheu um determinado ângulo, aqui tu tens o teu olhar sobre a pessoa”, atesta.

O Instituto de Artes já teve uma modelo-vivo fixo, Dona Santa, falecida. Atualmente, são os alunos que se organizam e arrecadam dinheiro entre eles para pagar a modelo, que cobra em média um cachê de R$ 80,00 para uma sessão de três horas. “Quando eu estudava na Ufrgs, sempre  desenhávamos a mesma modelo, acabávamos conhecendo esse corpo de cor e salteado. Agora procuramos variar, entre mulher, homem, magro, volumoso”, relata Teresa.

O desenho a partir de um modelo-vivo sempre foi uma atividade tradicional nas academias de arte do mundo ocidental, segundo o professor aposentado da Ufrgs e doutor em História da Arte Círio Simon. Ele recorda que, em 1913, o Instituto de Belas Artes do RS adquiriu um quadro de Pedro Weingärtner. Nele estava retratada uma pose de modelo-vivo que o artista praticara na Europa em 1878. “Weingärtner era uma espécie de conselheiro, fazia parte das bancas e certamente alertou sobre a prática do desenho do modelo-vivo”, afirma ele, lembrando que, naquela mesma década, foi instaurada a disciplina Desenho do modelo-vivo no Instituto de Artes. “Porém, é de se supor que houve sessões com esta prática em Porto Alegre avulsas e à utilizada por artistas e grupos interessados nestes estudos”, opina Simon.

O professor alerta sobre a necessidade de diferenciar entre modelo-vivo e modelo-vivo nu, esta muito utilizada no estudo da anatomia e antropometria artísticas. “Em uma entrevista, em 1996, com Olga Paraguassu, ela me assegurou que, graças às aulas, como estudante da Escola de Artes, era capaz de compreender e descrever a morfologia completa de um órgão do corpo ao médico a quem ela procurava”, conta o professor.

Simon lembra que o primeiro estudante formado no curso superior da Escola de Artes, o artista Francisco Bellanca, foi o responsável pela  ilustração de vários livros de anatomia e teses de professores da faculdade de Medicina da Capital. “Os médicos sempre foram um sustento e um apoio financeiro aos artistas visuais da antiga”, explica.

Pose exclusiva

Série Tudo te é falso e inútil, de Iberê Camargo, foi feita a partir das poses de Helena. MARCO QUINTANA/JC

Iberê Camargo gostava de desenhar tipos de rua e empregadas domésticas. Boa parte das modelos, ou eram profissionais, ou ele apanhava no Sopão do Pobre, em Porto Alegre. Mas com Helena Lunardi ocorreu diferente: a moça foi contratada para fazer faxina no ateliê do artista, em seguida, passou a ser empregada da casa de Iberê e de Maria, esposa do pintor. Em 1990, com 33 anos, ela começou a posar, ainda que fosse de forma tímida. “No começo, Iberê contratou modelos profissionais para que eu visse como era, aos poucos, fui perdendo a timidez, posava primeiro com roupa, depois de biquíni, e por fim, nua”, conta ela.

Trabalhou com ele até a morte do artista, em 1994. “Nos últimos anos, era quase todos os dias”, relembra ela. Como resultado, Iberê concebeu duas séries: Tudo te é falso e inútil e As idiotas. “No começo eu não entendia, ele terminava o quadro e me chamava para perguntar o que achava e eu dizia ‘tudo pintado é bonito’. Depois, com o tempo, eu fui entendendo”, diz.
Em 1991, Helena conta que alguns dias depois que seu meu marido morreu, ela posou chorando. A iniciativa deu origem à obra Crepúsculo da boca do monte. Helena posou somente para Iberê. Quando ele faleceu, a modelo parou e permaneceu trabalhando na casa. Foram 25 anos até a morte de Maria, ocorrida em 2014. “Uma vez, Vasco Prado pediu para que eu posasse para ele, e Iberê disse: ‘A Helena é uma mulher de família e só posa para mim’, diverte-se ela, relembrando.

Avó de dois netos e mãe de dois filhos - funcionários da Fundação Iberê Camargo - Helena ainda se lembra com saudade daquela época. “Fiz uma pergunta para ele: ‘Por que eu? Tem tantas modelo bonitas que vêm aí.’ E ele respondeu: ‘Helena eu não pinto beleza, pinto o que eu sinto’”, se emociona.

Modelo-vivo na carteira

Enir Freitas ganhou na Justiça o reconhecimento da profissão. FREDY VIEIRA/JC

Enir Elizabeth Correia Freitas, 60 anos, exibe o crachá em que consta “modelo-vivo”. A função oficial foi criada especialmente para ela. Em 1989, ela entrou na Justiça contra a prefeitura de Porto Alegre para reconhecer o vínculo empregatício, já que desde 1974 posava no Atelier Livre da Prefeitura Municipal. Conseguiu a carteira assinada em 1994.

Atualmente, faz cinco anos que ela não pratica o que mais gosta: posar nua. “Eu estava muito gorda, para fazer e sustentar uma pose é difícil, e também tive problemas de saúde. Quero voltar à ativa no próximo ano”, conta.

Nos 1970, a mãe dela trabalhava próximo ao Atelier, na época, localizado na rua Lobo da Costa. Aos 20 anos, Enir estava desempregada e ficava observando as aulas de desenho com modelo-vivo, até que veio o convite. No início era vestida, ainda que ela se sentisse desconfortável, mas em seguida duas artistas a convidaram para posar nua.

Em seguida, o artista gaúcho Paulo Porcella a procurou. Enir lembra que era virgem e nunca havia tirado a roupa na frente de homem nenhum, mas aceitou. “Ganhávamos bem, mas se ganhava o dobro se posasse nua, e não era por sessão, era por hora”, diz.

Dali em diante foram cada vez mais convites, em diversos lugares, entre eles, o Instituto de Artes e ateliês particulares. “Costumo dizer que só se torna artista depois que me desenha”, brinca. Com o dinheiro que recebia, Enir criou sua filha, hoje técnica em enfermagem. “Em 1974, eu tirava cerca de um salário mínimo por semana trabalhando nove horas por dia”, recorda. Entre ficar nua ou com roupa e lingerie, ela prefere a nudez. “Não gosto que vejam minha calcinha, é uma coisa íntima. Tirar a roupa é natural”, comenta ela, relembrando que, na época, a profissão era malvista.

Quando completou 12 anos de profissão, Enir organizou uma exposição, chamada Figura, com obras de artistas que a retrataram. Ela sempre teve um jeito próprio de posar, conseguia relaxar e dormir enquanto trabalhava. Além disso, sempre valorizou a profissão, achava que o artista deveria assinar o seu nome e o da modelo na obra. “Sou a única profissional que ficou mais pelada que a Brigitte Bardot e podia trabalhar dormindo”, se orgulha.

Dentro da história da arte

Ledir segura, com orgulho, obra de Danúbio Gonçalves. JONATHAN HECKLER/JC

Quando começou a posar, Ledir Carvalho Krieger já era formada em filosofia, estudava arte e fazia aula de balé espanhol. A idade ela não revela, mas conta que foi em 1991, no Instituto de Artes, que começou fazendo movimentos de dança. Não parou mais.

Atualmente, trabalha como mediadora no Margs, segue posando e integra um grupo de modelos que se revezam a cada mês na oficina desenho com modelo-vivo, que ocorre quintas-feiras à tarde na CCMQ. “Com a arte contemporânea, a procura diminuiu muito, mas nos espaços que ainda trabalham com a figura humana continuo posando”, explica Ledir.

Nas primeiras vezes, trabalhava vestindo malha. Depois, nas aulas de nu anatômico, Ledir tirava a roupa. Entre os artistas para os quais posou estão Iberê Camargo, Britto Velho, André Venzon, Alfredo Nicolaiewsky. No final do ano passado, ela idealizou uma exposição para um deles, Danúbio Gonçalves. Com o título A glória do pincel, a mostra aconteceu na Galeria Espaço Cultural Duque. “Comecei a ir na casa de Danúbio para conversarmos e para ele me mostrar o que estava produzindo. Ele sempre estava com um papel e lápis na mão e me desenhava enquanto conversávamos”, relembra. Para Ledir, posar é como estar no palco. “Nunca me procurei bonitinha nas obras. Eu procuro no artista a arte dele. É preciso essa cumplicidade. Eu me sinto arte”, comenta.

Uma peça

Nora protagonizou a peça A modelo em 2001. WLADIMIR ALEXANDRE/DIVULGAÇÃO/JC

Ela está nua. De costas. Começa a dizer o texto. “Um dos sons mais bonitos que existem é o do riscar do lápis sobre o papel.” A frase é da atriz e modelo-vivo Eleonora Prado. Ela escreveu e protagonizou a peça A modelo, apresentada em 2001. “Eu queria fazer essa homenagem ao universo das artes plásticas”, conta.

Filha dos artistas plásticos Zoravia Bettiol e Vasco Prado, Nora, como é conhecida, via as modelos trabalhando para seus pais e ficava admirada. “Sempre tivemos muita liberdade em casa. Existia essa tranquilidade de enxergar um corpo nu como um corpo apenas”, comenta. Na década de 1980, aos 18 anos, Nora fazia teatro e precisava de dinheiro. A vivência no ateliê da Pedra Redonda e as técnicas teatrais a ajudaram nessa nova profissão, que ela fazia de forma paralela com a de atriz. Ela explica que, para posar, deve-se alternar três planos: o alto, em pé; o médio, ajoelhada ou sentada etc; e o baixo, deitada. Também deve-se alternar entre poses mais longas e mais curtas. O profissional também precisa saber voltar para a mesma posição. Para ela, a profissão de modelo-vivo não era valorizada. “Eu ficava chateada com a falta de percepção de alguns alunos que não aproveitavam a aula, e também se ganhava pouco na minha época”, diz ela, hoje atuando apenas como atriz.

Nora já posou em dupla - em uma dessas vezes, acompanhada do ator e cantor Antonio Carlos Falcão. Os dois se despiram para Zoravia, mãe de Nora. “O mais engraçado é que cheguei e fiquei nu. Ela, Zoravia, ficou muito feliz e me disse no final da aula: ‘ainda bem que conseguimos finalmente desenhar um homem com pênis!’ Eu perguntei, ‘como assim?’ Ela respondeu: ‘É que os modelos que a gente contrata não tiram a cueca nunca!”, relembra ele.

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