Porto Alegre, quarta-feira, 22 de março de 2017.
PREVISÃO DO TEMPO
PORTO ALEGRE AMANHÃ
AGORA
25°C
30°C
19°C
previsão do tempo
COTAÇÃO DO DÓLAR
em R$ Compra Venda Variação
Comercial 3,0960 3,0980 0,22%
Turismo/SP 3,0500 3,2400 0,30%
Paralelo/SP 3,0500 3,2400 0,30%
mais indicadores
Página Inicial | Opinião | Economia | Política | Geral / Internacional | Esportes | Cadernos | Colunas
ASSINE  |  ANUNCIE  | 
» Corrigir
Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.
Nome:
Email:
Mensagem:
213118
Repita o código
neste campo
 
» Indique esta matéria
[FECHAR]
Para enviar essa página a um amigo(a), preencha os campos abaixo:
De:
Email:
Amigo:
Email:
Mensagem:
213118
Repita o código
neste campo
 
 
» Comente esta notícia
[FECHAR]  
  Seu comentário está sujeito a moderação. Não serão aceitos comentários com ofensas pessoais, bem como usar o espaço para divulgar produtos, sites e serviços. Para sua segurança serão bloqueados comentários com números de telefone e e-mail.  
  Nome:  
  Email:    
  Cidade:    
  Comentário:    
500 caracteres restantes
 
Autorizo a publicação deste comentário na edição impressa.
 
213118
Repita o código
neste campo
 
 
imprimir IMPRIMIR

empreendedorismo Notícia da edição impressa de 27/10/2014

Nasce um vilarejo criativo em Porto Alegre

O 4º Distrito, na zona Norte da Capital, começa a se transformar em um polo de negócios nas áreas de inovação, cultura e educação

Júlia Lewgoy

JONATHAN HECKLER/JC
Distrito Criativo é o grupo que organiza o polo  em formação
Distrito Criativo é o grupo que organiza o polo em formação

O olhar sensível e inovador de algumas pessoas está transformando uma área, até então estereotipada como degradada, no primeiro polo de economia criativa de Porto Alegre. Parte da região do 4º Distrito - formada pelos bairros Floresta, Navegantes, São Geraldo, Humaitá, Farrapos e Marcílio Dias, na zona Norte da Capital - passa a ser ocupada por negócios como galerias de arte, produção de audiovisual e design, escritórios de arquitetura, brechós, escolas e espaços gastronômicos. Em um movimento espontâneo e ainda incipiente, a área refloresce por meio de convivência, ações coletivas e ideias que unem revitalização urbana e reestruturação produtiva.

O grupo mais perene e representativo desse polo em formação se chama Distrito Criativo. Formado por 67 artistas e empreendedores mapeados, o Distrito C, como é apelidado, não tem perímetros oficialmente definidos, mas se localiza no lado Oeste do bairro Floresta. O que motiva a união em torno do território não é um projeto cultural, nem de incentivo às artes, mas sim de impacto econômico e urbano. “Também não queremos ser só uma união de lojinhas para aumentar as vendas, mas um ecossistema que recupere o valor histórico do local”, explica o líder da iniciativa, Jorge Piqué.

Desde novembro de 2013, o grupo debate formas de criar um design comum no território, que identifique o polo, e melhorias urbanas a serem feitas e reivindicadas. Também organiza eventos na comunidade e passeios guiados abertos ao público. Piqué capitaneia a ação por meio da agência de inovação social UrbsNova, que se propõe a criar formas de organização inovadoras e de impacto social. No início dos projetos, a empresa planeja as iniciativas sem cobrar, mas a ideia é que elas se sustentem, a longo prazo, com patrocínios. Por enquanto, o Distrito C sobrevive da boa vontade e do investimento dos próprios empreendedores. “Há muito tempo, existe um discurso de revitalizar o 4º Distrito, mas ninguém faz”, citica Piqué.

Um dos primeiros engajados que apostaram na região foi o proprietário do Porto Alegre Hostel Boutique, Carlos Silveira. Ele, que já viajou por 83 países, começou a busca por uma casa com preço convidativo para transformar em hostel em 2010. “Diziam que o bairro estava degradado, mas eu não via nada de tão assustador. Só é possível revitalizar uma região trazendo negócios e pessoas para ela”, acredita. Hoje, ele lidera o Refloresta, grupo de apoio à revitalização da área, que organiza uma feira de hortaliças e frutas e um brechó de rua. “Tenho o sonho de trazer mais investimentos para cá. Meu negócio só vai ser bem-sucedido se o entorno também for”, projeta.

Há três anos, a galeria Bolsa de Arte, com 35 anos de história, também se mudou do bairro Moinhos de Vento para o Floresta. A proprietária, Marga Pasquali, apostou na localização, porque estava à procura de um espaço arrojado, amplo e próximo aos artistas. “Estamos acostumados a trabalhar com sensibilidade e nos demos conta que aqui era o nosso lugar. O bairro é charmoso, tranquilo, arborizado e com construções antigas, mas as pessoas ainda não o descobriram”, conta. A Bolsa de Arte também tem uma sede no bairro Vila Madalena, em São Paulo, conhecido como o vilarejo alternativo das artes e da boemia. Marga acredita que o Floresta caminha para se igualar ao bairro paulistano, mas, para isso, precisa que mais pessoas acreditem na ideia de investir na região.

Região tem história de produtividade

Os artistas e empreendedores do 4º Distrito vêm percebendo o potencial urbanístico e produtivo de uma região que arquitetos e urbanistas consideram nobre. Mesmo degradado na aparência e em fase de reconstrução, o território ainda resguarda a riqueza arquitetônica de um tempo que representou o boom industrial de Porto Alegre. Seu tesouro são as fachadas sem muros. “O pessoal que trabalha com criatividade valoriza esse tipo de lugar, em que a morfologia dos edifícios faz com que as pessoas não tenham medo de chegar”, explica a professora de urbanismo da Pucrs Cibele Figueira, coordenadora da especialização em Arquitetura da Cidade.

Nos anos 1920, indústrias se instalaram no 4º Distrito, ponto estratégico de entrada e saída da Capital. Operários e proprietários das fábricas formaram uma microestrutura de cidade, com comércio próprio, residências, fábricas, praças e clubes à beira do Guaíba. “Especialmente o Floresta era como gostaríamos que fossem os outros bairros, com várias classes sociais convivendo”, descreve Cibele.

A localidade se desenvolveu, mas a região sofria com inundações e as obras da avenida Farrapos desconectaram a orla do Guaíba do bairro Floresta. Empresas cresciam e necessitavam de novas áreas, dando início aos clusters industriais em outras localidades. Sem incentivos planejados da prefeitura, a região foi se desconfigurando e começou a se esvaziar na década de 1960. Permaneceu abandonada e lembrada como uma zona insegura. Mas arquitetos e profissionais da área criativa defendem que o território não é tão cinza quanto parece.

Há 72 anos no local, a confecção de artigos de Natal Wanda Hauk é a única integrante do Distrito Criativo sobrevivente do tempo da explosão econômica da região. A atual sócia-proprietária, Sandra Hauk, conta que acompanhou o abandono e o desenvolvimento do bairro desde que nasceu, há 61 anos. “Não saímos daqui, porque somos teimosos”, brinca. “A localização é excelente e nossa vizinhança é engajada. Em um movimento grande assim, temos mais força para pressionar a prefeitura a nos fornecer estrutura.”

Desde os anos 1990, o burburinho de revitalizar o 4º Distrito e algumas ações específicas de obras da prefeitura e de investimentos privados cresceram. Mas, nos últimos anos, há pessoas particularmente interessadas no território. “Além de ser um movimento produtivo e urbanístico, o que está acontecendo no Floresta é um movimento social. Há pessoas se mobilizando para que as coisas aconteçam”, comemora Cibele.  

Espaços concentram negócios, cultura e aprendizado

Oliveira criou o CC100, espaço alugado  por diferentes empreendedores criativos. JONATHAN HECKLER/JC

Na onda de pensar coletivamente o desenvolvimento de um polo de economia criativa no 4º Distrito, alguns empreendedores também investiram em áreas privadas para serem usados de forma compartilhada. Os multiespaços exclusivos para locatários que tenham o perfil do local ganham vez na região. Um deles é o complexo arquitetônico Vila Flores, listado como patrimônio histórico e cultural de Porto Alegre e transformado em um centro de cultura, educação e negócios inovadores.

Construído em meio à onda industrial na década de 1920, o conjunto servia como casa de aluguel para trabalhadores industriais, mas permaneceu abandonado. Herança familiar, o Vila Flores está sendo reformado e ocupado diariamente por pessoas interessadas em conviver e multiplicar conhecimento, que alugaram o local para realizarem seu trabalho. Entre elas, companhias de teatro, artistas e estúdios de design, arquitetura e criações em geral.

“Moro em São Paulo, não conhecia as pessoas do bairro e comecei a chamar a comunidade para conhecer o Vila Flores e ajudar a pensar o que poderíamos fazer”, conta João Wallig, proprietário do complexo. Todo o conceito do espaço foi pensado de forma coletiva. Com experiência na área corporativa, Wallig compreende que o que faz diariamente, até hoje, é uma pesquisa de mercado orgânica, com a participação das pessoas.

O ambiente também se dispõe a ser um lugar de aprendizado, de apresentações e de moradia. Tudo é questão de negociar. “Conversamos com cada locatário para chegarmos em uma parceria viável para nós e para ele”, explica a gestora cultural Aline Bueno. O Vila Flores também é palco de projetos culturais e eventos como o projeto Simultaneidade (foto de capa), que reuniu artistas do bairro. Por enquanto, apenas os proprietários investiram na reforma, mas a ideia é que a obra conte com doações, patrocínio privado e financiamentos públicos.

Outro espaço privado alugado por diferentes empreendedores criativos é o CC100. Seu criador, Auber de Oliveira, é um investidor imobiliário que não tinha intimidade com profissionais da área, mas percebeu o movimento de criação do polo e encontrou um caminho para seguir. Em 2011, comprou um prédio antigo e abandonado, investiu em uma reforma e, neste ano, passou a locar para interessados selecionados. Para isso, buscou ajuda em um escritório de assessoria especializado em gestão criativa. “Procuramos um público sensível para alugar os espaços, que valorize o local que criamos com carinho”, considera Oliveira.  

Planejamento público é essencial para sustentar iniciativas  

Cláudia investigou o 4º Distrito em sua dissertação de mestrado. JONATHAN HECKLER/JC

Porto Alegre é a capital brasileira com maior potencial de desenvolvimento de economia criativa, de acordo com um estudo da Fecomércio de São Paulo, publicado em 2013. Para o coordenador do Observatório de Economia Criativa da Ufrgs e professor da universidade Leandro Valiati, a formação de um polo no 4º Distrito ainda não está consolidada, mas há um início. Segundo o economista, falta uma articulação produtiva, com políticas públicas que possibilitem maior investimento privado. “Esse movimento pode permitir uma virada importante, mas é preciso que aconteça de forma integrada entre o governo e setor privado”, opina Valiati.

A arquiteta Cláudia Titton, fundadora do escritório Urbana Arquitetura e professora da Ulbra, investigou o 4º Distrito em sua dissertação de mestrado, finalizada em 2011, antes do início da formação de um polo na região. A pesquisa indicou que a regeneração urbana do local poderia acontecer por meio de uma reestruturação produtiva, “devolvendo vida ao lugar”, segundo as palavras de Cláudia. No entanto, há três anos, a conclusão do trabalho da arquiteta a decepcionou. “Descobri que todos os planos do município para o 4º Distrito são intenções, não projetos. Não há planejamento estratégico e estudo de viabilidade para a área”, critica.

Hoje, a arquiteta acredita que a classe inovadora é capaz de ser o motor do desenvolvimento da região, mas precisa de um aporte governamental para conseguir, a longo prazo, manter a iniciativa viva. Desde 2011, Cláudia afirma não ter visto os projetos urbanísticos da prefeitura para a o 4º Distrito evoluírem como ela gostaria.

Embora de forma lenta, as medidas começam a tomar forma. Em setembro deste ano, o Gabinete de Inovação e Tecnologia (Inovapoa) da prefeitura de Porto Alegre, em parceria com o IPA, inaugurou uma incubadora no DC Navegantes, localizado no 4º Distrito,  para capacitar oito empreendedores inventivos com propostas para a área social e geração de emprego e renda. Chamado Tecendo Ideias, o espaço é um projeto embrionário, que pretende contribuir com o desenvolvimento do polo de economia criativa na região.

Além disso, a prefeitura deve lançar, em novembro, o Plano de Economia Criativa da Capital, elaborado com outras 38 instituições de diversos segmentos. Segundo a secretária do Inovapoa, Deborah Vilella, o objetivo é mapear as áreas de Porto Alegre com potencial para negócios criativos e, a partir daí, conceder redução de impostos para empresas que se instalarem nelas, com incentivo da Lei de Inovação Tecnológica.

Outra intenção é acelerar os processos de licenciamento para empresas que desejarem se instalar nas regiões traçadas. “Todos queremos que o 4º Distrito seja revitalizado, mas falta unir as ideias para alavancar a região. A meta é que a prefeitura faça isso a longo prazo”, planeja Deborah. A definição das áreas com potencial para economia criativa deve se iniciar em 2015 e espelhar-se no que já foi feito em São Paulo e no Rio de Janeiro.

O arquiteto e supervisor de desenvolvimento urbano da Secretaria Municipal de Urbanismo (Smurb), Hermes Puricelli, integrante do grupo de trabalho do 4º Distrito, admite que, no momento, a secretaria está mais focada em aprovação de projetos e licenciamentos do que em planejamento territorial. “Há dificuldades porque a regeneração do território não é a prioridade. Ainda temos favelas no 4º Distrito”, considera. Para Puricelli, a organização da sociedade em prol de um território é, muitas vezes, mais importante do que as ações governamentais.

Leia também:
A mistura cultural da Vila Flores

COMENTÁRIOS
Denise - 28/10/2014 - 10h42
A reportagem não especifica endereços nem contatos..COmo faço para obter mais informações?


ricardo k sulzbach -
28/10/2014 - 10h52
q legal!


elisabeth neumann -
28/10/2014 - 15h27
endereço para contato , cm contatar Jorge Piqué , algo a haver com a Associação ???


Jane Varella -
29/10/2014 - 14h58
Eu participo de um brechó de rua no 4 Distrito


Júlia Lewgoy -
29/10/2014 - 17h02
Oi, pessoal! Por uma política interna, não passamos os contatos das fontes. Porém, todos os empreendimentos e grupos citados na matéria têm página na internet.


Jorge Piqué -
30/10/2014 - 10h02
Em primeiro lugar, queria agradecer muito a Julia e ao Jornal do Comércio por terem dado essa divulgação a nossa iniciativa, o Distrito Criativo. O Distrito C não é uma associação de bairro ou associação comercial, essas são organizações com formas e métodos diferentes. O Distrito C é um projeto coletivo que se desenvolve a partir de um projeto inicial da UrbsNova, Agência de Inovação Social, que procura uma abordagem inovadora sobre territórios.


Jorge Piqué -
30/10/2014 - 10h08
Para conhecer mais o Distrito Criativo veja a nossa página: http://distritocriativo.wordpress.com/ No momento são 67 participantes, entre os quais os seguintes que foram entrevistados na matéria: Galeria Bolsa de Arte, CC100, Vila Flores e Porto Alegre Hostel Boutique. Se quiserem contatar diretamente meu email é jorgepique@gmail.com Um abraço e obrigado novamente à Julia e ao JC.


Lucas Luz -
30/10/2014 - 14h24
Anos atrás tive um sonho (de verdade, enquanto dormia) que a prefeitura cedia os espaços dos prédios (sobrados) da Voluntários para exploração comercial de empresários do entretenimento. Lembro que o sonho me mostrou até como isso se gerenciava. Baita iniciativa!

imprimir IMPRIMIR
TEXTOS RELACIONADOS
Tradicional reduto boêmio da Capital, bairro se estrutura para mudar de status
Cidade Baixa quer virar polo oficial de lazer
Abreu lembra que o Grupo Gerdau já está na quarta geração, o que demonstra a solidez da governança
A hora de passar o bastão nas empresas
Jardim começou a desenhar as próprias roupas e recebeu o estímulo de amigos para fazer do passatempo
A periferia vira fábrica de negócios
Walfrid estima chegar ao final do ano com 5 mil clientes
Os clubes de assinaturas viraram mania

 EDIÇÃO IMPRESSA

Clique aqui
para ler a edição
do dia e acessar
o arquivo do JC.


 
para folhear | modo texto