Notícia da edição impressa de 06/11/2009
Uma viagem por Garibaldi, a cidade do espumante

Cave com ambientação especial e multicor é uma das atrações da Rota dos Espumantes Foto: Marco Quintana/JC
A Serra Gaúcha já tem seu lugar no mapa mundial do vinho como referência na produção de espumantes. Os champanhes que conquistam prêmios mundo afora saem de dezenas de vinícolas em diferentes municípios da região. Mas apenas uma cidade leva o título de Capital Nacional do Espumante. É um epíteto que Garibaldi chamou para si. Não que tenha um terroir tão diferente de municípios vizinhos como Bento Gonçalves. Mas a história e a qualidade dos espumantes garibaldenses permitem aos locais encherem a boca ao propagandearem o título.
Nenhuma aula é melhor do que um passeio pela Rota dos Espumantes, da qual fazem parte seis vinícolas (Peterlongo, Chandon, Georges Aubert, Garibaldi, Courmayer e Adolfo Lona), para entender o porquê da fama. No passeio o turista descobre que, na cidade, mais especificamente na vinícola Peterlongo, foi produzido o primeiro champanhe do Brasil, em 1913. E entende a dimensão que a indústria do espumante tomou quando, em 1973, a gigante multinacional francesa Möet&Chandon escolheu Garibaldi para instalar a vinícola Chandon no Brasil.
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Os encantos de Garibaldi não estão apenas na bebida borbulhante pela qual é reconhecida nacionalmente. A exploração do turismo nas vinícolas incentivou a criação de outras rotas no município, como a Passadas, com enfoque na arquitetura histórica da região urbana e a Ae Ternum, um roteiro religioso. Mas é mesmo a Estrada do Sabor, uma viagem por caminhos rurais do município, com direito a muita culinária colonial italiana, a que permite um contato mais íntimo com a cultura e as tradições locais. O chef Laércio Vesterlund, especialista em gastronomia italiana e consultor do programa Economia da Experiência, do governo federal, explica que nas casas de campo da região encontra-se a culinária da Itália como ela era no passado. “Se tu fores na Itália hoje, não encontrarás o que vês aqui. Porque lá a culinária evoluiu. Aqui, temos um retrato de como era a culinária italiana há mais de 130 anos”, revela.
Para saborear um bom espumante e uma típica refeição colonial e conhecer um pouco de história, embarque nesta viagem pelos caminhos de Garibaldi.
Dica: a cidade e o roteiro rural são mal sinalizados. Perguntar para se localizar pode ser necessário. Mas perder-se nas deslumbrantes paisagens serranas do interior não é nenhum castigo.
Principais uvas utilizadas
Chardonnay - a mais utilizada, possui aroma pronunciado de frutas brancas
Pinot Noir - confere estrutura de paladar e volume de boca ao espumante. É uma uva tinta, podendo conferir cor a um rosé, ou podendo ser vinificada em branco, eliminando-se o contato do suco com a casca
Riesling - muito utilizada para conferir acidez e frescor ao espumante
| Prosecco - uva que faz espumantes, normalmente brut, leves e frutados. Mas também é o nome do espumante feito com a uva, um nome que a Itália pleiteia ter exclusividade no uso, a partir da obtenção de denominação de origem, como ocorre com o champagne, na França
Moscato - uvas da família dos moscatos são bastante aromáticas e frutadas, dando origem ao espumante moscatel
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Visitação com espetáculo
De repente, as pedras de basalto assumem um tom vermelho e os barris, suaves focos de luz azul. A cave não perde sua escuridão, mas ganha ares de espetáculo. Fruto de investimento de R$ 149 mil, o projeto luminotécnico, a ambientação especial e os recursos sonoros tornam o passeio pela fábrica da Peterlongo um dos mais atraentes da região da uva e do vinho.
A empresa tem se preocupado em explorar para turismo e eventos o sítio histórico no qual está localizada. Além das caves, uma alameda de paralelepípedo interna também conta com iluminação e pode ser locação para coquetéis à noite. No Natal, o turista se encanta com a decoração luminosa da fachada. Ao todo, R$ 200 mil foram investidos apenas para o show natalino. As luzes valorizam o portentoso complexo industrial e de varejo, localizado na parte alta de Garibaldi.
O aparato tecnológico não ofusca o script comum a praticamente todas as visitações a vinícolas da região: a explicação de como é fabricado o espumante. Como em outras empresas, o visitante da Peterlongo descobre detalhes da fabricação pelos métodos charmat, champenoise e asti. Parte da visitação é dedicada à história da empresa, que teria produzido, em 1913, o primeiro espumante da América Latina.
Durante as explicações, o turista pode imaginar como era a produção do champanhe. Ao passar por um túnel com abertura para a rua onde os espumantes feitos pelo método tradicional permaneciam em contato com as leveduras mortas, o visitante descobre que a orientação da construção era para receber o vento mais gelado. Tudo para o líquido congelar na garrafa e ser feito o processo de degorgement, ou remoção da borra congelada. “Como não existia equipamento para congelamento, tinham de esperar o vento gelado. E, quando ele vinha, não importa a hora, o povo tinha de descer para a cave para fazer o degorgement”, conta João Ferreira, supervisor comercial da empresa.
A visita encerra-se no casarão da década de 1920 onde morou o fundador e hoje funciona o varejo. É hora de degustar. E comprar.
Dica: Toque nas pedras de basalto que compõem as caves. Elas estão sempre geladinhas, com uma temperatura de 5°C a 7°C, ajudando a regular a temperatura do ambiente e proporcionando melhores condições de produção.
| Vinícola Peterlongo |
Endereço: Rua Manoel Peterlongo, 216, Garibaldi Telefone: (54) 3462-1355 Visitação: diariamente, das 9h às 17h30min |
| Outras vinícolas |
Garibaldi Endereço: Av. Independência, 845, Garibaldi Telefone: (54) 3464-8104 Visitação: diariamente das 9h às 17h30min
Georges Aubert Endereço: Av. Rio Branco, 1276, Garibaldi Telefone: (54) 3462-1155 Visitação: diariamente das 9h às 17h30min
Chandon Endereço: Rodovia RST-470, Km-224, Garibaldi Telefone: (54) 3462-2499 Visitação: segunda a sexta, das 8h15 às 11h30min e das 13h às 16h45. Sábados, das 9h30min às 14h30min
Courmayer Endereço: Av. Garibaldina, nº 32, Garibaldi Telefone: (54) 3463-8517 Visitação: segunda a sexta, das 9h às 11h30min e das 14h às 17h30min. Sábado e domingo, mediante agendamento
Adolfo Lona Telefone: (54) 3462-4014 Visitação: mediante agendamento |
As relíquias dos Bettú
Aos 94 anos, sentado em um banco de madeira sobre a grama, Augusto Bettú entrelaça as varas de vime, dando forma a um cesto. As mãos já trêmulas, a visão prejudicada pela idade, nada disso impede que cumpra a tarefa com maestria e ensine a técnica à neta Rosângela. A cena bucólica em uma tarde primaveril no interior de Garibaldi já seria suficiente para encantar qualquer turista que se perca pelos caminhos rurais da região.
Mas a verdadeira atração da família não é tão linda para os olhos, tampouco evidente. O que se esconde nos fundos da casa mexe com o paladar do visitante. As instalações abrigam vinhos que chamam a atenção de renomados sommeliers e enófilos do País. Quem visita a pequena vinícola familiar pode não se impressionar à primeira vista. O ambiente escuro não permite grandes observações, e uma certa bagunça toma as áreas de envelhecimento e o pequeno estoque, com apenas 200 garrafas.
A visão de garrafões de vinho de mesa também engana. “Não se impressione com esses garrafões. Isso é nosso estoque. Depois que o vinho básico sai dos tanques de inox, vem para os garrafões para decantar. Porque nós não filtramos o vinho. No processo de filtragem, sempre ocorre alguma perda de qualidade”, explica o produtor e enófilo Vilmar Bettú, que assina pessoalmente as garrafas de sua produção.
São os detalhes que fazem dos vinhos desse apaixonado pelo ofício especiais, a ponto de merecerem citações em livros especializados e já terem sido servidos por sommeliers de grandes restaurantes do centro do País, como o Terzetto ou o Aprazível, no Rio. A começar pela extração do suco da uva. Na artesania dos Bettú ela é feita por meio da pisa (amassamento com os pés). Os cortes são fruto de repetidos testes e da criatividade de Vilmar e incluem uvas pouco utilizadas no circuito comercial, como garganega, ancellota ou alicante bouchet.
Na cantina, tampouco há exigência de tempo de amadurecimento, tudo depende do gosto do dono. Um dos vinhos mais raros e valiosos do estoque é um riesling safra 1992. Apenas conhecendo a história desses vinhos e provando-os é possível entender o nome do empreendimento: Reliquiae Vini. A cantina abriga mesmo relíquias.
O trabalho de Vilmar aprimorou o que era feito pelo pai. O próprio nono impressiona-se com os vinhos produzidos pelo filho. “Bom este vinho!”, exclama Augusto, após provar mais um corte. A boa notícia é que a tradição familiar deve continuar. Aos 31 anos, a filha do produtor, Larissa, é enóloga. “Vejo com admiração os vinhos do meu pai, e admiro por todo o amor com que ele faz. Mas ainda pretendo fazer melhor”, promete.
Dica: Não visite a cantina nem peça para degustar os vinhos sem agendamento prévio. Nem sempre o produtor está disponível.
| Reliquiae Vini |
Oferece cursos de degustação de seus vinhos
Telefone: (54) 3462-6807 Preço: R$ 100,00 pelo curso e degustação |
Almoço no porão
É um porão antigo, piso de chão batido, como nas antigas casas italianas na região. O lugar é úmido e recheado de velharias, ultrapassados utensílios domésticos e para usar na roça. Uma primeira descrição assim pode enganar quem ainda não conhece o subsolo da casa da família Bettú Lazzari.
Trata-se do ambiente mais charmoso e aconchegante do lar. Cada detalhe é recheado de história e do amor que a matriarca, Odete Bettú Lazzari, tem ao manter o ambiente no estilo antigo para receber os turistas. Uma cesta de ovos de galinha caipira, ramos de macela acomodados em um antigo tacho, um quadro de instrumentos antigos na parede e um velho tarro com 12 flores copo-de-leite: tudo foi cuidadosamente acomodado para bem receber os clientes.
Desde 2001, Odete e as quatro filhas - Rosângela, 35 anos, Raquel, 34, Roselaine, 29, e Raíssa, 21 - abrem a casa para os forasteiros. Basta telefonar antes agendando a chegada. O ponto alto da recepção é a refeição, oferecida numa grande mesa instalada no próprio porão. É a oportunidade de os visitantes apreciarem antigas receitas que já não são feitas nem na Itália. Uma das estrelas do cardápio de Odete é a abóbora recheada com pien, o recheio dos capeletes, feito com carne de gado, de galinha, queijo, pão, ovos, noz moscada, sal e temperos, a maior parte dos ingredientes produzidos na própria terra. A polenta sapecada na chapa não pode faltar. De sobremesa, receitas nem sempre italianas, mas não por isso menos gostosas. Uma boa pedida é a abóbora caramelada, sequinha por fora e cremosa por dentro.
Antes ou depois da refeição, Odete convida os visitantes a um passeio pela pequena propriedade. A visita à horta, de onde saem os temperos e verduras como a alcachofra, é obrigatória. É também onde estão plantadas flores, cujas pétalas, comestíveis, adornam saladas feitas pelas anfitriãs. Dependendo do horário, o visitante poderá conferir as fornadas de pão. Bem como, literalmente, pôr a mão na massa na hora do preparo da refeição. Odete apresenta tudo tomada por uma nostalgia contagiante. Olha para um velho tronco de árvore caído no chão e exclama: “olho para este tronco e imagino como era a árvore, me lembro do passado”.
A visita pode ter toques de diversão. Como quando Odete insiste em pegar os dois pequenos gansos recém-nascidos. Enfia a mão na gaiola, enfrenta a gansa-mãe, que protesta, e empunha as duas pequenas aves amarelinhas. Como se tudo aquilo não fizesse parte de seu dia-a-dia, como se novos gansos não nascessem periodicamente, ela acaricia os animais e, feito criança, exclama: “Que bonitinhos!”
Tanto quanto seus dotes culinários e o porão, a simpatia e simplicidade da anfitriã é o que há de emocionante na parada pela casa dos Bettú Lazzari.
Dica: Não esqueça de agendar a visita, especialmente quando em grupo. Com alguma sorte, dependendo da disponibilidade da família, casais são atendidos, ainda que sem agendamento.
| Família Odete Bettú Lazzari |
Visitação à propriedade e refeições sob encomenda
Telefone: (54) 3464-7755
Preço: R$ 25,00 (apenas almoço) e R$ 30,00 (almoço, com ajuda no preparo da massa) |
Desvendando a Estrada do Sabor
Para fazer um passeio pela Estrada do Sabor nem sempre é fácil se localizar nos mapas turísticos. Os caminhos são tortuosos e pedir informação de boca em boca pode ser necessário. Mas não é nenhum castigo perder-se nesta estrada, que corta as montanhas repletas de açudes, riachos, parreirais e pacatas comunidades rurais.
Para mais informações, visite os sites www.estradadosabor.com.br e www.rotadosespumantes.com.br ou comunique-se com o Centro de Informações Turísticas, na rodovia RST-470, Km 228. O atendimento é diário, das 9h às 17h, e o telefone é (54) 3464-0796.
| Restaurante Casa Di Paolo |
A Casa Di Paolo, antigo Giuseppe, é um clássico da Serra Gaúcha. Como todo restaurante típico do gênero, serve massas, galeto, polenta, sopa de capelete, pão caseiro, radicce. Mas a casa localizada entre Bento Gonçalves e Garibaldi, uma das seis do mesmo grupo empresarial, pode se gabar de ser especial. Há oito anos, recebe o título de “Melhor Galeto do Brasil” do Guia Quatro Rodas. É sempre uma opção para o turista que visita a Rota dos Espumantes. E agora ainda mais: o restaurante, que só abria para o almoço, recebe clientes de segunda a sábado também no jantar.
Endereço: RSC-470, Km 221,6, entre Bento Gonçalves e Garibaldi
Telefone: (54) 3463-8505
Horário: das 11h30min às 15h e das 19h às 23h. Fecha aos domingos à noite. |
| Hotel Casacurta |
A família Casacurta tem tradição na recepção de hóspedes. No século XIX, os imigrantes Sebastiano e Isabela Casacurta já possuíam uma hospedagem para abrigar recém-chegados da Itália e os primeiros viajantes que passavam pela vila que deu origem a Garibaldi. Esse primeiro hotel funcionou até 1947, quando foi vendido e demolido. Mas, em 1953, a família voltava às atividades com a construção de um novo prédio na cidade de Garibaldi, onde até hoje funciona o Hotel Casacurta. Quem se hospeda no histórico local não pode deixar de aproveitar a renomada cozinha da hostaria, aberta à noite.
Endereço: Rua Luiz Rogério Casacurta, 510, Garibaldi
Telefone: (54) 3462-2166 |
| Família Olir Brugalli |
Podem ser degustados e adquiridos o salame e a copa Nono Honório.
Telefone: (54) 3464-1380 |
| Família Vaccaro |
Trilhas, cascata e passeio pela propriedade, além de refeições sob encomenda.
Telefone: (54) 3459-1128 |
| Família Jorge Mariani |
Passeio pelos parreirais com contemplação da paisagem, com “carreton”, degustação de produtos ecológicos e agroindustriais e visita à antiga residência da família.
Telefone: (54) 3459-1107 |
Paixão por antiguidades
Tem de bater na casa indicada no mapa e chamar por José Salvagni. Se ele não estiver, a esposa, Antônia, será a cicerone. Apoiado em uma bengala, o anfitrião rejeita a ajuda para descer as escadas. Devagarinho, vence os degraus. É orgulhoso de sua idade. “Tenho 90 anos”, se satisfaz ao informar. O “museu” foi montado por ele.
As antiguidades estão em uma pequena casa de madeira contígua à residência. O espaço abriga uma velha cozinha, com elementos que remontam aos hábitos dos primeiros colonizadores. Uma das principais estruturas expostas é o “fogolaro”. “Quando criança, era aqui que se fazia a polenta”, diz José apontando para a panela pendurada sobre uma elevação de concreto onde ficava o fogo.
Os utensílios expostos compunham a cozinha de um falecido tio de José. A eles se somaram fotos antigas e objetos que demonstram outra faceta do colecionador: a habilidade manual. Na parede, uma espingarda fabricada por ele não difere de armas industriais. Pendurados, estão cestos de vime e chapéus de palha de trigo feitos pelo dono.
As qualidades de artesão de José ficam evidentes quando ele mostra uma réplica, em miniatura, da casa onde passou a infância. Enquanto observa a própria criação, relembra os velhos tempos: “nesta janela ficava meu quarto”, “a cozinha era separada da casa porque se tinha muito medo de incêndio”...
O museu mais rico da família fica mesmo dentro de José: são lembranças que ele revela ao visitante. “Os imigrantes passaram muito trabalho. No inverno, meus pais tinham de dormir na estrebaria, junto com as vacas, para não passar frio”, conta.
Dica: Em ônibus de turistas que visitam a propriedade, os guias pedem uma colaboração de R$ 2,50 por pessoa. Para pequenos grupos, o valor, opcional, pode ser semelhante ou um pouco maior.
| Família José Salvagni |
As histórias do nono José, aliadas à presença de utensílios, conferem uma aura especial ao ambiente.
Telefone: (54) 3464-0918
Preço: a contribuição é opcional, mas bem-vinda. |