A aposta de parte do mercado de que a operadora de telefonia GVT receberia uma nova proposta de compra acabou se concretizando, embora não da maneira imaginada pela maioria dos investidores. Em vez do grupo francês Vivendi ou de um terceiro competidor, a Telefônica decidiu elevar a própria oferta pela operadora para R$ 50,50 por ação, o equivalente a R$ 6,95 bilhões.
A nova proposta é 5,21% maior que os R$ 48,00 oferecidos no início de outubro pela empresa espanhola e supera em 20,2% a oferta feita pela Vivendi, que em setembro ofereceu R$ 42,00 por ação da companhia. Em comunicado, a Telefônica justificou o novo preço aos resultados apresentados pela GVT no terceiro trimestre deste ano. A operadora registrou lucro líquido de R$ 57,2 milhões, ante um prejuízo de R$ 14,8 milhões no mesmo período de 2008. "Estes resultados permitiram à Telesp (Telefônica) confirmar suas perspectivas em relação aos fundamentos de longo prazo da GVT", afirma a empresa.
Para especialistas, no entanto, o verdadeiro objetivo da Telefônica foi se antecipar a uma possível contraoferta da Vivendi e, ao mesmo tempo, tornar o negócio ainda mais caro para o grupo francês. A venda das ações da GVT está prevista para acontecer em leilão na BM&FBovespa no dia 19. Conforme a legislação brasileira, qualquer oferta concorrente precisa ser, no mínimo, 5% superior ao preço oferecido, ou seja, de R$ 53,03 por ação. Caso a Vivendi queira se manter na disputa, portanto, precisará se mostrar disposta a desembolsar até R$ 7,3 bilhões pela GVT e obter autorização da bolsa para uma oferta concorrente até a véspera do leilão.
Para o gerente de análise da Modal Asset Management, Eduardo Roche, o movimento dos espanhóis praticamente encerrou a questão. "A Telefônica mostrou que entrou nessa disputa para levar, ficou muito difícil para a Vivendi concorrer agora." Roche avalia que os espanhóis podem ter elevado a própria oferta para diminuir a possibilidade de ter que pagar ainda mais caro pela GVT. "Havia o risco de a Telefônica ter de pagar 10% acima da proposta original, e não 5%, caso a Vivendi decidisse elevar o valor."
O diretor da área de análise da BES Securities, Gilberto Pereira de Souza, considera que a possibilidade de uma nova oferta pela GVT deixou de ser uma questão técnica e se tornou uma decisão estratégica. "Estamos falando agora até quanto uma empresa (Vivendi) está disposta a pagar para entrar no mercado brasileiro e até onde a outra (Telefônica) pretende ir para defender o seu mercado", afirma.
Em relatório, a analista-chefe da Ativa Corretora, Luciana Leocadio, afirma que, ao elevar a própria proposta, fica bastante clara a disposição da Telefônica em adquirir a GVT, mesmo pagando um prêmio elevado pelo ativo. O único entrave para o negócio agora é a aprovação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). A expectativa é de que o órgão regulador coloque na pauta os pedidos de anuência prévia para o negócio até a data do leilão na BM&FBovespa.
SDE avalia se transação oferece risco de concentração
A pedido da Telefônica e da GVT Holding, a Secretaria de Direito Econômico (SDE), do Ministério da Justiça, abriu um ato de concentração referente à possível compra da GVT pela empresa. O ato de concentração foi publicado pela SDE na edição de hoje do Diário Oficial da União. A SDE analisará, no ato de concentração, se o negócio será benéfico ou não para o mercado do ponto de vista concorrencial.
O parecer da SDE não está entre as três condições básicas definidas pela Telefônica para a compra da GVT. A primeira das três condições foi atendida pela GVT na terça-feira, quando seu Conselho de Administração decidiu eliminar restrições à venda. A segunda condição, a ser cumprida, é a concessão de anuência prévia ao negócio pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). A terceira é a de que mais de 50% dos acionistas da GVT aceitem vender suas ações.