As vendas no comércio varejista devem continuar crescendo nos próximos meses, mas não no mesmo nível registrado em junho, na opinião da economista-chefe do Bank of New York Mellon ARX Investimentos, Solange Srour Chachamovitz. A melhora na demanda e nas condições de crédito foi importante e vai continuar sendo relevante para alavancar as vendas nos meses a seguir, segundo a economista. “É natural que daqui para a frente as vendas do comércio não voltem a fraquejar como antes. Devem ter novas acelerações, mas não no mesmo ritmo de junho, que foi muito forte. É possível que o consumo tenha uma força maior no segundo semestre em relação ao primeiro”, avaliou.
De acordo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as vendas do comércio varejista restrito subiram 1,5% em junho ante maio, com ajuste sazonal. O resultado ficou acima do teto do intervalo das estimativas dos analistas, que esperavam desde uma queda de 1,5% a uma alta de 0,75%, com mediana negativa de 0,2%. No confronto com o sexto mês de 2011, as vendas cresceram 9,5% e também ficaram longe das previsões (de 3,6% a 8,7%, com mediana de 6,55%). O BNY Mellon ARX previa estabilidade nas vendas na margem e avanço de 7,2% em junho, ante igual mês do ano passado.
Dentre as atividades pesquisadas, as vendas de hipermercados e supermercados voltaram a surpreender, só que desta vez para cima, segundo a economista. Depois da queda inesperada de 0,30% em maio, houve alta de 0,70% nas vendas de hiper e supermercados em junho, conforme o IBGE. “Parece que o dado do setor não está sendo um bom indicador para as projeções. Como representa grande parte do índice, as estimativas acabam vindo na contramão”, disse.
Na avaliação de Solange, se o consumo se mantiver expressivo nos próximos meses, perto de 1%, as chances de o PIB fechar 2012 acima de 1,5% aumentam. “Se o consumo ficar forte, há condições de o PIB terminar o ano mais próximo de 1,8%”, afirmou. Por enquanto a economista prevê um avanço do PIB de 1,7% em 2012. “Apesar dos dados (do varejo), o PIB no segundo trimestre não deve mudar muito e ter um crescimento entre 0,4% e 0,5%”, completou. Já as vendas no varejo, conforme a instituição, deverão fechar o ano com crescimento de 8,5%, contra 6,7% em 2011.
Para o economista da LCA, Paulo Neves, a alta acima do esperado das vendas do varejo em junho indica que a economia começou a pegar tração no final do segundo trimestre, mas isso não será o suficiente para que o PIB avance 2% neste ano. “Foram bem-sucedidas as medidas do governo para estimular o consumo no trimestre passado, como a redução do IPI para a venda de carros. Mas, mesmo assim, o País deve avançar 1,8% neste ano e apresentar uma velocidade de expansão de 3,3% no último trimestre ante o mesmo período de 2011”, comentou. Ele pondera que a velocidade do nível de atividade será menos vigorosa nos últimos três meses do ano do que o esperado pelo Ministério da Fazenda e pelo Banco Central, que aguardam um incremento da economia de 4% ante os mesmos meses do ano passado.
Os números mais favoráveis das vendas do varejo em junho não foram suficientes para alterar as projeções da LCA sobre os principais indicadores do nível de atividade. Neves ressalta que o IBC-BR de junho deve apresentar avanço de 0,5% na margem, o que resultaria em uma alta de 0,8% ante o mesmo mês do ano passado. Se esses números forem confirmados, o índice apurado pelo Banco Central deve subir 1,5% de janeiro a junho, ante o mesmo semestre do ano passado, sem ajustes sazonais.
Já o economista-sênior do Bradesco, Robson Pereira, tem uma projeção mais otimista. Para ele, a expansão nas vendas do comércio varejista em junho indica que o País começou a ingressar num período em que a retomada do crescimento ficará mais “evidente”, diante dos estímulos que foram implementados pelo governo. De acordo com o banco, o PIB poderá subir 2,10% em 2012. “O número tem um viés para baixo, pelo que já aconteceu no semestre passado. Mas a tendência é de que tenhamos alguma aceleração. A grande questão é saber a magnitude dessa aceleração”, explicou Pereira.
Redução do IPI já cumpriu sua função, avalia a FGV
Os efeitos da suspensão de benefícios fiscais para a compra de bens duráveis ainda são uma incógnita, segundo o coordenador das pesquisas Conjunturais do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), Aloisio Campelo. Mas, ainda assim, ele disse acreditar que a medida do governo federal de redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para a aquisição de automóveis e eletrodomésticos da linha branca já cumpriu a sua função e poderá ser “relaxada” no fim de agosto ou antes de terminar o ano.
As vendas de produtos duráveis, com destaque para os veículos e eletrodomésticos como fogão e refrigerador, puxaram o resultado do comércio em junho, que avançou 1,5% ante o mês anterior, de acordo com o IBGE.
Para Campelo, a taxa de junho foi “relativamente” concentrada no segmento de automóveis, que avançou 16,4% na passagem do mês, atendendo às expectativas do governo de acelerar o desempenho do setor e da economia. Somam-se a isso a redução do IPI para bens duráveis, o esforço de queda da taxa básica de juros, a melhoria do acesso ao crédito e a manutenção do emprego e da renda em um patamar alto como justificativas pelo crescimento das vendas no comércio varejista.
Ainda de acordo com o economista da Fundação Getulio Vargas, caso ocorra uma melhora no cenário externo, terá passado também o momento de emergência da economia brasileira, e o governo poderá então suspender o benefício de redução do IPI. A visão de Campelo é que há limite para o estímulo ao consumo, política adotada pela equipe econômica há muitos meses.
A economista-chefe do Bank of New York Mellon ARX Investimentos, Solange Srour Chachamovitz, acredita que o governo poderá prorrogar a redução do IPI para automóveis. Segundo ela, o anúncio deve ficar mais para o fim do mês. “Ainda não está dado que o setor vai continuar bem nos próximos meses. O governo vai querer garantir vendas positivas até o final do ano”, previu Solange.