José Bonifácio, o patriarca da Independência, constatava, no início do século XIX, que “o luxo e a corrupção nasceram entre nós antes da civilização e da indústria”. Não é de se admirar, então, mesmo passados 200 anos, assistir a descalabros institucionais no País. A impressão que dá é que a estabilidade de nossa “República” depende permanentemente de conchavos entre os que têm acesso ao poder, mesmo que pelo escrutínio, em qualquer instância executiva ou legislativa, e em outras áreas republicanas, como o judiciário, ainda que por meio de concursos públicos. O acesso ao poder não é o problema. O que é feito quando as pessoas tornadas “públicas” têm poder é o que incomoda. Uma espécie de modelo republicano à brasileira. Historiadores defendem que a criação de uma monarquia federativa, em vez de uma república, é um traço do caráter nacional. A monarquia conseguiu manter seu poder e a unidade territorial, mas teve que aceitar a manutenção da escravidão, que sustentava economicamente o Império e corrompia todas as relações, públicas e privadas. Assim, os conchavos sustentaram determinados grupos no poder, sem as reformas estruturais apregoadas pelos republicanos, mantendo a escravidão. O quanto isso afetou e tem influenciado nossa maneira de ser?
No ambiente dos negócios, por exemplo, quantas vezes nos deparamos ainda com ranços monarquistas e escravocratas? A burocracia estabelecida no “serviço público”, na forma de tributos e exigências, a fraqueza processual do Judiciário e a incapacidade dos legisladores são bons indicadores. Por outro lado, impregnou-se na alma dos donos de empresas (não necessariamente empresários) que é possível fazer-se por si próprio e que, por isso, todo lucro, por maior que seja, é aceitável.
O termo escandinavização, aqui proposto, representa as boas práticas conduzidas naquela região e seus valores, como integridade, ética, justiça, responsabilidade individual e comunitária. O Estado tem o seu papel bem definido, os servidores públicos realmente servem aos interesses da sociedade e os impostos retornam na forma de bem-estar geral. Já o setor privado é muito competitivo e também busca o lucro, mas, moralmente, isso não é entendido como uma licença para ganhos ilimitados e isentos de responsabilidades sociais. O salário do principal executivo não costuma atingir uma diferença superior a 10 vezes o menor salário na mesma empresa. Tem-se, portanto, um pacto social equilibrado entre Estado e sociedade.
Administrador de empresas