Foi divulgada na semana passada a lista dos maiores filmes de todos os tempos, que de dez em dez anos é publicada pela revista Sight and Sound. A publicação londrina, uma das mais prestigiadas de todo o mundo, pertence ao British Film Institute e, para organizar tal relação, consulta realizadores, críticos e historiadores. Entre os que votaram este ano estavam nomes como Martin Scorsese, Quentin Tarantino, Francis Ford Coppola e Woody Allen. Desde 1962, o primeiro da lista, e portanto considerado pela maioria dos votantes o maior filme de todos os tempos, tinha sido Cidadão Kane, a obra-prima de Orson Welles. Este ano, pela primeira vez o escolhido foi Um corpo que cai (Vertigo), um dos maiores momentos da filmografia de Alfred Hitchcock e de todo o cinema. O filme de Welles passou a ocupar o segundo lugar. Uma lista de melhores sempre será a expressão da subjetividade de quem seleciona. Não é a palavra final. O mais importante na relação entre filme e espectador é a busca do significado, a tentativa voltada para a tarefa decifradora. Mas não há dúvida alguma de que a eleição promovida por aquela revista faz justiça a um dos maiores nomes do cinema. Justiça esta que vinha sendo feita há algum tempo, pois antes o filme vencedor já vinha aparecendo na lista dos maiores. Um dos editores da revista afirmou que a vitória de Hitchcock evidencia as modificações porque passou a crítica cinematográfica. Em parte ele tem razão. Mas há algo mais importante a ser destacado.
Em primeiro lugar, é preciso lembrar que François Truffaut, Claude Chabrol, Erich Rohmer e vários de seus colegas da revista Cahiers du Cinéma já haviam, desde a década de 1950, ressaltado a importância de Hitchcock. Truffaut, inclusive, tem um livro-entrevista com o realizador que é obra fundamental para a compreensão do fenômeno cinematográfico, mesmo com alguns exageros ditados pela admiração. E não foram os únicos. Em todo o mundo muitos foram os críticos que perceberam que o diretor não era apenas “o mestre do suspense”. Ele sempre foi mais do que isso. E seria justo, também, lembrar o escritor cubano Guillermo Cabrera Infante, que morreu em 2005, no exílio, em Londres. Infante, que era cinéfilo e foi o roteirista de Corrida contra o destino, exerceu a crítica cinematográfica e, quando o filme foi lançado em Havana, o classificou como o fundador do cinema moderno. Um corpo que cai é de 1958, antes portanto de Hiroshima, meu amor e O ano passado em Marienbad, ambos de Alain Resnais e que pareciam retomar as propostas hitchcockianas em Vertigo.
O tema central da obra de Hitchcock, o da impossibilidade de ser apenas um espectador diante da vida, muito claro em Janela indiscreta, tem em Vertigo uma notável variação, porque mostra que o refúgio no passado também é algo impossível de ser concretizado. O filme é, sem dúvida, um dos maiores do cinema e sua escolha pelos eleitores selecionados pela publicação inglesa mostra que cada vez é maior o número de interessados numa arte que coloca o ser humano diante dele mesmo. Não estamos mais diante de um painel onde os conflitos sociais ocupam o espaço maior. Parece que não é apenas na crítica que certos interesses foram substituídos. A tela cinematográfica passou a ser um espelho no qual o espectador busca uma forma de autoconhecimento, De qualquer forma justiça foi feita a um dos maiores, que, além de superar Welles, também teve seu filme colocado à frente de Viagem a Tóquio, de Ozu; A regra do jogo, de Renoir; Aurora, de Murnau; 2001: uma odisséia no espaço, de Kubrick; Rastros de ódio, de Ford; O homem da câmera, de Vertov; A paixão de Joana D’Arc, de Dreyer, e Oito e meio, de Fellini. Uma lista discutível, como todas as listas, mas que tem a importância de reconhecer o valor de um mestre como Hitchcock.