Ao completar 242 anos de história, Porto Alegre será mais redescoberta do que nunca. Com a expectativa de receber milhares de visitantes durante a Copa do Mundo, a capital gaúcha se verá refletida em novos olhares, que absorverão de diversas formas seus encantos e desencantos. Para antecipar as reações, neste dia 26 de março, o Jornal do Comércio comemora o aniversário da cidade trazendo um pouco desses ângulos. Cinco estrangeiros que vivem na Capital contam o que lhes chama a atenção na vida porto-alegrense. Fora do circuito de roteiros turísticos, o estrangeiro se expõe a tudo enquanto vive a cidade. E o que ele vai contar aos amigos na volta ao seu país de origem pode não ser sobre a beleza do pôr-do-sol no Guaíba – ou pode. As memórias correm o risco de incluir, ainda, a "chocante" avenida Farrapos ou a descoberta de um bar que era a extensão de sua casa. Conheça agora estas histórias.

Luke Simmons

Um australiano na Farrapos

Luke Simmons, de 34 anos, nasceu na Austrália. Casado com a gaúcha Camila Simmons desde 2009, a qual conheceu em uma viagem à Grécia, ele ganha a vida fazendo piada, entre outras coisas, sobre Porto Alegre. O “choque” que levou ao chegar à Capital pela primeira vez e passar pela avenida Farrapos, em 2008, hoje lhe serve de inspiração no palco.

Simmons é integrante do grupo de comediantes Comic’s, que se apresenta em bares de Porto Alegre. Em sua apresentação ele arranca risos citando os personagens excêntricos da região.

“Antes de vir para cá, eu não sabia de nada, sério. Eu estava muito ocupado antes de vir, por isso foi uma surpresa ao ver a avenida Farrapos e os travestis. Estava cheio de travestis aquela esquina”, diverte-se, relembrando o primeiro contato com a cidade.

Após todos esses anos de imersão na cultura do Rio Grande do Sul, o australiano, que fala português fluentemente, afirma que o que mais lhe encanta, além dos aspectos físicos de Porto Alegre, é a cumplicidade de seu povo. “Os gaúchos gostam de dividir as coisas. Por exemplo, o chimarrão. Ou gente comprando garrafa de Coca-Cola de dois litros com um monte de copos. Isso não acontece fora daqui. Eu amo isso”.

Atualmente, além de fazer seus stand up comedy, Simmons comanda uma agência de marketing digital ao lado da esposa. “É muito complicado aqui para mim. Na Austrália é bem mais fácil achar um emprego. Aqui, tu estás concorrendo com 500 pessoas. Por isso, pensei que fosse mais fácil abrir uma empresa”, conta. Entre os serviços oferecidos pela agência de Luke está o de tradução de cardápios para restaurantes que querem se adaptar à Copa do Mundo.

A estadia do australiano em Porto Alegre é por tempo indeterminado, mas ele afirma que quando tiverem filhos, o casal pretende voltar à Austrália. Segundo ele, em Melbourne, existe mais segurança. “Aqui as casas parecem uma prisão”, lamenta.

"Fiquei chocado quando passei pela Farrapos"


conheça a Caroline
Caroline Sargent

Redenção é ponto central para francesa

A francesa Caroline Sergent, de 25 anos, chegou à Capital no final de 2013 para dar continuidade à sua formação como arquiteta. Estudante da Ufrgs, Caroline divide um apartamento com três estrangeiros no bairro Santana.

Ela afirma que o primeiro local que conheceu em Porto Alegre foi a Redenção, através de um amigo brasileiro que toca acordeon todos os finais de semana no parque. Desde então, sempre quando acorda cedo aos domingos, gosta de aproveitar o dia e dar uma volta com os amigos.

A Redenção, segundo ela, além de ser um bom lugar para ver porto-alegrenses reunidos, fazer compras e relaxar, é um ponto de referência na Capital. Para Caroline, o parque centraliza três locais importantes na cidade: sua casa, a universidade e o bairro Cidade Baixa. A única reclamação é sobre a falta de iluminação noturna, que torna o local perigoso.

Caroline disse que não pesquisou sobre a cidade antes de viajar, preferindo se surpreender assim que chegasse. Nos diferenciais da capital gaúcha, destaca as casas coloridas e o formato das ruas. Observação digna de uma estudante de Arquitetura.

Caroline conta que sua vinda a Porto Alegre serviu para quebrar estereótipos. “Aqui moramos do mesmo jeito que na Europa, só que o contexto é diferente. Todas as pessoas da Europa acham que é perigoso, que é outro mundo. E é tão a mesma coisa. Por favor, venham pra cá”, convida ela.

Apesar do sotaque latino-americano, resultado da convivência com muitos estrangeiros de origem espanhola, ela ressalta que um taxista já afirmou que ela “se passa por gaúcha”.

Caroline ficará na Capital até o mês de julho e voltará para sua cidade, Nimes, com a mala cheia de presentes para os amigos.

“A Redenção é muito tranquila”


conheça Raymond, Gustav e Julian
Caroline Sargent

O ponto de encontro dos intercambistas

Uma semana antes do aniversário de Porto Alegre, o irlandês Raymond Phelan conversaria com a equipe do Jornal do Comércio para explicar o motivo de o Bar Vila Acústica, no bairro Cidade Baixa, ser o seu lugar preferido na cidade.

Com um minuto de conversa, tudo ficou claro, sem a necessidade de muita argumentação. Foram chegando Gustav Hammarlund, da Suécia, Julian Thun, da Alemanha, entre outros estrangeiros, todos prontos para dividir as rodadas de cerveja.

É ali que eles se reúnem todas as semanas para beber e jogar conversa fora. Em português. Afinal, estão na cidade para aprender o idioma ou aprimorar o currículo na área de Administração.

“Tem muitos intercambistas que ficam juntos aqui todas as quintas-feiras”, conta Raymond. A dona do bar afirma que, uma semana antes da entrevista, havia cerca de 100 estrangeiros no local. O diferencial do Vila Acústica é o preço da cerveja, mais barato do que a média dos bares da Capital.

Como o trio mesmo confessa, eles se conheceram bêbados em alguma das viagens organizadas para estrangeiros pela Ufrgs – onde estudam.

A partir da amizade, compraram um fusca e foram até o Rio Grande do Norte a bordo do veículo, apelidado de Mercurio. Hoje, o carro está no Rio de Janeiro, um pouco estragado, com um amigo.

“Quando eu cheguei aqui, achava que todo o Brasil era o mesmo. Estava quatro graus, chovendo muito, muito frio. Não sabia que Porto Alegre era assim, mas agora eu sei”, avisa Gustav.

Julian engrossa o coro sobre os desavisados a respeito de Porto Alegre. Ele pensava, até, que havia praia na cidade. Sobre a data de volta aos seus países de origem, os três têm a condição: só depois da Copa do Mundo.

“Aqui neste bar, a cerveja é barata”