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Porto Alegre, domingo, 22 de abril de 2018.

Jornal do Comércio

Política

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Entrevista especial

Notícia da edição impressa de 23/04/2018. Alterada em 22/04 às 21h10min

Esquerda deveria ter candidatura unificada, diz Requião

Precisamos de um programa, mais do que um candidato, Requião

Precisamos de um programa, mais do que um candidato, Requião


fotos: MARCO QUINTANA/JC
Marcus Meneghetti
Apesar de ser filiado ao mesmo partido do presidente Michel Temer (PMDB), o senador paranaense Roberto Requião não só critica com severidade o governo federal, como também tem se aproximado de siglas de esquerda que fazem oposição à gestão Temer. Na avaliação de Requião, com a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a pulverização das candidaturas esquerdistas à presidência da República pode enfraquecer esse campo político."O bom seria ter uma candidatura única. Mas vejo essa hipótese com dificuldade", lamenta. Por outro lado, crê que alguns candidatos tem capacidade para suscitar um debate necessário sobre os rumos do País. "Por exemplo, a Manuela (d'Ávila, PCdoB) não é candidata à presidência da República, é candidata a provocar uma grande discussão política no Brasil."
O senador paranaense acompanhou as últimas horas de Lula no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, antes de o petista se entregar à Polícia Federal. Lá, aconselhou o ex-presidente a não se entregar, o que, na sua opinião, pressionaria o Supremo Tribunal Federal (STF) a realizar o julgamento da presunção de inocência. "Fui contra o Lula se entregar. Tanto que, quando viajei para São Bernardo do Campo, nem comprei passagem de volta", contou. Apesar de ter feito oposição às gestões tanto de Lula quanto de Dilma Rousseff (PT), avalia que hoje o petista representa a possibilidade de reverter as políticas liberais do Planalto - que, segundo o senador, governa para o "capital financeiro".
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Requião também avalia que Temer deve ser candidato à reeleição. "Ele pode ser candidato para ter um instrumento de sua própria defesa, para poder falar. Para isso, ele tem o comando do partido na mão." Quanto ao ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles (PMDB), afirma que "ele tem muita rejeição dentro do partido".
Jornal do Comércio - Acredita que o presidente Michel Temer vai concorrer à reeleição?
Roberto Requião - Ele pode ser candidato para ter um instrumento de sua própria defesa, para poder falar. Por isso, ele tem o comando do partido na mão. A candidatura do Temer impede que surja um candidato coerente com o documento Mudança e esperança (conjunto de propostas lançado pelo PMDB em 1982), que foi o documento desenvolvimentista mais consistente que se fez no Brasil, do ponto de vista keynesiano.
JC - Mas o governo Temer governa, em tese, segundo os princípios da carta Ponte para o futuro, divulgado em 2013. Ao contrário do Mudança e esperança, esse documento tem um viés liberal...
Requião - O Temer governa para o capital financeiro e as indústrias internacionais. O interesse deles é a introdução, na legislação brasileira, dos instrumentos do liberalismo econômico: acabar com os direitos dos trabalhadores e a intervenção do Estado, criando um clima absoluto para a iniciativa privada. Só que não têm nenhum apreço especial por políticos. Apenas utilizam o Temer. Mas, no momento que ele se tornar desnecessário, vão descartá-lo. Aliás, acho que o processo de descarte do Temer está andando. Eles descartam o Temer, como descartam o (senador José) Serra (PSDB), o (senador) Aécio Neves (PSDB), todos eles.
JC - Outro candidato que se coloca dentro do PMDB é o Henrique Meirelles. Pode ser o nome do partido?
Requião - Acho que ele tem muita rejeição dentro do próprio partido. Ele teria menos votos que o Temer. Ele somou 1% das intenções de votos na última pesquisa Datafolha. Não tem cabimento algum. Aliás, soube que o Meirelles e o (deputado federal por São Paulo) Baleia Rossi pretendem visitar todos os diretórios regionais do PMDB. Alguém vai recebê-los aqui no Rio Grande do Sul? Vamos esperar para ver. Mas digo uma coisa: quem receber esse tipo de representante do capital não vai ter voto mais. Vão dividir o 1% do Meirelles.
JC - O PMDB gaúcho costuma dizer que é diferente do nacional, justamente por esse ter ideias liberais e se aproximar mais da direita. Concorda?
Requião - O meu exemplo na juventude era o PMDB do Rio Grande do Sul, do (José Ivo) Sartori, do André Foster, do Ibsen Pinheiro, do José Fogaça, que eram os deputados que lutavam contra a ditadura. Mas de repente tudo se descaracterizou. Por desconhecimento de história, de geopolítica, de economia, eles não estão vendo o que está acontecendo (ao defender medidas liberais). O modelo liberal defendido pelo governo federal, expresso nessa bobagem da carta Ponte para o futuro (documento do PMDB divulgado em 2013), é um projeto que fracassou redondamente na Europa. Acabou com a Grécia, inviabiliza a Itália, dificulta a Espanha, complica a Alemanha... Enfim, é um morto-vivo que pede asilo no Brasil e, para seguir interesses geopolíticos do capital, é aceito por um governo corrompido ideologicamente.
JC - Em São Bernardo do Campo, o senhor acompanhou os momentos que antecederam a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Como avalia a prisão de Lula?
Requião - Fui contra o Lula se entregar. Tanto que, quando viajei para São Bernardo do Campo, nem comprei passagem de volta. Lá, quase caí de costas quando ouvi os advogados de defesa dizerem que o Lula tinha que se entregar, porque senão haveria uma prisão preventiva, e a preventiva evitaria a possibilidade de um habeas corpus. Também sou advogado, pô! A tese dos advogados do Lula era completamente ridícula. Se você está condenado à forca, você não se apresenta para ser enforcado. Aliás, tem o direito de tentar evitar sua condenação.
JC - Teve aliados do ex-presidente que chegaram a dizer que os advogados de defesa traíram o petista...
Requião - Algumas pessoas começaram a falar que os advogados traíram o Lula. Não acho isso. Na verdade, eles não tiveram um comportamento político, em um momento que, na minha opinião, deveria ter sido conduzido politicamente, não juridicamente. Utilizaram essa falseta da prisão preventiva para viabilizar a entrega do Lula. Afinal, não são advogados de uma causa só. Eles querem estar bem com o Judiciário. Não querem partir para o desafio. E o momento era de desafio político. Se a polícia tivesse que ter ido buscá-lo, no meio daquela mobilização, daquelas circunstâncias, não iria. A polícia ia ter que esperar. Com isso, haveria a oportunidade de pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF) para realizar um julgamento que acabou não acontecendo com a prisão do Lula: o do princípio da presunção de inocência.
JC - Na hipótese de o ex-presidente não se entregar, não havia o risco de um conflito entre apoiadores e a polícia?
Requião - Não acredito nisso. (As autoridades) esperariam o julgamento do STF para prendê-lo. A burrice da direita brasileira e do governo não é tão grande a ponto de provocar um conflito entre a Polícia Militar de São Paulo e as milhares de pessoas que estavam ao redor do sindicato dos metalúrgicos. Além do mais, o Lula não estava resistindo, apenas estava lá. Então, o processo foi mal conduzido politicamente, por advogados que tinham uma cabeça diferente. Mas essa história de traição é um equívoco.
JC - Depois da prisão do ex-presidente Lula, circulou entre as lideranças de centro-esquerda a ideia de uma candidatura unificada, sustentada tanto pelos partidos políticos desse espectro quanto pelos movimentos sociais. Essa possibilidade é viável?
Requião - Se houvesse a construção de um projeto, sim. Afinal, eleição não é um concurso de beleza. Precisamos de um programa, mais do que um candidato. Mas precisamos de um projeto nacionalista, desenvolvimentista, uma solução keynesiana para a política brasileira, suportada nos sucessos de recuperação econômica da Alemanha, dos Estados Unidos e do Japão. Precisamos de um projeto que suporte parcerias do Estado com o capital produtivo. E, dos candidatos postos hoje, nenhum se explicou com clareza ainda. Acho que os candidatos de esquerda estão pensando na construção de um projeto. O bom seria ter uma candidatura única. Mas vejo essa hipótese com dificuldade. Por exemplo, a Manuela (dÁvila, PCdoB) não é candidata à presidência da República, é candidata a provocar uma grande discussão política no Brasil.
JC - O senhor mencionou que alguns candidatos à presidência, como Manuela d'Ávila, podem suscitar um grande debate político. Nesse momento de grande polarização política no Brasil, até com episódios de violência, existe clima para esse debate?
Requião - Se não tiver clima, nos ausentaremos do debate sobre o Estado social brasileiro. Sem esse debate, acho que as pessoas acabam se alinhando com o neoliberalismo proposto pelo capital financeiro - que é justamente a proposta da Ponte para o futuro, do governo Temer. O que é a proposta da Ponte para o futuro? O individualismo se superpondo à macroeconomia, à intervenção do Estado. É o domínio absoluto do capital financeiro sobre o País. É o Brasil conforme os Acordos de Washington: "Brasil, o celeiro do mundo". É o Brasil abrindo mão da propriedade do próprio solo, aprovando a venda de terras a estrangeiros sem limite de tamanho. É o Brasil reduzido às necessidades de outros países: algodão, trigo, soja etc. Enfim, acho que esse modelo vai levar ao conflito social.
JC - Conflito social?
Requião - O desemprego vai levar ao conflito social. Eles (do capital financeiro e do governo federal) sonhavam que, ao acabar com o direito dos trabalhadores, através da reforma trabalhista, por exemplo, iam viabilizar o emprego. Em vez disso, o emprego informal cresceu. A parcela da população brasileira que não partir para a revolta, vai tentar uma maneira de subsistência: vender marmita no sinal luminoso, produzir alguma coisa individualmente etc. Só que isso não alimenta a economia, nem recupera a capacidade de consumo. Por quê? Porque o trabalhador informal, não tendo carteira assinada, não tendo emprego fixo, não tem sequer acesso a crédito. Ele não consegue comprar à prestação. Não é um consumidor. Então o consumo está diminuindo, mesmo com essa fantasia do emprego intermitente, sem garantias. Trabalho sem garantia significa sem consumo, porque o consumo depende em boa parte do financiamento.
JC - Na sua avaliação, o governo deve investir no mercado interno...
Requião - Em uma recessão, só o Estado pode investir, porque não procura o lucro imediato. Por exemplo, ele investe na infraestrutura e, por consequência, provoca o investimento do setor privado. O setor privado não investe na recessão, porque não tem perspectiva do lucro. Só quem "investe na recessão" é o capital financeiro, só que ele não produz nada, não é um empreendedor. Por isso, investe na apropriação de empresas públicas. E isso (privatizações) não significa nenhum aumento de produtividade, de qualidade e de ampliação de atendimento. Significa, por via de regra, o aumento do preço da tarifa de água, de energia elétrica, como aconteceu com a de telefone. Ao lado da modernização, estamos pagando o preço mais alto do planeta por uma telefonia de má qualidade.
JC - Com a possibilidade de privatização da Eletrobras, acredita que pode acontecer isso?
Requião - Não é que pode acontecer, necessariamente vai acontecer o aumento da tarifa. Vai ser a repetição do que aconteceu na Califórnia (EUA). A privatização levou ao aumento da tarifa, para aumentar o lucro dos acionistas, e à falta de investimento e ao apagão americano.
JC - Como o senhor está observando o processo de privatização da Eletrobras no Congresso Nacional? Pelo que acompanha, a estatal pode ser vendida ainda em 2018?
Requião - Espero que não. Mas o Congresso não tem noção das coisas que acontecem. Apesar de termos exceções, os parlamentares estão pensando na reeleição, na influência na máquina do Estado, nas nomeações de cargos em comissão, nas emendas parlamentares, nos favores em dinheiro para facilitar a eleição. De uma forma generalizada, com as exceções brilhantes que nós temos, eles não pensam em economia. Eles estão repetindo o mantra da economia individual, do liberalismo econômico.

Perfil

Filho do ex-prefeito de Curitiba Wallace Thadeu de Mello e Silva e Lucy Requião de Mello e Silva, o senador Roberto Requião de Mello e Silva nasceu em 5 de março de 1941, na capital paranaense. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal do Paraná e em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Durante a ditadura militar, filiou-se ao MDB (Movimento Democrático Brasileiro) e, após a reabertura política, seguiu no PMDB. Elegeu-se deputado estadual pela primeira vez em 1982. Foi prefeito de Curitiba entre 1986 e 1989. Depois de ter sido secretário estadual do Desenvolvimento Urbano (1989-1990), foi governador do Paraná em três oportunidades: de 1991 a 1994, de 2003 a 2006 e reeleito para o período de 2007 a 2010. Exerceu o primeiro mandato de senador da República de 1995 a 2002. Em 2010, chegou a ser pré-candidato ao Planalto, mas não conseguiu o apoio interno. Acabou concorrendo ao Senado, para a vaga que ocupa até hoje. Ainda não decidiu a que cargo vai concorrer em 2018. É presidente o PMDB do Paraná.
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