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Porto Alegre, terça-feira, 17 de abril de 2018.

Jornal do Comércio

Política

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Entrevista Especial

Notícia da edição impressa de 16/04/2018. Alterada em 16/04 às 16h21min

Aumento do papel do Estado é um retrocesso, avalia Yaron Brook

'Quando você exclui a razão, o que sobra é o medo. Vemos, hoje, pessoas com medo', diz Brook

'Quando você exclui a razão, o que sobra é o medo. Vemos, hoje, pessoas com medo', diz Brook


LUIZA PRADO/JC
Lívia Araújo
As medidas protecionistas de Donald Trump, como a sobretaxa do aço importado da China, podem destruir a imagem dos Estados Unidos como bastião da liberdade econômica e mesmo fortalecer movimentos nacionalistas ao redor do mundo. Essa é a ideia de Yaron Brook, presidente do conselho do Ayn Rand Institute - entidade estadunidense ligada ao ideário liberal - e um dos palestrantes do Fórum da Liberdade em Porto Alegre, na semana passada.
"Infelizmente, o papel do Estado está se expandindo", admite. Ideias propagadas pela campanha de Trump, como "faça a América grande novamente", segundo Brook, fazem com que tenhamos "medo de imigrantes, do comércio" e com que precisemos "de líderes fortes para nos proteger", afirma.
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Brook disse ver com bons olhos recentes medidas de austeridade econômica tomadas no Brasil, além da reforma trabalhista. "Não rejeito a ideia de um sindicato, mas acho que eles deveriam estar a serviço do trabalhador, e não do poder político", opinou. Ele também elogiou o movimento liberal brasileiro, que "anseia por pensar fora da caixa", embora creia que "ainda há muito a fazer para desvencilhar o liberalismo do conservadorismo" no País.
Jornal do Comércio - Como o senhor vê o papel do Estado hoje?
Yaron Brook - Infelizmente, o papel do Estado está se expandindo. Há uma demanda para que o Estado faça mais e mais. E a gente vê isso nos Estados Unidos. Supostamente, Trump é um cara do livre-mercado, mas, na verdade, ele não é. A maneira como ele se envolve com questões de imigração, como o Estado se envolve no comércio; ao longo dos últimos séculos, a ideia de livre-mercado não inclui o governo dizendo de quem devo comprar coisas, se da China ou do Brasil. Também esperam que o Estado se torne essa coisa de "porto seguro do nacionalismo", esse lugar onde todos devemos ser patrióticos, "faça a América grande novamente", esse slogan vazio. Nas eleições da Hungria, na semana retrasada, foi reeleito um governo nacionalista que cala a liberdade de expressão e a mídia, que tem uma agenda que prega "ou você é húngaro, ou não é", e você vê isso na Rússia, com (Vladimir) Putin. Estamos vendo mais autoritarismo e mais expectativa de que o Estado guie nossas vidas. Se você presta atenção no mundo, é bem assustador o que está acontecendo.
Veja um trecho da entrevista
JC - Que reflexos o protecionismo de Trump pode ter no cenário mundial?
Brook - Isso está fazendo o mundo duvidar de algumas verdades que valeram no passado, como o livre-comércio, e duvidar dos Estados Unidos e da sua liderança em advogar pela liberdade. E está fazendo as pessoas duvidarem de si mesmas e de seu próprio conhecimento. O livre-comércio é bom. Não deveria haver tarifas entre o Brasil e a Argentina, entre o Brasil e o mundo. Mas então os brasileiros vão pensar: se os Estados Unidos acham que tarifar está tudo bem, então está ok. Isso encoraja as piores pessoas, o nacionalismo, os economicamente ignorantes, as pessoas que querem restringir o comércio e a liberdade, e Donald Trump torna isso possível.
JC - O que esses fenômenos dizem sobre os desejos do povo? Por que essas figuras são eleitas?
Brook - Porque as pessoas perderam a capacidade de confiar em suas próprias mentes e de acreditar em si mesmas. Os Estados Unidos são a terra da individualidade, onde os indivíduos tomam decisões por si mesmos, mas, por mais de 100 anos, nosso sistema educacional, instituições de Ensino Superior e escolas menosprezaram a razão em detrimento da emoção acima de todo o resto. E estamos vendo as consequências disso. Quando você prioriza as emoções... As emoções estão sujeitas a falhas, você não consegue escolher a verdade, não sabe o que é certo e o que é errado, então as pessoas acham que são incapazes de lidar com o mundo e têm medo disso. Quando você exclui a razão, o que sobra é o medo. E o que vemos no mundo de hoje são pessoas com medo. Temos medo de imigrantes, do comércio, e precisamos de líderes fortes para nos proteger. Quando as pessoas precisam contar com a emoção, elas formam grupos, tribos. E é o que vemos: um tribalismo ao redor do mundo, e, frequentemente, o tribalismo leva ao autoritarismo.
JC - Apesar de a taxa de desemprego ter diminuído nos Estados Unidos e ser a menor desde 2000, 13% da população vive na pobreza. Muitas têm emprego, mas não veem crescimento de sua renda nem melhoria da qualidade de vida. O que ocasiona a pobreza nos Estados Unidos?
Brook - A questão não pode ser "o que causa a pobreza", porque a pobreza é um estado da natureza. O que devemos descobrir é como sair da pobreza. Uma questão interessante é "o que causa a riqueza". Minha visão é que a razão pela qual não temos mais criação de riqueza, ou de melhores trabalhos, é por causa da intervenção do governo na economia, primeiramente com regulações, regras tarifárias ruins, que melhoraram um pouco, mas não de modo significativo, e também a falta de regulação nos gastos do governo, que estão fora de controle nos Estados Unidos. Basicamente, o governo norte-americano está sugando recursos da iniciativa privada para o consumo. A economia dos Estados Unidos está indo bem agora, mas poderia estar muito melhor. Outra parte dessa questão são os dados. O que significa ser pobre nos Estados Unidos? Se você tem ar-condicionado, tem um iPhone, você é pobre? Pessoas pobres nos Estados Unidos sofrem de obesidade. E no Camboja? E nas favelas brasileiras? Os norte-americanos não são pobres em relação à favela nem ao Camboja. Então, precisamos afinar o que significa ser pobre. Sempre haverá pessoas que são mais pobres em relação a outras, sempre há uma distribuição. Algumas pessoas estarão no topo, e outras, na base dessa distribuição. A questão é criar uma estrutura que proporcione o máximo de oportunidades e incentivos, e o problema com regulações e com o estado de bem-estar social é que eles não maximizam a criação de empregos e estímulos. As pessoas não são estimuladas a encontrar emprego. Uma coisa que me deixa louco é que, em cidades como Cleveland, Cincinatti, em Ohio, estado onde muita gente votou no Trump, as pessoas estão sem emprego, estagnadas, recebendo benefícios do governo, esperando que empregos sejam criados em Cleveland. Mas, no Arkansas, há muitos empregos. Entre no carro e vá ao Arkansas arranjar um emprego. Por que ficar sentado, esperando? É uma mentalidade preguiçosa.
JC - Como o senhor vê as medidas implementadas recentemente pelo governo federal brasileiro, como a reforma trabalhista?
Brook - Me parecem que são boas. Esse é um primeiro passo, mas muito ainda precisa ser feito. Acho que, quanto mais livre o mercado de trabalho for, melhor para todos, incluindo, aí, as regras trabalhistas. Quanto mais fica difícil demitir as pessoas, mais difícil é, também, contratar pessoas; não as contratamos se não podemos demiti-las. Quanto mais taxas impusermos às empresas, no âmbito trabalhista, menos pessoas eles contratam. Então, quanto mais liberais as leis, melhor. A velha ideia de que se o governo não proteger os trabalhadores, as empresas irão explorá-los, não faz sentido, na minha opinião. Se você quiser criar um mercado de trabalho competitivo, precisa proporcionar um ambiente para que as empresas possam concorrer entre si, e isso é benéfico para o próprio trabalho. No caso dos jovens, eles não têm mais tanto apego para permanecer em um único emprego, como tinham as gerações anteriores. Eles vão para a empresa que oferecer as melhores condições. Acho que, de certa maneira, o mercado cuida de todas as questões tratadas por políticos e sindicalistas, essas questões que os deixam tão obcecados. Em suma, creio que o governo não tem que se meter no mercado de trabalho e deve deixar essa interação reservada a empregadores e empregados.
JC - Qual deveria ser o papel dos sindicatos?
Brook - Eles deveriam ser completamente voluntários e não ter nenhum tipo de regalia concedida pelo Estado. Sindicatos poderiam ajudar na educação dos funcionários, sobre as condições de trabalho, se alguns funcionários não querem eles mesmos negociar com o patrão - e, nesse caso, os sindicatos poderiam negociar por eles. Não rejeito a ideia de um sindicato, mas acho que eles deveriam estar a serviço do trabalhador, e não do poder político. O sindicato deveria ser pequeno, focado nas pessoas dessa empresa específica. Eles não deveriam ser sindicatos nacionais com agendas nacionais. Não há agenda nacional. "Quero te ajudar a conseguir o melhor acordo possível com seu empregador." Essa deveria ser a única função dos sindicatos. E eles podem organizar uma greve, então acho que deveria ser permitido demiti-los. Não acho que deveria ter quaisquer direitos especiais por ser um sindicato.
JC - Classicamente, somos um país com um Estado grande, com muitas políticas promovidas e mediadas tanto pelo Governo Central quanto por estados e municípios. Muitas pessoas ainda esperam que o Estado exerça esse papel. Como o senhor imagina que possamos migrar dessa realidade para uma sociedade não regulada pelo Estado?
Brook - É melhor que haja uma transição. Algumas dessas mudanças podem ser muito dolorosas. Imagine se o governo brasileiro fosse à falência, e, de repente, todas as políticas sociais fossem interrompidas de uma vez. Pessoas que receberam benefícios a vida inteira não teriam tempo para se adaptar. A regulação em todos os setores é complexa, como na área financeira. O importante é ter metas claras, e prazos para que isso aconteça. E deixar que as pessoas, empresas e bancos se ajustem ao longo desse período, até que esse objetivo final seja alcançado. Se você quer encerrar políticas sociais, você o faz em etapas, enquanto se desenvolve o ambiente econômico para a criação de empregos. Uma das etapas é que as pessoas que recebem benefícios encontrem trabalhos melhores, que paguem melhor, que haja mais capital disponível. É necessário criar essas estratégias levando em conta o quão dependentes nos tornamos dessas políticas. Se você acaba com todas as regulações de repente, cria o caos.
JC - O que o senhor acha do pensamento liberal no Brasil?
Brook - Fico impressionado com a quantidade de pessoas e como elas são ativas dentro do movimento liberal no Brasil, mas é claro que a palavra "liberal" pode ter vários significados para vários tipos de pessoas. O que acho que une os diferentes tipos de liberais no Brasil é um respeito pelos mercados, a ideia de um governo com limites, lidando com o que tem de lidar, que é a criminalidade. Podemos discordar sobre o quanto de regulação ou impostos, mas acho que estamos todos sob o mesmo guarda-chuva. Mas me impressiona muito ver o entusiasmo das pessoas, ver o quanto estão comprometidas em discutir, participar. Vocês anseiam por pensar fora da caixa, ser radicais.
JC - Um traço bastante presente em grupos que pregam o liberalismo no Brasil é que ele se limita à questão econômica. Na seara moral e de costumes, defendem posições mais conservadoras, como a rejeição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, a liberalização do consumo da maconha etc.
Brook - Infelizmente, acho que, na América Latina, o catolicismo ainda representa um grande papel na criação dessa mentalidade conservadora, o que é um obstáculo à liberdade. Se o Estado não tem que se meter na maneira como pago meus empregados, também não é da conta do governo com quem decido me relacionar ou com quem me caso. Um dos pilares do que significa "ser livre" é tomar decisões pessoais a respeito de sua própria vida. E acho que temos de "apagar" o conservadorismo, porque isso não é bom. Ele retém tudo, retém a sociedade, nos impede de viver nossas realizações e nossa plenitude. Ainda há muito a fazer (no Brasil) para desvencilhar o liberalismo do conservadorismo.

Perfil

Presidente do Conselho de Administração do Instituto Ayn Rand, Yaron Brook nasceu e foi criado em Israel, onde serviu como primeiro-sargento no serviço de inteligência. É engenheiro civil, diplomado pela Technion-Israel Institute of Technology, em Haifa, Israel; MBA e PhD em Finanças pela Universidade do Texas. Vive nos EUA desde 1987 e se tornou cidadão estadunidense em 2003. Brook é anfitrião do The Yaron Brook Show, um talk show on-line. Foi colunista da Forbes.com, com artigos publicados no The Wall Street Journal, no USA Today e no Investor's Business Daily. Em 1998, cofundou a BH Equity Research, uma gestora de private equity (um tipo de fundo que compra participações em empresas) e hedge fund (fundo multimercado), da qual é diretor. Em coautoria com Don Watkins, escreveu os livros Revolução do livre mercado: como as ideias de Ayn Rand podem acabar com um governo intervencionista; e Igual é injusto: a luta equivocada dos EUA contra a desigualdade de renda (tradução livre).
 
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Comentários
Helke Winkler 17/04/2018 12h15min
Esse cidadão é conhecido. Trata-se de um homem rico e pobre de moral.
Roger 16/04/2018 23h54min
Se fôssemos robôs, sem sentimento o liberalismo tão sonhado seria perfeito, mas somos humanos.