Comentar

Seu comentário está sujeito a moderação. Não serão aceitos comentários com ofensas pessoais, bem como usar o espaço para divulgar produtos, sites e serviços. Para sua segurança serão bloqueados comentários com números de telefone e e-mail.

500 caracteres restantes
Corrigir

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Porto Alegre, quinta-feira, 12 de abril de 2018.

Jornal do Comércio

Colunas

COMENTAR | CORRIGIR
Antônio Hohlfeldt

Teatro

Notícia da edição impressa de 13/04/2018. Alterada em 12/04 às 17h11min

Exímio Ballet de São Petersburgo

A credulidade na tradição dos balés russos foi eficientemente resgatada com a passagem, por Porto Alegre, do Ballet Estatal de São Petersburgo, que tem, como atração principal e inédita, a performance de todos os seus bailarinos usarem patins e o espetáculo decorrer numa pista de gelo. O grupo foi criado em 1967, pelo coreógrafo Konstantin Boyarski, e o desafio de seus integrantes é exatamente este: a performance do balé clássico, em uma pista de gelo, com patins. Nem a revolução de 1917 acabou com a tradição dos balés, que foram idealizados por seus múltiplos coreógrafos justamente para glorificar a grandeza e, ao mesmo tempo, a ociosidade da realeza russa. Os balés criados por Tchaikovski são, nesse sentido, exemplares (inclusive no pior sentido do termo): basta lembrar-se de O quebra-nozes ou assistir a este A bela adormecida. Como narrativa, talvez não ultrapassasse meia hora de representação. Mas estamos diante de um espetáculo em dois atos, de 45 minutos cada.
Na festa de apresentação da recém-nascida princesa, o secretário do Rei esqueceu-se de convidar uma das fadas que, mesmo assim, decide comparecer a fim de amaldiçoar a menina com sua morte, aos 15 anos de idade, quando furasse o dedo com o fuso de uma roca de tear. Feita a maldição, a mesma não mais pode ser desfeita, mas uma das fadas consegue atenuar a situação, transformando a morte num sono centenário do qual a princesa despertaria graças ao beijo de um príncipe que a encontraria. Pronto, acabou a história. Isso tudo está praticamente resumido no primeiro ato. E só não acontece porque Tchaikovski interrompe a narrativa para enfeitá-la com alguns solos, pas de deux (será que se usa o termo no caso do balé no gelo?) e conjuntos de figuras do enredo que ganham, assim, sua oportunidade de brilhar no palco. No segundo ato, o enredo se resolve rapidamente e então tem lugar uma espécie de festa ou baile, a ser assistido pelo casal real, em que aparecem figuras de outras narrativas de fadas e tudo o mais a que a imaginação do artista tem direito. Marius Petipa, desde 1890, quando a obra foi criada, é aqui soberano para o sucesso do espetáculo.
É neste momento em que o enredo se suspende/interrompe ou até mesmo se esgota, que os artistas criadores podem explorar e desenvolver sua criatividade. Também é o momento em que os integrantes da trupe, que não sejam os intérpretes das principais figuras do enredo, têm a oportunidade de mostrar suas qualidades. Ou seja, aquilo que poderia ser o defeito do espetáculo é, na verdade, a sua maior qualidade e atração: se o enredo é conhecido por praticamente todos os que assistem à encenação, o que interessa, pois, é ver como os criadores contam essa história e como a enfeitam. É o enfeite que faz o sucesso (ou não) de uma obra de balé como esta. Neste caso, Tchaikovski é quase invencível. Por isso, seus balés têm sobrevivido, mesmo que, musicalmente, também não apresentem maior atratividade: é uma melodia relativamente pobre, com pequena orquestração, que, em última instância, deve estar a serviço do coreógrafo, que idealizará os movimentos/desafios a serem realizados pelo intérprete.
No caso de A bela adormecida, a figura mais significativa é a Fada Má (interpretada por um bailarino, estupendo, Danii Puchakariov) que vem condenar a Princesa (Daria Apustinskaia) à morte. Sua coreografia é extremamente difícil, em especial quando realizada sobre patins. Por isso, sua figura atrai o aplauso do público. É, sem sombra de dúvida, o melhor intérprete em cena ou, ao menos, aquele que realiza a coreografia mais desafiante. Mas a Gata que aparece durante o baile, no segundo ato, é igualmente uma figura importante, dengosa e quase erótica, em seus trejeitos que emulam um felino, e atrai aplausos da plateia. Daniel Vidiernikov interpreta o Príncipe, e a Fada boa é vivida por Ekaterina Postrominav.
Com 30 bailarinos em cena e mais de 50 técnicos a apoiarem o espetáculo, A bela adormecida, com o Ballet Estatal de São Petersburgo, hoje em dia dirigido por Mikhail Kaminov, agradou em cheio a todos os que o foram assistir, resgatou a tradição dos balés russos e garante novos públicos para futuros espetáculos oriundos da antiga Cortina de Ferro, como o Berioska, que retornará no segundo semestre. Trazido pela Opus, o espetáculo também ratifica a credibilidade dessa promotora, uma das pioneiras entre nós e que, não por um acaso, experimentou um excelente desenvolvimento no País.
COMENTAR | CORRIGIR
Comentários
Seja o primeiro a comentar esta notícia