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Porto Alegre, quinta-feira, 12 de abril de 2018.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Notícia da edição impressa de 13/04/2018. Alterada em 12/04 às 17h44min

O passado condena

A contrário de seu compatriota László Nemes, em O filho de Saul, o húngaro Ferenc Török opta, em 1945, por um caminho que destaca a culpa coletiva, e não a forma explícita de colocar na tela o horror. É verdade que Nemes, ao valorizar o primeiro plano, de certa forma, poupou o espectador de detalhes, mas ninguém como ele expôs, de forma tão eloquente, o cotidiano e os rituais macabros de um campo de extermínio nazista. Nemes, além de outras distinções, recebeu o Oscar de filme estrangeiro, numa evidência de que nem sempre aquela estatueta é entregue a mediocridades. Török não tem obtido o mesmo sucesso, mas seu filme merece toda a atenção e, sem dúvida, está sendo vítima de uma grande injustiça ao não ter seus méritos devidamente ressaltados. O roteiro, do qual o diretor é um dos autores, lembra a trama do romance Incidente em Antares, de Erico Verissimo, até pela utilização de um cemitério como um dos elementos principais. Assim como no livro, uma comunidade é confrontada com suas culpas e sua cumplicidade com o mal. O velho e o moço que caminham de forma solene entre a estação e seu destino não formam apenas um cortejo solene e implacável. São como executores de uma sentença, figuras que surgem de um passado oculto e acobertado pela hipocrisia. E não há como deixar de lembrar que o filme também lembra Conspiração do silêncio, que John Sturgess realizou em 1954 e no qual os habitantes de uma pequena cidade recebiam a incômoda visita de um agente federal que tinha a missão de esclarecer fatos comprometedores. Até pelo uso do trem, o filme lembra aquele clássico, com o qual compartilha o tema da culpabilidade e da tentativa de esconder um passado que revela que certos atentados cometidos contra a integridade humana não têm suas origens limitadas a um grupo de criminosos, podendo ser encontradas num espaço bem mais amplo.
Se, no admirável documentário Shoah, Claude Lanzmann se recusou a utilizar imagens do Holocausto, valorizando o depoimento de vítimas e até de algozes, Török procura, num relato de ficção, mostrar ações reveladoras e deflagradas por regimes de força, sem focalizar diretamente as consequências do movimento de tal engrenagem. Habilmente, a narrativa, aos poucos, vai relevando os motivos do medo dos habitantes da cidade, numa fase em que o país, depois de ter participado da guerra ao lado do nazismo, passa a ser ocupado por outras forças, representadas no filme por um grupo que não esconde seu gosto pela prepotência e pela humilhação. Isso fica claro na cena em que um soldado tenta se apoderar do casquete do visitante mais jovem e depois, quando o jipe persegue a noiva, antes que o fogo represente um ato extremo de violência vingadora. De um lado, a eloquência de um gesto revelador, simbolizado por um enterro simbólico. De outro, o irracionalismo de uma ação devastadora, causada por outro gênero de repressão, aquele destinado a controlar impulsos e sufocar desejos. O filme, assim, amplia seu foco crítico e não se limita a acusações às formas mais ostensivas do mal, preferindo encontrá-las nas banalidades cotidianas, da qual todos participam de uma forma ou de outra. No momento do questionamento, a destruição de provas e as tentativas de acobertamento predominam, mesmo que a cerimônia seja definitivamente interrompida.
O trem, este elemento tão importante no cinema, desde John Grierson e Alberto Cavalcanti até Alfred Hitchcock e David Lean, volta a dominar as imagens na última sequência. E não apenas por personagens significativos o utilizarem para se afastar de um cenário dominado por aqueles elementos capazes de resistir a qualquer regime. É que a fumaça da locomotiva que se afasta recupera visualmente um sinal macabro. Aquele que era visto nos campos nos quais o mal maior se manifestou de forma nunca antes vista. Este plano final de 1945 encerra um relato que, mesmo se afastando dos detalhes que explicitaram, de forma definitiva, o horror, causa impacto por flagrar as raízes nem sempre expostas de tal brutalidade: a ambição desmedida, o desprezo pelo ser humano, a incapacidade de pensar com clareza, o gosto por simplificações, o culto da aparência e a devoção pelo servilismo.
 
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