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Porto Alegre, domingo, 15 de abril de 2018.

Jornal do Comércio

Empresas & Negócios

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Com a Palavra

Notícia da edição impressa de 16/04/2018. Alterada em 13/04 às 20h52min

Gida Malhas expande na crise

FABIO GRISON/DIVULGAÇÃO/JC
Roberto Hunoff
Uma das mais antigas malharias em atividade em Caxias do Sul que foi, no passado, importante polo malheiro do Rio Grande do Sul, a Gida Malhas, em pleno período de crise, iniciou a construção de nova sede, com orçamento de R$ 9 milhões. O prédio de 4 mil m² foi erguido em um ano e, desde fevereiro passado, é o novo ponto de produção e vendas da marca, que emprega 55 funcionários e tem capacidade instalada de 120 mil peças anuais, a mesma das antigas instalações, mas preparado para elevar este volume em 40%. O espaço é três vezes maior que o anterior, que sucedeu a primeira sede, o porão da residência da família.
O empreendimento, que começou com três irmãs, em 1979, segue sendo familiar. Agora, é uma sociedade das irmãs e fundadoras Maria Giacomin Spido e Ermelinda Giacomin De David, do irmão Nelso Giacomin, do cunhado Vitorio de David, e de Ronaldo e Esequiel de David, filhos de Ermelinda. O irmão, que se uniu ao projeto dois anos depois dele ter iniciado, é o atual diretor-geral. Segundo ele, Caxias do Sul perdeu, na última década, mais de 50% das suas malharias. O setor têxtil ainda é representativo na economia local por sediar duas das mais importantes indústrias de fios do País. "As malharias empregavam mais de 1 mil funcionários; hoje, este número não passa de 300", estima o empresário, que já presidiu o Sindicato das Indústrias de Fiação, Tecelagem e Malharias da região Nordeste do Rio Grande do Sul.
Empresas & Negócios - O que levou a Gida Malhas a erguer uma nova sede num dos piores anos da economia nacional?
Nelso Giacomin - Em 2009, resolvemos comprar o terreno para erguer a nova sede. Na época elaboramos um projeto, mas engavetamos em função de dificuldades. Em 2016, quando a crise era aguda e se esperava mais um ano muito ruim, tivemos dois meses de vendas extraordinárias em função do frio que chegou de última hora. Geramos um faturamento muito bom e com as reservas acumuladas resolvemos viabilizar a construção, que começou, efetivamente, em fevereiro de 2017, com previsão de entrega em 18 meses. Antecipamos em meio ano, porque foi um período de baixa na construção civil e conseguimos mão de obra abundante e o material necessário a preços competitivos. Não buscamos dinheiro em bancos, até porque a empresa sempre se pautou por investir usando recursos próprios. Um dos motivos é sazonalidade do setor, que depende, essencialmente, do clima. Foi o caso de 2016: a economia estava ruim, mas o clima favoreceu. As pessoas compram roupas de inverno quando têm necessidade, não porque está na moda. Uma malharia, diferentemente de outros setores, precisa ser enxuta, não pode ter muitos níveis hierárquicos, porque cada ano é diferente do outro. Precisa estar precavido, porque senão quebra. Malharia não suporta erros.
Empresas & Negócios - O que mudou neste segmento nos últimos anos?
Giacomin - Quando minhas irmãs começaram, na verdade éramos oito sócios, mas só elas trabalhavam diretamente, as vendas eram feitas sob encomenda, tudo anotado em um caderno. Após alguns anos passamos a ter representantes, que foram a fonte principal das vendas até 1990. Com a inflação alta, o consumidor tinha que gastar logo o seu salário para que não desvalorizasse. O varejo ficou perdido, inseguro e comprava conforme o momento. Assim, surgiu a pronta-entrega, no qual ingressamos, atendendo excursões de lojistas. É um nicho de compras quinzenais, até semanais, favorece o lojista, em especial o pequeno, que tem pouco capital. Atualmente, 70% do que produzimos são vendidos à pronta-entrega e o restante segue sendo parcela de representantes. Em 2016, 80% do que vendemos foi à pronta-entrega em função da chegada do frio inesperado.
Empresas & Negócios - Com a nova sede, a empresa pretende mudar sua forma de trabalhar? Pensa, por exemplo, em lojas próprias?
Giacomin - Não, vamos continuar com a mesma estratégia. Não temos foco em loja própria, pois teríamos de agregar outros produtos, tampouco em abrir a venda direta para consumidores no show room. Entendemos que faríamos concorrência conosco mesmo, perderíamos clientes. O varejo já está muito concorrido. Os estados da Região Sul são os nossos mercados potenciais. Acreditamos que vamos crescer, porque vamos entregar um plus, que é a nova sede, com show room maior, de 520 m², área ampla de estacionamento para ônibus e fácil acesso. No Sudeste e Centro-Oeste continuaremos atendendo por meio dos representantes.
Empresas & Negócios - Não é muito arriscado apostar sempre tão alto na pronta-entrega e esperando que o frio ajude?
Giacomin - É um risco que toda malharia precisa correr, mas tem que ser bem calculado. Trabalhamos, sempre, com um ano de antecedência, bancando estoque de matérias-primas e desenvolvendo coleções. É uma loucura, certamente. Mas quando o varejista chega precisamos ter o que ele quer. Se não encontrar aqui vai comprar em outro marca. Não tem mais fidelidade. Quando o cliente quer, ele quer naquela hora, não para depois. Tem muito negócio no ramo que fecha porque não tem mercadoria.
Empresa & Negócios - Houve um período em que o varejo investiu nos produtos importados? Esta fase passou?
Giacomin - No começo importar era novidade, tinha preço baixo. Com o passar do tempo, o consumidor percebeu que o produto não tinha a qualidade desejada e se tornou igual, sem novidade. O setor agregou valor ao seu produto e o mercado aceitou bem. A verdade é que o consumidor, inclusive nós, tornou-se chato, tem abundância de opções e não sofre mais a ameaça da desvalorização rápida dos rendimentos. Os preços não oscilam tanto e, em alguns casos, ficam até menores. O consumidor quer roupas criativas, lançamentos constantes, desenvolvimento de coleções. Tudo isto custa, mas é a solução. A Gida Malhas lança mais de 500 produtos todos os anos. As informações das tendências vêm do exterior com um ano de antecedência, algumas se confirmam, outras não. Por isso, 60% são produtos básicos, que sempre têm saída. Quando não se vende no ano, estoca-se. É um risco que precisa ser projetado, todos os anos são sempre uma interrogação.
Empresas & Negócios - Como se dará a expansão da empresa com esta nova sede?
Giacomin - Nos próximos dois anos pretendemos investir em equipamentos para elevar a produção e o faturamento, porque o custo aumentou. Por enquanto, agregamos apenas algumas pessoas na área de vendas. E vamos seguir com a política que sempre tivemos de reaplicar o lucro na empresa. Cada gestor tem seu salário e o resultado vai para a empresa.
Empresas & Negócios - A Gida Malhas é um exemplo de que é possível crescer neste segmento. Acredita ser possível a recuperação da atividade local como um todo?
Giacomin - Não acredito que volte a ser como no passado, não conheço ninguém começando na área. Nos últimos 10 anos perdemos mais de 50% das malharias, algumas marcas consagradas. As pequenas estão se mantendo com dificuldades. Quem está no ramo segue, começar é difícil. Há 10 anos, o setor têxtil representava 7% da economia local, estava à frente do plástico, que hoje já participa com 15%. Nossa representatividade deve-se às fabricantes de fios instaladas na cidade. As malharias não geram 350 empregos, algo como um terço do que se tinha no passado. Além disso, quando temos um ano bom, surgem vários aventureiros, que vendem a preços muito baixos e pagam comissões fora da realidade para guias de excursões. Temos 55 funcionários diretos, mais alguns terceirizados. No período de venda, usamos gente da produção para atender na loja para evitar contratar somente por três meses.
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