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Porto Alegre, segunda-feira, 09 de abril de 2018.

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Responsabilidade Social

Notícia da edição impressa de 09/04/2018. Alterada em 09/04 às 15h51min

Alunos improvisam sala de aula enquanto não erguem a Escola Indígena Karai Arandu em Viamão

Crianças do Ensino Fundamental e adultos da Educação de Jovens e Adultos extrapolam o ambiente físico

Crianças do Ensino Fundamental e adultos da Educação de Jovens e Adultos extrapolam o ambiente físico


/fotos FREDY VIEIRA/JC
Pedro Carrizo
O tortuoso caminho para a Comunidade da Terra Indígena Jata'ity, na região do Cantagalo, em Viamão, começa pela estrada de chão irregular e sinuosa; passa pela falta de sinal telefônico, pela dificuldade de acesso à internet; e culmina no protesto das 42 famílias guarani que vivem no local e pedem por mais atenção dos órgãos competentes.
Enquanto a construção do novo prédio da Escola Estadual Indígena Karai Arandu não sai do papel, seus alunos improvisam uma nova sala de aula, com estrutura de madeira e teto de folha de butiazeiro. Para compensar a falta de espaço, fazem uma roda e aprendem na rua. Os 142 alunos, entre crianças do Ensino Fundamental e adultos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), extrapolam o ambiente físico da Karai Arandu - que significa "sábios" em português.
Regulamentada pelo MEC há três anos, a escola existe desde 2002. Olga Justo, diretora a partir da regulamentação, diz que a Karai é como um portal para o mundo dos não-índios. "Os guaranis mais velhos entendem que as crianças devem estar preparadas para enfrentar a cultura externa. Os estudantes não vêm para serem educados, mas para adquirirem conhecimento", ressalta Olga.
A diretora afirma que sala de aula é o que mais falta na aldeia, "O refeitório é improvisado no corredor e serve para as aulas. A biblioteca também tem essa função. Já foram dadas aulas na rua e nas estruturas que eles constroem para esse fim." Karai Arandu possui 20 funcionários, sendo cinco professores Guaranis.
Cercada por morros e vegetação densa, a comunidade de Viamão conquistou a demarcação dos 268 hectares de terra indígena nos anos 1980. Uma entre as tantas demandas do povo Mbyá Guarani é o pagamento pelas benfeitorias derivadas de sua ocupação de boa-fé - indenização prevista na Instrução Normativa nº 2/2012 da Funai. Nas reivindicações expressas pelo cacique da Cantagalo também está a disposição de materiais para a construção da casa de reza, melhor sinal de internet na aldeia e o credenciamento da escola para o Ensino Médio - com maior infraestrutura e pavimentação da estrada para a chegada dos funcionários.
"Meus antepassados não precisavam pedir, a gente tinha tudo. Tinha mato, tinha caça, tinha pesca, tinha madeira. Tudo nos foi tirado. Pouco nos foi dado em troca dessa retirada", diz o cacique Jaime Vherá Guyrá. Ele ressalta que a cultura e a valorização do guarani se aprendem em casa, e na escola o índio entende o porquê de sua situação.
"A história mostra que os não índios nunca valorizaram nosso trabalho, que também é nossa cultura. Um bichinho de madeira no shopping chama mais atenção do que o artesanato de uma família guarani que vende na rua. Não entendem que nosso trabalho é sagrado e que tudo que fazemos tem sentido", diz o cacique Jaime.
Pensando em estimular a valorização da cultura guarani, a Cantagalo abriu para visitas de escolas e grupos não índios há dois anos. Nos dias do projeto, os visitantes participam de trilhas pelos morros que circundam a terra, fazem degustação de comidas típicas, conhecem artesanatos e artesãos guaranis, além de muitos outros elementos que fazem parte da cultura do índio. A ideia também serviu para ajudar na renda da comunidade, já que o passeio tem o valor de R$ 30,00 por participante.
Para a diretora da Escola, as visitas têm o papel de acabar com o senso comum e mostrar que a cultura guarani vive, independentemente de onde se viva. "O indígena é um ser humano em movimento. Se é de interesse dele estar presente em redes sociais, na faculdade, no colégio ou onde quer que seja, isso não é uma perda de sua essência. Ele nunca vai deixar de ser índio por esse motivos", diz Olga.
A Aldeia Cantagalo também vive de conquistas protagonizadas por seus integrantes. Com a organização da comunidade e articulação em setores políticos, a Karai Arandu se tornou a primeira escola indígena do Estado a comprar alimentação da própria aldeia. A responsabilidade é destinada às quatro famílias que acessaram o Bloco de Produtor Rural e agora fornecem alimentação escolar através do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). Os produtores entregam milho, aipim, batata-doce, cenoura, entre outros - o que representa 30% da merenda da Karai Arandu.
Além disso, todas famílias são contempladas pelo programa Minha Casa Minha Vida. Conquistaram energia elétrica e um posto de saúde, que abre uma vez por semana, na comunidade. O cacique Jaime explica que isso só foi possível com a união guarani.
"Quando eu subo o morro e vejo nossa terra de cima, me sinto feliz de ver povo guarani unido, mas também sinto um pouco de tristeza. A escola e as casas podiam estar em melhor estado, o índio podia ser mais valorizado. Não deveria ser só em abril", conclui o Cacique da Aldeia Cantagalo.
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