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Porto Alegre, domingo, 08 de abril de 2018.

Jornal do Comércio

Empresas & Negócios

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Conjuntura

Notícia da edição impressa de 09/04/2018. Alterada em 06/04 às 21h06min

Produtividade reage após seis anos

FREEPIK.COM//divulgação/JC
Depois de cair 6,45% nos últimos seis anos, a produtividade brasileira começa a esboçar uma reação. A projeção da consultoria Tendências é de que, em 2018, o indicador deve crescer 0,5%. Trata-se de uma alta modesta, mas que sinaliza o avanço de um indicador essencial para o crescimento sustentável do País.
Essa recuperação é resultado de uma combinação de três fatores. Um deles é o chamado "darwinismo econômico": durante a recessão, muitas empresas ineficientes vão à falência, e trabalhadores com baixa qualificação são demitidos. "A produção cai num primeiro momento de forma mais rápida do que as demissões, já que as empresas não sabem a extensão da crise", explica Evandro Buccini, economista-chefe da Rio Bravo Investimentos. "Quando a economia volta a crescer, o mercado de trabalho demora para responder, o que favorece o ganho de produtividade no pós-crise."
Além disso, para sobreviver, ou para se preparar para a retomada, muitas empresas investiram na melhoria de processos, corte de custos e otimização dos recursos. Quando a economia se recupera, elas estão mais eficientes e a produtividade aumenta.
A montadora Mercedes-Benz, por exemplo, anunciou uma série de inovações na fábrica de caminhões e ônibus de São Bernardo do Campo, resultado do investimento de R$ 500 milhões nos últimos três anos, período em que também demitiu 5 mil pessoas. Com a modernização da unidade e a adoção de conceitos da chamada indústria 4.0, a empresa anunciou um ganho de produtividade de 15%.
A construtora paranaense Plaenge também investiu na melhoria de processos durante a crise. Um dos focos da Plaenge foi reduzir o tempo ocioso da mão de obra, provocado por falhas na distribuição de material para construção, como tijolos ou cimento. "Uma construção que custava R$ 31 milhões, agora custa R$ 1,8 milhão a menos", diz Marcelo Resquetti, gerente-geral da Plaenge.
O impulso no indicador de produtividade também veio da macroeconomia, com juros e inflação convergindo para mínimas históricas. Segundo Alessandra Ribeiro, da Tendências, as mudanças na legislação trabalhista e a Lei de Responsabilidade das Estatais ajudaram a melhorar o ambiente de negócios, estimulando investimentos. "Os efeitos dessas reformas devem aumentar ao longo do tempo."
Mas ainda há muito a fazer para livrar o Brasil da síndrome de "voo de galinha", em que o crescimento é sempre baixo e de curta duração. Para o País emplacar um crescimento ao "estilo chinês", mudanças estruturais profundas precisam ser feitas. "O aumento de produtividade envolve três aspectos", explica o economista José Alexandre Scheinkman, da Universidade Columbia, nos EUA. "Aumento da educação dos trabalhadores, do estoque de capital na economia e, também, maior eficiência na forma como capital e trabalho são usados de forma combinada."
Esse terceiro ponto depende de melhorias no ambiente de negócios. Trata-se de uma agenda que envolve redução da burocracia, investimentos em infraestrutura, criação de regras e marcos regulatórios que deem clareza e previsibilidade no cumprimento de contratos, aumento da competição entre os agentes econômicos e simplificação tributária.
Posto em números, é possível ver o tamanho do desafio. O banco Santander calculou o esforço que o País precisa fazer para aumentar o potencial de crescimento do PIB, ou seja, o quanto a economia consegue crescer sem exaurir sua capacidade e provocar alta da inflação - que depende de mais produtividade.
Estudos do banco indicam que, hoje, o teto está próximo de 2% ao ano. Para crescer 4% de forma consistente, a taxa de investimentos terá de sair dos atuais 15,6% para 21% do PIB - e a produtividade, crescer 2,3% ao ano. "É um ritmo de crescimento que o País não consegue sustentar desde a década de 1970", diz Maurício Molon, economista-chefe do Santander.

Brasil avança pouco na comparação com outros países

Nos anos 1990, a produtividade brasileira correspondia a 25% da norte-americana. E nada mudou em 30 anos. Segundo estudo da consultoria internacional Conference Board divulgado no final do ano passado, cada brasileiro produziu, em média US$ 30.265 em 2016. Um norte-americano, US$ 121.260.
Além dos EUA, outros 76 países estão na frente do Brasil nesse ranking, com 124 nações. "Não acompanhamos o desenvolvimento de economias mais maduras", diz o economista Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central. Em 1950, a produtividade da Coreia do Sul correspondia a 11% da produtividade dos EUA, por exemplo. Em 2016, chegou a 60%.
A baixa escolaridade no Brasil ajuda a explicar esse atraso. Na empresa de tecnologia de informação Totvs, por exemplo, os profissionais contratados para trabalhar nas subsidiárias da Rússia e dos EUA, em geral, já chegam treinados. "No Brasil, precisamos de até 120 dias de treinamento até que comecem a dar retorno."
Mas o problema não se restringe à educação. A burocracia também é um limitador. É possível identificar isso no caso da Lukscolor. Como fabricante de tintas, o objetivo da empresa é, obviamente, produzir e vender tintas. Mas cerca de 30 dos 500 funcionários da empresa, 6% do quadro, têm como única função passar o dia acompanhando as mudanças tributárias que ocorrem nos âmbitos federal, estadual e até municipal, e cuidar do recolhimento dos tributos. "Não é investimento em vendas que gera receita, são custos que não podemos cortar", diz Angélica Albuquerque, diretora da Lukscolor.
O Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) estima que o trabalho de acompanhamento das mudanças tributárias custe em média 1,5% do faturamento das empresas (ou R$ 200 bilhões anuais). De 1988 até outubro de 2017, a burocracia estatal brasileira criou 377.566 normas tributárias, das quais apenas 26.268 estavam em vigor em setembro do ano passado.
 

Arminio Fraga diz que carga tributária é um dos problemas

Quatro perguntas para Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central:
1. Por que a produtividade no Brasil é tão baixa?
Há três dimensões básicas. Uma é a baixa capitalização da economia brasileira. Ao longo dos anos, o País tem investido pouco. Também há o lado da educação, do capital humano, que deixa a desejar. E, por último, temos a baixa qualidade das nossas instituições, ou seja, problemas de funcionamento de mercado, como sistema tributário complexo, excesso de regulação ou regras confusas. São todos problemas bem conhecidos.
2. Por que nunca atacamos esses problemas?
O Brasil não acompanhou o desenvolvimento das economias mais maduras. Para explicar isso, entramos no mundo da cultura e, principalmente, da política, que tem se mostrado incapaz de dar as respostas necessárias a esses desafios. Isso requer visão de longo prazo, foco no bem comum, espírito público e confiança, tanto nas pessoas quanto nas instituições. É difícil mudar isso. Os processos são lentos. Mas, com tudo que tem acontecido nos últimos anos, os escândalos políticos e o colapso na economia, diria que estamos diante de uma boa oportunidade.
3. O governo perdeu a chance de aprovar reformas importantes para a produtividade?
Temos perdido oportunidades ao longo de muitos anos, já que os assuntos não são novos. Mas não seria exagero dizer que algumas coisas aconteceram. Algumas reformas foram feitas, como ajustes no setor de petróleo, energia, a lei das estatais e a reforma trabalhista. Não é pouco.
4. O senhor acha que o tema receberá atenção dos candidatos a presidente?
É um desafio importante. Temos nos mostrado vítimas fáceis do populismo. Minha esperança é que, em virtude do fracasso dessas políticas populistas, as coisas comecem a ficar mais claras. Mas, infelizmente, não tenho qualquer grau de certeza quanto a isso.

Na crise, empresas investiram em tecnologia

Nos últimos dois anos, muitas empresas tiraram da gaveta projetos para melhoria de processos e adoção de novas tecnologias. Elas precisavam se adequar à queda na produção, ao aumento de custos, mas, principalmente, se preparar para a retomada do crescimento. "Com os níveis de inflação que tivemos nos últimos anos, a empresa que não investiu em produtividade passou por grandes apuros", diz Armando do Valle Junior, vice-presidente para América Latina da Whirlpool. "Não houve, e continua não havendo, espaço para repassar os aumentos de custos para os preços." Segundo o executivo, a empresa realizou cerca de 700 tipos de investimentos, "de softwares a máquinas", para aumentar a produtividade.
A Celma, divisão de Aviação da GE no Brasil, há dois anos investe em novas tecnologias, como impressão 3D, big data e realidade aumentada, para se tornar mais eficiente. A impressão 3D é usada para a construção de peças e ferramentas utilizadas na manutenção das turbinas. O ganho é evidente: em vez de encomendar uma ferramenta, que poderia levar dias, ela é "impressa" em até 12 horas, dependendo do tamanho.
A GE Celma trabalha para ter, até o final do ano, um sistema de coleta e análise de dados para melhorar a eficiência no processo de revisão das turbinas e uso de "óculos inteligentes" com realidade aumentada para facilitar a inspeção de motores. "A tendência é que essas tecnologias se tornarem cada vez mais comuns", diz Julio Talon, presidente da GE Celma.
A montadora de ônibus Marcopolo também aproveitou a recessão para um ajuste. A empresa, com sede em Caxias do Sul, criou um programa para atacar quatro áreas: segurança, qualidade, entrega e custo - todas ligados ao aumento de eficiência e produtividade. Com isso, reduziu em 70% o número de acidentes, o que resulta em menos afastamento dos profissionais. As falhas de produção caíram pela metade. Ao mesmo tempo, houve um ganho de 20% no tempo de montagem de um ônibus.
"Para competirmos globalmente, fazer mais com menos é uma busca constante", diz o diretor-geral da Marcopolo, Francisco Gomes Neto. Entre 2011 e 2016, a produção da Marcopolo caiu de 21.320 unidades produzidas para 7.181. No ano passado, subiu para 8.852 unidades.
 
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