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Porto Alegre, sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018.

Jornal do Comércio

Colunas

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

memória

Notícia da edição impressa de 16/02/2018. Alterada em 15/02 às 18h24min

Sobre Eva Sopher

LIEGE FREITAS/DIVULGAÇÃO/JC
Antonio Hohlfeldt
Acho que, para muitos de nós, ainda "não caiu a ficha" que Eva Sopher não está mais fisicamente entre nós e que, neste sentido, todos os que a admiramos e seguimos, ficamos com uma responsabilidade imensamente maior. Não sei de quem foi a ideia (felicíssima) daquele boneco cartonado, quase em tamanho natural, que nos últimos meses tem preenchido o espaço que tradicionalmente era a própria Eva quem ocupava, logo ao lado da passagem de acesso à plateia do teatro, no saguão.
Mais que nunca, aquele boneco, agora, diante da ausência física de Eva, deve funcionar como não apenas a lembrança do sorriso permanente e de bem-querer com que ela recebia a todos que chegávamos ao teatro, quanto a tarefa que ainda está por ser feita. Alguém me comentava que o governador José Ivo Sartori havia decidido batizar o Multipalco com o nome de Eva Sopher. Bom, acho que isso era o mínimo que deveria ser feito. Mas não basta, isso também precisa ficar claro. Não creio que Sartori - que, na sua dupla gestão de Caxias do Sul, deixou uma bela herança no campo cultural - simplesmente omita-se da responsabilidade que, por um acaso do destino, caiu também em suas costas.
Mas quem assumir a direção do Theatro São Pedro, ao lado de sua Associação de Amigos, que é a entidade que realmente vem assumindo a responsabilidade maior pela viabilidade financeira e identitária do teatro, precisa ter credibilidade para continuar a angariar os fundos necessários para a conclusão da obra. E diretorias de entidades diretamente vinculadas ao governo do Estado, como o Banrisul, precisam parar de lavar as mãos, empurrar os problemas para mais adiante e fingir que não têm responsabilidade sobre a situação, porque têm, sim.
Aprendi uma coisa ao longo dos anos de vida pública: a gente não pergunta se dá para fazer, porque esta é a maneira de dizer que não se quer fazer nada. A gente tem de afirmar: como faço isso? Do ponto de vista legal e político, administrativo e criativo, e assim se consegue fazer. Foi isso que Eva Sopher fez a vida toda.
Parcerias
Aparentemente, Eva nunca teve vida político-partidária. É verdade, nunca se filiou a qualquer partido. No entanto, ninguém mais política do que ela. E ela tinha uma grande qualidade: dizia o que pensava diretamente para as pessoas, não mandava dizer. Isso aconteceu com empresários que se mostravam às vezes reticentes em ajudar as obras do teatro; com governadores, secretários de Estado, ministros e até mesmo os generais da ditadura.
Mas Eva tinha uma outra característica inolvidável: seu sorriso. Quando ela sorria, o mundo se iluminava, mudava de ser. E ela não tinha dificuldades de sorrir. Por isso, sempre consolidou parcerias memoráveis. Na Pro Arte; na sua campanha pela aquisição do piano Steinway, já para o teatro de que depois ela se tornaria administradora; enquanto coordenadora da reconstrução do teatro; enfim, quando idealizou o Multipalco, ela tinha consciência de que precisava ter parcerias, obras deste tipo não acontecem de maneira individual, por mais voluntariosa que seja uma pessoa. Elas são obras coletivas. E Eva se esmerou em cultivar relações, muitas das quais depois viravam amizades sólidas, porque marcadas pelo respeito e a admiração.
Lembro de parceiros seus entre os profissionais do jornalismo: Paulo Amorim, na Zero Hora; ele depois chegaria a coordenar o Departamento de Assuntos Culturais da SEC; Paulo Fontoura Gastal, Osvaldo Goidanich, Lygia Nunes - todos do Correio do Povo - Dante Barone, então o administrador do Teatro São Pedro; e assim, tantos outros que, primeiro atendendo a um pedido de Eva, depois eles mesmos tomavam a iniciativa de participar.
Atenção à juventude
No início de minhas relações com Eva Sopher, eu jornalista da editoria de Cultura do Correio do Povo, ela diretora da Pro Arte, eu era mais um jovem a cruzar por sua vida. Aliás, na época, ela mesma era também bastante jovem. E tinha esta perspectiva da importância de os jovens poderem acessar o conhecimento, em especial a experiência estética. Daí que a Pro Arte sempre deu atenção aos jovens. A entidade promovia concertos anuais.
No início do ano, lançava seu carnê de assinaturas. Os interessados adquiriam o carnê e, a partir daí, poderiam assistir a todos os programas previstos. Muitas vezes, ao longo da temporada, acabava lhe sendo oferecido um espetáculo imprevisto que, quando possível, ela incorporava à programação original. Mas sempre preocupou-se em ter uma assinatura com preços diferenciados para os jovens.
Identidade
Uma coisa que marcou a vida de Eva Sopher foi o fato de ter sido obrigada a deixar seu país de origem, a Alemanha. Evidentemente se adaptou bem ao Brasil, tanto que adotou sua nacionalidade. Mas muitas vezes, ao escrever sua biografia, em Doce fera, discutimos este assunto. Ela mantinha boas relações com a então República Federal da Alemanha que, por seu lado, prestou-lhe muitos reconhecimentos ao longo de sua vida, mas tenho a impressão de que sempre guardou, no fundo do coração, uma certa frustração. Por isso, sempre fez questão de reafirmar sua condição judaica, sem quaisquer sectarismos, mas preocupada em deixar claros os compromissos com as origens e suas raízes.
Ainda recentemente, em seu velório, lá estava a bandeira com a estrela de Davi. Por outro lado, Eva era verdadeiramente uma cidadã do mundo. Nos anos em que tive a oportunidade de morar com a família Wolf no conhecido casarão da rua Carlos Gomes, 66, depois doado ao governo do Estado e que constitui a residência de verão, em Canela, acostumei-me a dois rituais: todos os artistas que chegavam a Porto Alegre, para apresentar-se pela Pro Arte, depois recital tinham um convite certo para jantar em sua casa.
Enquanto Eva estava envolvida com a azáfama que envolvia o concerto, as mulheres da cozinha da casa garantiam a boa refeição que depois seria desfrutada. O maior desafio, sem dúvida, foi quando a Pro Arte assumiu o concerto da Orquestra Filarmônica de Israel (com regência de Zubin Mehta) ou o grupo dos Cantores de Viena; mas a tradição se manteve. Só foi interrompida com a morte de Wolf.
O outro ritual acontecia pelo meio do ano. Eva e Wolf gostavam de viajar, uma vez a cada temporada, em torno de junho ou julho, quando era verão no outro lado do mundo. E quando escrevo "outro lado", quero dizer outro lado, mesmo: apesar de suas origens, admiravam e gostavam de visitar o Oriente Médio, aproveitando certamente para buscar os pontos de coincidência entre sua cultura e a cultura árabe. Nem Eva ou Wolf apoiaram jamais a divisão entre árabes e judeus e, se deles dependesse a política mundial, certamente aquela região hoje já estaria em paz há muitas décadas.
Harmonia em casa
O casal funcionava em perfeita harmonia. Wolf era empresário bem-sucedido, viajando várias vezes ao ano para o exterior. Mas sempre guardava "aquele período" para a viagem do casal. Eva estava mais fixada a Porto Alegre, mas sua sala de trabalho, no casarão, tinha um telefone verdadeiramente internacional. Havia uma rotina em sua vida: nos dias de semana, pela manhã, depois do café da manhã, era a hora da Pro Arte. Ali ela tinha sua mesa, seu caderno de endereços e tratava de responder a uma correspondência enorme, boa parte da qual trocas de mensagens em torno de ofertas de concertos ou recitais, discussão sobre cachês (pagar em cruzeiros, o que valia dólares, era um desafio, sobretudo os períodos em que vivemos de inflação permanente e crescente). Pelo meio da manhã, um cafezinho. Ao meio dia, com a chegada de Wolf, o almoço. A Zivi Hércules estava sediada na Zona Norte, próximo à atual área do Esporte Clube São José, e, portanto, almoçar em casa era uma possibilidade que Wolf desfrutava com constância.
O casarão foi desmontado e levado para Canela. Eva foi morar no apartamento relativamente grande, mas precisou desfazer-se da enorme biblioteca: tenho livros em inglês, francês e espanhol herdados do casal, sobretudo peças de teatro, que Wolf especialmente, gostava de ler. Deles guardei o hábito de inscrever, em cada novo livro, além de meu nome, a data e o local em que adquiri o livro, memória eficiente sobre a história de cada volume.
A eterna administradora?
A mesma rotina que Eva Sopher manteve em torno da Pro Arte, ela a recriou em torno do Theatro São Pedro. À exceção dos últimos anos, depois do AVC, ela passava as tardes no seu gabinete do teatro. Ali despachava, discutindo ações, resolvendo espetáculos a serem incluídos na agenda e, sobretudo, com seu exemplo e prática, formando uma equipe que, de certo modo, reverberavam o modo de ser de sua diretora. Por isso o teatro se manteve íntegro, enquanto boa parte dos demais prédios, reconstruídos mais ou menos na mesma época, deterioraram-se rapidamente, mas o São Pedro, não.
Chama a atenção o fato de que Eva Sopher atravessou diferentes administrações do Estado permanecendo sempre à frente do Theatro São Pedro. Ninguém sequer pensava substituí-la. Houve um único episódio: logo ao assumir o governo, Alceu Collares ensaiou a troca de comando do teatro. Houve uma verdadeira comoção popular, e uma multidão rodeou o teatro, abraçando-o, em protesto. Participei ativamente deste movimento, cujas fotografias, aliás, foram projetadas durante o velório de Eva: as pessoas, de mãos dadas, na calçada ou no meio da rua, rodearam o prédio como se dissessem "aqui não, aqui quem manda é a Cultura, não a Política". E Collares recuou.
Assim ela viveu mais de quatro décadas. Por isso, disse, em algum momento, que ela foi a madrinha da cultura sul-rio-grandense mas, mais que isso, a Boa Fada do Theatro São Pedro. Sem ela, por certo, o teatro não estaria na condição de conservação e uso em que se encontra e que, esperamos todos, deverá permanecer. As cinzas de Eva Sopher, colocadas junto à paineira centenária ao lado do prédio, assim o garantem. Ela se tornará a primeira fantasma da obra, se não alcançarmos terminá-la. Esta foi sua promessa, a vontade que deve nos guiar.
Porque nada é mais verdadeiro e fiel à realidade do que, admitindo embora a morte física de Eva Sopher, admitir, igualmente, que sua luz sempre permanecerá entre nós, pelos seus exemplos e coragem, por suas ações e legado.
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Comentários
Marcelo Ádams 16/02/2018 14h14min
Obrigado, Hohlfeldt, pelas histórias que relembraste em teu texto. Como artista, muitas vezes me apresentei no Teatro São Pedro, e dona Eva tinha um lindo hábito: visitar os camarins, no dia da estreia, levando um arranjo de flores e cumprimentando a toda a equipe que se preparava para pisar no maravilhoso palco do teatro que administrava. Para todos nós era emocionante ter aquela pequena grande mulher nos honrando com sua consideração e apoio. Sentirei falta de Eva Sopher. De seu exemplo.