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Porto Alegre, quinta-feira, 08 de fevereiro de 2018.

Jornal do Comércio

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

Notícia da edição impressa de 09/02/2018. Alterada em 08/02 às 17h44min

Do universo de Guimarães Rosa às tradições lusitanas

Duas das atrações sobre as quais tinha mais curiosidade, neste Porto Verão Alegre, eram Seu Bonfim, baseado num dos mais conhecidos contos de Guimarães Rosa, e Reportório Osório, por ser um espetáculo trazido desde Portugal.
Seu Bonfim é uma releitura do conto A terceira margem do rio, de Guimarães Rosa, um dos textos mais conhecidos e mais referenciais do escritor mineiro. O trabalho de Fábio Vidal - recriação do texto e interpretação em espetáculo solo - é bastante interessante, mas é fundamental que a gente se distancie do conto original. Melhor: que a gente o esqueça. Se perdurar a comparação, o espetáculo teatral, de uma hora de duração, sai perdendo longe. Porque não chega a guardar nenhuma daquela poesia que existe no conto original. Na verdade, Fábio Vidal buscou simplificar o conto, digamos, colocá-lo em linguagem mais palatável para o grande público, o que redundou num texto prosaico que perdeu a poeticidade do original. Inteligentemente, a direção foi entregue a outra pessoa, Meran Vargens, que assim pôde guardar uma visão crítica sobre o texto, valorizando-o.
Feitas estas constatações, esqueçamos o texto original e avaliemos o espetáculo. Vidal é um ator de uma potencialidade assombrosa. Sua transformação num velho, o tal Seu Bonfim, é admirável. E a recriação que ele fez do conto, acrescentando-lhe um final que "identifica" quem seja este personagem, é uma boa alternativa que, de certo modo, transforma o conto original em uma outra narrativa. Neste sentido, o espetáculo traça seu próprio rumo. Seu Bonfim viaja pelas estradas poeirentas. Em seus andrajos guarda um sem número de objetos, inclusive uma garrafa de cachaça, que vai bebendo ao longo do caminho. Mas guarda, sobretudo, as lembranças de um passado que começa na infância e chega à velhice: aqui, a chave do espetáculo, que aparece apenas no fechamento do trabalho. Gosto desta performance, que é difícil, sobretudo se tornando mais complicada na medida em que o ator a incorpora desde 2000, mas não me parece ter automatizado o personagem e sua interpretação, o que é seu grande mérito. A proximidade do ator com o público, no caso do Teatro de Arena, dificulta seu trabalho. Mas ele incorpora a figura de Seu Bonfim como uma emoção que contagia e faz com que experimentemos seus sentimentos.
Quanto ao espetáculo português, Reportório Osório é quase uma montagem de um só ator, no caso, Luís Fernandes, não fora a presença de Sónia Sobral, que, além de acordeonista, auxilia na criação do clima e faz algumas contracenações com o intérprete masculino. Fernandes é, ainda, autor das letras das composições que interpreta, musicadas por Luís Cardoso. O espetáculo se organiza em torno de 11 composições, vinculadas cada uma a um personagem masculino, mais ou menos feliz com sua relação amorosa, mas todas essas relações são, para os nossos olhos, incompletas, falhas ou equivocadas. Em resumo, a eventual hilaridade do espetáculo nasce do fato de as histórias serem, todas elas, politicamente incorretas, diríamos nós, aqui no Brasil (embora creio que em Portugal também se use tal expressão). O humorismo de Luís Fernandes vai do elemento mais ingênuo a algumas referências, sobretudo sexuais, mais pesadas. Mas é evidente que não agride ninguém, porque é bem equilibrado. Fernandes é um bom ator e evidencia ser também um bom improvisador, sobretudo graças a seus comentários ao final do espetáculo, ou quando resolve "explicar" o sentido de algumas palavras que, em Portugal, podem ser compreendidas de maneira diferente de que no Brasil. Mais que isso, Luís Fernandes é um bom cantor, tem voz simpática, e sabe valorizar sua presença cênica: neste sentido, é mais mímico que ator, propriamente dito. Sónia Sobral faz uma contraparte engraçada, além de evidenciar-se como exímia acordeonista. Em suma, não foi tudo o que esperava, mas se mostrou divertido, alegre e descontraído, excelente oportunidade de nos aproximarmos dos nossos irmãos lusitanos, que, bem disse Fernandes, desconhecemos muito mais do que eles a nós.
 
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