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Porto Alegre, domingo, 11 de fevereiro de 2018.

Jornal do Comércio

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Opinião

Notícia da edição impressa de 12/02/2018. Alterada em 09/02 às 19h42min

O bitcoin é uma fraude?

Pedro Paulo Silveira
No livro "Episódios da História Monetária", Milton Friedman cita a Ilha de Yap, na Micronésia, para ilustrar como a moeda, que é um bem fundamental, pode ter várias formas em diferentes épocas da história e em diversas culturas do planeta. Nesse pequeno país, os habitantes usavam pedras para servir de intermediários em suas trocas de bens e serviços. Hoje, utilizamos diversos meios para realizar os nossos pagamentos, que vão desde notas e moedas metálicas, aos dispositivos eletrônicos como internet banking e celulares.
A velocidade e a praticidade para efetuar as transações estão aumentando, ainda que os custos de transação ainda sejam elevados. Temos aí um conjunto de meios de pagamento (moedas, cartões etc.) para liquidar transações financeiras em uma determinada moeda, o real, que é aceita por todos os agentes que estão no País. Devemos ter em mente que existem os meios de pagamentos e as moedas, mas essas duas coisas não se confundem.
O real, por exemplo, é a moeda brasileira aceita para liquidar as transações financeiras dos agentes, que serve de referência de conta para os preços dos bens e serviços, e que é usada como reserva de valor. Em todos esses casos, o real está na vida das pessoas, colocando tudo o que está em nossa volta, medido em sua unidade. Pagamos R$ 20,00 nos ingressos de cinema, R$ 50 mil em um automóvel ou aplicamos R$ 20 mil em um CDB de um determinado banco para resgatarmos R$ 20,5 mil daqui alguns meses. Todos os países têm seus preços denominados em suas moedas e têm seus meios de pagamentos para liquidar as suas transações. Esse é o mercado no qual uma moeda se estabelece: é necessário que os agentes utilizem essa moeda para liquidar suas transações, para guardar sua riqueza ou para dar preço a todos os bens e serviços.
Podemos ter moedas como o dólar ou o real, ou podemos ter moedas como as pedras da Ilha de Yap, o sal, o ouro e outras formas exóticas do passado. Se uma mercadoria tem essas três características, ela pode ser eleita ao status de "moeda". Caso contrário, ela pode desempenhar algum papel, menos o de moeda.
É aí que entra o bitcoin, ou alguma das mais de 800 moedas virtuais criadas nos últimos anos. O bitcoin surgiu em 2008 e foi idealizado por um programador de nome Satoshi Nakamoto, porém ninguém o conhece de fato. Desde então, ganhou fama e adeptos. Vejam, o tal Nakamoto não tem uma existência confirmada, e o que os adeptos da moeda argumentam - sobretudo aqueles que a têm, que a negociam ou que a emitem - é que ela é à prova de governos, de roubo e que é uma nova invenção que revolucionará a forma como vemos o mundo. Se você realmente quer acreditar que uma moeda, que foi produzida por alguém que não tem existência confirmada, tomará o lugar das principais moedas do planeta, é necessário pensar se o Bitcoin realmente é uma moeda. Para responder a essa pergunta crucial, basta nos perguntarmos se ela é aceita como meio para liquidar as nossas transações. O bitcoin é aceito pelo comércio, por empresas de serviços financeiros ou por alguma outra pessoa? Ainda que você saiba de alguém que o aceite, essa será uma imensa exceção. Poucos o aceitam ou, o que é pior, alguns nem mesmo ouviram falar sobre. A moeda só é aceita nas plataformas de negociação on-line e, além disso, nada no mundo é referenciado em Bitcoin. A única função na qual é reconhecida, à semelhança das outras moedas, é a de reserva de valor. Alguns milhares de pessoas no mundo o têm usado para fazer sua poupança ou para especular com o valor do Bitcoin em relação ao dólar.
Portanto, hoje, o Bitcoin não é uma moeda. Pode ser que um dia ele se torne uma, mas não hoje em dia. Eu diria que é uma criptomercadoria especulativa, e não uma criptomoeda. Logo, já que você não a utilizará como meio de pagamento para suas trocas ou como unidade para as contas, você a utilizará para especular. Apesar de todo o discurso libertário de seus promotores (sites, vendedores, gurus e alguns especuladores profissionais), o bitcoin é uma roda de especulação acerca da promessa de um meio de pagamento se tornar uma moeda.
Milhares de pessoas têm corrido para sustentar essa nova febre sem se atentar ao fato de que entrar e sair da criptomoeda custa caro, afinal as corretoras cobram caro pela conversão. Além disso, a demanda é inflada pela lógica das manias, presentes em todas as bolhas, e está crescendo em toda a rede. À medida que os preços dessas moedas também sobem, aumentando sua emissão, outros agentes vão lançando novas moedas.
Como nada é regulado e não há limite para a emissão, espera-se um fluxo considerável de novos emissores competindo entre si. Sempre que um preço sobe em mercados que não têm barreiras à entrada ou à saída, vários agentes são atraídos para ele, e a oferta é aumentada rapidamente. A competição fará com que os preços se equilibrem e que as moedas sejam transacionadas a valores muito próximos de seus custos de emissão. Como esses custos de emissão são muito baixos, a tendência é que as moedas convirjam a um valor próximo de zero.
Então estamos falando de uma moeda que não é moeda, que foi produzida por alguém que não existe, que está em um mercado com oferta ilimitada e que já subiu 6 milhões por cento. E você, como todos os participantes de bolhas, acredita piamente que conseguirá sair no melhor momento antes que os preços desabem, por força dos irrefutáveis mecanismos de mercado.
Economista-chefe da Nova Futura Investimentos
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