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Porto Alegre, domingo, 11 de fevereiro de 2018.

Jornal do Comércio

Empresas & Negócios

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consumo

Notícia da edição impressa de 12/02/2018. Alterada em 09/02 às 20h06min

Alternativas ao parcelamento

Medida busca compartilhar o risco de inadimplência do cliente com bancos e lojistas

Medida busca compartilhar o risco de inadimplência do cliente com bancos e lojistas


/FREEPIK/DIVULGAÇÃO/JC
As empresas que administram cartões de crédito iniciaram uma ofensiva para tentar, aos poucos, asfixiar uma das mais conhecidas "jabuticabas" brasileiras - a compra parcelada sem juros. O objetivo é criar uma alternativa que distribua melhor os custos da inadimplência com outros participantes do mercado, como bancos e os próprios lojistas - que devem ser justamente o elo fraco da equação, temem associações comerciais.
Hoje, as lojas aceitam que o consumidor parcele a compra no cartão de crédito e recebem das administradoras, que ficam com o risco de inadimplência - ou seja, do consumidor não pagar a fatura -, 30 dias depois. Ainda não há um modelo sobre como a nova forma de crédito funcionaria, mas o objetivo, diz a Associação da Empresas de Cartões de Crédito (Abecs), não é eliminar totalmente o parcelado sem juros.
O Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV), que participou de reuniões envolvendo a Abecs e o Banco Central (BC) para discutir as mudanças, confirma que foi apresentada uma alternativa ao parcelamento sem taxas, mas sem a intenção de acabar com a modalidade mais popular do comércio.
A proposta seria uma espécie de crediário em que seria possível parcelar as compras com pagamento de juros, e que o lojista passasse a receber o pagamento em cinco dias. Por trás da mudança, estaria a intenção das emissoras de cartões de compartilhar o risco de inadimplência do cliente com bancos e lojistas, diz Juliana Inhasz, professora de finanças do Instituo de Ensino e Pesquisa (Insper). "As administradoras amargaram prejuízo com o aumento da inadimplência. A ideia é tentar passar um pouco desse custo para os bancos", diz.
Para representantes do varejo, a alteração pode prejudicar o setor. "Achamos que simplesmente eliminar o parcelado sem juros pode trazer reflexos no consumo, tornar mais caro o crédito ao consumidor. A economia está melhorando, não podemos ter medidas que possam onerar o consumo", diz Jorge Gonçalves, conselheiro do IDV.
Além disso, afirma, mudar o sistema seria complexo, porque haveria reflexos para a bandeira do cartão, o emissor e o varejista. "O dinheiro vem do varejo. O cartão analisa o crédito e garante o recebimento dos lojistas, mas a gente entende que o custo do dinheiro que financia o cliente é do próprio cliente", afirma.
A Abipag, que representa as instituições de pagamento, estima que uma alteração do tipo na estrutura do sistema pode ter impacto de até R$ 90 bilhões, medido pela redução do consumo. O cálculo considera que os consumidores deixarão de consumir para quitar os juros do crediário. Para Augusto Lins, presidente da associação, o parcelamento sem juros é a melhor forma de estimular o consumo.
O economista Fábio Pina, da FecomercioSP (Federação do Comércio de São Paulo), diz que a entidade não foi convidada para a discussão, mas se posiciona contra a mudança. "O parcelamento no cartão representa uma fatia importante das vendas e é usado como estratégia", avalia. Caso a medida seja implementada, a federação defende que o recebimento das vendas pelo lojista seja realizado no dia seguinte à operação, e não cinco dias, como sugeriu a Abecs ao BC.
O conceito de parcelamento sem juros gera controvérsia. Especialistas dizem que, na verdade, não há essa figura de concessão de crédito sem a cobrança de uma taxa. "Foi uma evolução do cheque pré-datado. O que acontece é o uso de um 'apelo psicológico' para que o consumidor pense que não está pagando os juros", afirma César Caselani, professor de finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Juliana tem avaliação parecida. "É muito mais um artifício para conseguir aumentar a venda e convencer as pessoas de concretizar a compra do que efetivamente uma verdade", diz. "Esse juro está embutido e, quando tem negociação para pagamento à vista, costuma haver um desconto."
A modalidade acaba ajudando no fluxo de caixa dos lojistas, diz Juliana. "Como eles negociam prazos de pagamento conforme compram, vender a prazo não é ruim. Garantem a venda e o fluxo para pagar fornecedor nos outros meses", afirma. Mas a mudança pode ter efeito positivo para o consumidor, avalia Caselani. "Se foi implantada, é preciso ficar clara a diferença entre o valor à vista e o parcelado. Seria ótimo para educação financeira."
A Abecs negou, em nota, ter apresentado proposta para eliminar a modalidade parcelado sem juros. "A Abecs reitera que essa informação não tem qualquer fundamento e que jamais considerou essa possibilidade junto ao regulador."
O BC tem consultado o setor em busca de "informações para subsidiar futura regulação, com o objetivo de ampliar a eficiência dos meios eletrônicos de pagamento e reduzir o custo do financiamento ao consumo, porém com o cuidado de não afetar o equilíbrio do sistema". 
A associação confirmou que apresentou estudos sobre um novo produto para o financiamento ao consumo, uma espécie de crediário. "Esse novo produto possibilitaria prazos maiores de financiamento ao consumidor por meio do cartão e seria uma alternativa - especialmente para os comércios menores, que não contam com capital de giro para financiar suas vendas", indicou. A associação não deu mais detalhes sobre o produto.
Carlos Firetti, diretor de relações com o mercado do Bradesco, disse ser prematuro traçar cenários sobre a mudança. "O objetivo não é acabar com o parcelado sem juros, e sim oferecer alternativas aos consumidores, incentivar o uso do parcelado com juros." Segundo ele, não há nada muito concreto. "Mas não existe a discussão de acabar com a modalidade de parcelamento sem juros." 
 
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