Geórgia lançou uma plataforma de opinião e conteúdo, o Vós Geórgia lançou uma plataforma de opinião e conteúdo, o Vós Foto: FREDY VIEIRA/JC

Me joguei e criei meu próprio lugar

Conheça exemplos de profissionais que, ao apostarem em iniciativas independentes, abriram espaço para o empreendedorismo em suas vidas, no contrafluxo dos grandes negócios

"A gente troca de celular a cada ano, mas o Jornalismo é o mesmo de 30 anos atrás. Isso é, no mínimo, estranho, né?", provoca a jornalista Geórgia Santos, 30 anos. Dona de uma voz marcante e reconhecida por muitos gaúchos, a ex-âncora da Rádio Gaúcha, do Grupo RBS, e ex-professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs) aliou os rumos da trajetória acadêmica à escolha de criar um projeto próprio, baseado naquilo que acredita enquanto comunicadora. Se sua marca foi deixada pela voz, agora robustece pelo Vós - Pessoas no Plural (https://vos.social), plataforma independente de Jornalismo criada há exatamente um ano.
O site, que mescla, principalmente, conteúdos de reportagem e opinião, tem como pilar trazer assuntos envoltos pelo seu contexto - seja uma resenha de série, uma coluna de Economia ou uma matéria local. "Nada é avaliado isoladamente. A ideia é produzir um tipo de informação que faça com que as pessoas conversem, pensem e discutam, sem preconceito", emenda ela. Outro ponto forte a ser explorado pelo portal é a abertura a uma prática jornalística mais inclinada à literatura e ao experimental.
"Aos 23 anos, era repórter de política e professora universitária. Percebi que o plano da vida que sonhei, e que tinha alcançado, não era exatamente o que queria fazer", conta. "Em um veículo de hardnews, por exemplo, tu não tens tempo para certo tipo de história, para narrativas mais aprofundadas ou trabalhos mais experimentais", exemplifica. A obtenção de uma bolsa de estudos para ficar em Lisboa por dois anos abriu espaço na "carreira dos sonhos" e nas perspectivas profissionais de Geórgia.
FREDY VIEIRA/JC
Ao conversar com outros colegas de profissão, viu que muitos deles também tinham a aspiração de ter um espaço para falar de outros temas de forma mais flexível. Da junção com o sócio e web designer Emerson Zapata, estava criado o Vós, em fevereiro de 2017. O investimento foi de valores intangíveis de criatividade, energia e tempo. E zero dinheiro. Até agora, o portal tem 11 colunistas, 50 mil acessos mensais e tempo médio de permanência na página de três minutos e meio.
Segundo ela, investir em um negócio independente na área da Comunicação, sobretudo atualmente, faz sentido por conta "das mudanças no mercado, que clamam por reinvenção dos profissionais e as possibilidades infinitas que a internet oferece". Mas o dilema é o mesmo do setor inteiro: fazer verter remuneração a partir da produção de conteúdo - sabendo que o modelo antigo não se sustenta mais. A princípio, o Vós tem projetos voltados para editais públicos, e a intenção é pôr em prática estratégias de reportagens autorais com suporte de patrocinadores.
Doutoranda em Ciências Sociais com enfoque em Ciência Política pela Pucrs, Geórgia fez um pé(zão) de meia para que pudesse tocar o projeto seriamente. Seus cálculos devem garantir mais dois anos sem outros empregos para poder trabalhar na solidificação do Vós. "Se quero que o negócio dê certo, não tem como trabalhar em outro lugar e fazer doutorado ao mesmo tempo. Preciso me dedicar", conclui. E, mesmo com o frenesi destes tempos, ter um negócio na internet motiva a jornalista, agora também empreendedora, a querer dar um passo por vez. "Temos reportagens que estão sendo produzidas desde abril do ano passado. O Vós nasceu de uma mudança em mim, de levar uma vida mais tranquila. Não tenho pressa, porque quero algo sólido."

Do e-commerce para a rua

GE
Entrevista com André Gunther e Ederson Lopes (de óculos), sócios da Livraria Taverna, para pauta sobre negócios independentes do GeraçãoE. André e Éderson acreditam que a livraria física tem o papel de curadoria Foto: /MARCELO G. RIBEIRO/JC
No final do ano passado, a Livraria Cultura, uma das maiores do País, comprou a Estante Virtual, primeiro e mais conhecido marketplace de livros pela internet no Brasil. Uns anos atrás, dois estudantes de Ciências Sociais de Porto Alegre fizeram o movimento contrário: cansados da rotina de vender livros on-line, em 2014, passaram a comercializar nas feiras da Capital e, enfim, deram à luz, em junho de 2016, a sua própria livraria, a Taverna.
"Começamos com nosso acervo pessoal pela internet. Cansamos de só ficar em casa cadastrando livro e enviando", conta André Günther, 26 anos. A loja dos dois encontrou casa no número 370 da rua Cel. Fernando Machado, no Centro Histórico, onde antes funcionava uma oficina de consertos de máquinas de lavar. "Era graxa de cima a baixo", relata, entre risos, Éderson Lopes, 32 anos, sócio e companheiro de André. Eles mesmos fizeram a reforma do lugar e o site, que permanece como e-commerce. Para a empresa, estar nos dois ambientes é o canal.
"Acho que a venda pela internet é importante por conta do acesso, uma vez que o número de livrarias no País é muito baixo", alinhava Ed. Ao contrário, André conta que, por vezes, chega até eles o questionamento de se as livrarias irão deixar de existir. "Acho que não, porque ter uma loja de livros não é sobre o produto em si, mas sobre a curadoria e a conversa, as indicações. Muita gente chega aqui querendo comprar algo que ainda não sabe o que é, e nós ajudamos neste processo", argumenta.
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O negócio começou, pois, no início, era difícil de encontrar certos títulos da área deles na cidade. Os dois foram aprendendo na marra toda a missão de construir e organizar uma empresa. "No início, nós dois fazíamos tudo. Agora, temos mais separação. Eu fico com a comunicação, e o Ed, com o financeiro e as encomendas." Há um ano, eles contrataram William Caetano (ex-funcionário da tradicional e extinta Palavraria) para o atendimento, de carteira assinada e todos os direitos garantidos. Mesmo com tudo isso, André e Éderson ainda se mostram um pouco estranhos à imagem de empreendedores.
Em 2017, a Taverna tornou-se também editora. Para 2018, há quatro lançamentos na fila. Um dos trunfos de ter um negócio pequeno neste ramo, afirmam, é vender títulos que as grandes empresas costumam desprezar, que são os independentes.
O acervo, de cerca de 5 mil exemplares, hoje, se baseia nas áreas de Artes e Humanidades, e evidencia autores e temáticas afro, de gênero e LGBT , além de livros clássicos.
"Fomos surpreendidos pela característica interiorana do Centro Histórico de valorizar o que há no bairro. Alguns vizinhos, às vezes, vêm só para tomar um café ou uma cerveja, perguntar como estamos. Hoje, vejo que a escolha do local é muito importante para um negócio", pontua André.

Escola preenche lacuna do mercado ao focar em dança contemporânea

Douglas diz que os outros locais incluem a técnica como uma das tantas opções Douglas diz que os outros locais incluem a técnica como uma das tantas opções Foto: /MARCELO G. RIBEIRO/JC
Desde o segundo semestre do ano passado, Porto Alegre tem uma escola exclusivamente focada no ensino de dança contemporânea. Localizado na avenida Teresópolis, nº 2.292, no bairro de mesmo nome, O Ninho é uma iniciativa encabeçada pelo artista Douglas Jung e um conjunto de professores que instrumentalizam os alunos com diferentes referências para a prática, que envolve danças urbanas, yoga, contato improvisação e ballet.
"A proposta é mais aberta no sentido de receber corpos diversos, com uma proposta séria, mas sem dizer o que o aluno ou a aluna tem de vir a ser", pontua Douglas, que é formado em Dança e Coreografia pela austríaca Salzburg Experimental Academy of Dance (Sead). "Olhando a cena daqui, senti que faltava um intermediário entre o que é a universidade, o Grupo Experimental e a Companhia Municipal", exemplifica. Mesmo forte em termos de presença de professores na técnica, Porto Alegre se caracteriza pela ausência de escolas do tipo. "Não existia escolas de dança contemporânea, mas escolas de outras técnicas, nas quais dança contemporânea é mais uma das modalidades", contextualiza.
A abertura de uma escola própria trouxe para a vida de Doug, como é chamado, uma perspectiva que dificilmente atribui ao que faz: a de negócio. "O que menos gosto de fazer é administrar. Gosto é de estar dentro do estúdio dando aulas ou criando. Ao mesmo tempo, é legal quando as coisas funcionam, de ver que se é capaz de tudo isso", reflete ele. Para auxiliar na gestão, conta com ajuda da irmã, que já foi diretora de uma escola da rede estadual. Se soma à receita de O Ninho o fato de Douglas ser filho de um professor autônomo, que tem uma escola de futsal, na Serra, há 35 anos.
"O Ninho também é fruto deste desejo de movimentar as coisas aqui em Porto Alegre, trazer informação." Ele salienta que o objetivo da escola é dar ferramentas para artistas do movimento, em que "a técnica não é o fim". "Não queremos formar um exército", brinca. Nas entrelinhas, justifica o nome escolhido para a escola: "A pessoa mesma planeja o próprio voo para depois".
MARCELO G. RIBEIRO/JC
O desafio de empreender o projeto, resume ele, é não perder o fio da meada para o que vai acontecer dentro da sala de dança. "Aprendi que planejar é 50% da realização de algo, se não mais."
"Em termos de negócio, não estava preparado para tocar uma escola. Na primeira turma, tinha sensação que ia dar certo, mas com certa apreensão. E foi muito melhor do que a gente imaginava."
O módulo inicial do curso de formação - que abrange oito semestres - chegou ao final com cinco alunos, e o intensivo de verão foi lançado com 12 inscritos em janeiro. "Uma escola não se faz sozinha. Estou aprendendo como fazer isso existir de forma mais concreta."
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