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Porto Alegre, quarta-feira, 31 de janeiro de 2018.

Jornal do Comércio

JC Logística

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Biocombustível

Notícia da edição impressa de 01/02/2018. Alterada em 31/01 às 23h44min

Com dívida de R$ 100 bi, usinas apostam no etanol

Na atual safra, que se encerra em março, o faturamento das indústrias do setor deve ficar em R$ 90 milhões

Na atual safra, que se encerra em março, o faturamento das indústrias do setor deve ficar em R$ 90 milhões


/NELSON ALMEIDA/AFP/JC
Dez anos após atingir seu auge, com investimentos bilionários em novas usinas e produção recorde de cana-de-açúcar, as indústrias sucroalcooleiras amargam hoje um endividamento pesado em seus balanços, de cerca de R$ 100 bilhões, e buscam alternativas para melhorar a rentabilidade. A aposta do setor para este ano é aumentar a produção de etanol, que está com os preços mais competitivos que os do açúcar, como reflexo da atual política de reajuste dos combustíveis adotada pela Petrobras.
Nesta safra, que se encerra em março - 2017/2018 -, o faturamento das indústrias do setor deve ficar em R$ 90 bilhões, de acordo com levantamento preliminar da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica). Se confirmadas as estimativas, será um recuo de 8% sobre o ciclo 2016/2017. A produção de cana no País deve encolher, ficando entre 630 milhões e 640 milhões de toneladas - ante uma oferta de 651 milhões de toneladas da safra anterior. A estratégia para este ano é reduzir a produção de açúcar em pelo menos 3 milhões de toneladas (dos atuais 38,5 milhões) para se concentrar no etanol.
Embora muitas empresas do setor tenham conseguido refinanciar suas dívidas, são poucas que efetivamente estão com fôlego para fazer investimentos novos em expansão das áreas agrícola e industrial, diz Alexandre Figliolino, sócio da MB Associados. A maior parte delas gera caixa apenas para pagar suas dívidas. "Uma nova onda de consolidação, como a de há 10 anos, está longe de ocorrer. Vejo aquisições mais pontuais nos próximos meses", diz Figliolino.
A expectativa é de que as usinas invistam, de modo geral, cerca de R$ 10 bilhões na próxima safra, metade do que seria necessário para fazer uma ampla manutenção dos canaviais, importante para elevar a produtividade das lavouras, afirma Guilherme Bellotti, analista sênior de agronegócio do Itaú BBA.
Por conta dos baixos investimentos nos últimos anos, é esperada uma estagnação da produção de cana no País em 2018. Mas especialistas projetam uma melhora para os próximos ciclos.
Além da recuperação da economia, o setor conta com a ajuda de um novo programa do governo para voltar a crescer. Sancionado por Michel Temer no final do ano passado, o Plano Nacional de Biocombustíveis, o RenovaBio, estimula a produção de combustíveis limpos por meio do estabelecimento de metas para a redução das emissões de carbono e prevê um ágio nos preços para os produtores que adotarem essas práticas.
"O programa estabelece o papel do etanol como matriz energética para o futuro e dá previsibilidade à commodity. Mas ainda são os primeiros passos. Embora o mercado reaja rapidamente, não esperamos nenhuma mudança drástica em 2018", diz Fabio Venturelli, presidente do grupo São Martinho.
Fontes do mercado financeiro e analistas são reticentes sobre uma recuperação do setor impulsionada por incentivos. O último boom ocorreu entre 2003 e 2008, durante a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, que deu estímulos à produção de etanol e fez a demanda do combustível deslanchar no País com a venda de veículos flex.
Dezenas de usinas foram erguidas, e investidores locais e estrangeiros deram início a um movimento de consolidação. Na gestão de Dilma Rousseff, contudo, que teve como bandeira o controle dos preços da gasolina, o etanol perdeu a competitividade, e muitos projetos que mal tinham saído do papel sofreram revés.
O País chegou a ter cerca de 450 usinas em 2008 - hoje, são 366 em operação no Brasil, segundo a Unica, com base nos dados do Ministério da Agricultura. A região do Centro-Sul, que responde por mais de 90% da produção do País, tem 279 usinas em atividade. Até o momento, mais de 30 unidades estão em recuperação judicial e outras dezenas, paradas.
O grupo Odebrecht foi um dos principais investidores do setor nos anos 2000 por meio de aquisições e logo ficou entre os cinco maiores produtores do País. Assim como boa parte dos novatos do setor, hoje está em busca de sócios e não descarta se desfazer dos ativos, segundo fontes. A companhia, que agora se chama Atvos (ex-Odebrecht Agroindustrial), está entre as mais endividadas do segmento. Em 2016, alongou R$ 11 bilhões em dívidas. O desafio atual é atrair capital, mas o excesso de usinas à venda aumenta a concorrência. A Atvos nega que esteja à venda.
Com dívidas bilionárias acumuladas no passado recente, as companhias passaram esses últimos anos tentando melhorar a saúde financeira. "Acreditamos em um movimento de reversão de queda da dívida do setor", diz Pedro Fernandes, diretor de agronegócio do Itaú BBA. Investidores locais e estrangeiros já estão atentos a esse movimento, mas sem tanta pressa para fechar bons negócios.

Investidor volta a valorizar o setor, mas está mais exigente

Passado o período mais crítico da crise do setor sucroalcooleiro, investidores nacionais e estrangeiros começam a olhar, ainda de forma tímida, ativos que estão à venda no País. Os principais alvos, nos últimos meses, têm sido usinas de empresas que entraram em recuperação judicial ou que foram a leilão.
A Raízen (joint venture entre Cosan e Shell), maior grupo do setor e responsável pelo movimento de consolidação nos anos 2000, arrematou, por cerca de R$ 820 milhões, em setembro do ano passado, duas unidades que pertenciam ao grupo Tonon Bionergia, que está em recuperação judicial. Essas unidades são estratégicas para a Raízen por estarem no Centro-Oeste do estado de São Paulo e complementarem o déficit de cana detectado pelo grupo na região.
A Tonon, que entrou com pedido de proteção à Justiça em 2015, ainda ficou com uma usina no Mato Grosso do Sul. Já a Renuka, também em recuperação judicial, não conseguiu comprador para suas duas unidades, que ficam no Noroeste do estado. A empresa, que colocou usinas em leilão, não atraiu comprador, de acordo com pessoas com conhecimento no assunto.
A grande oferta de grupos com problemas financeiros à venda deixou o investidor mais seletivo, mesmo com ativos de empresas com boa estrutura financeira. É o caso da multinacional Cargill, que há meses tenta vender sua unidade paulista Cevasa, segundo uma fonte com conhecimento no assunto. Procurada, a trading não quis comentar.
A Petrobras tem o mesmo problema. No final de 2016, a petroleira se desfez de participações em duas importantes unidades - uma em sociedade com o Grupo São Martinho, a Nova Fronteira, em Goiás, e outra com a francesa Tereos, a Guarani, levantando no total US$ 235 milhões. A petroleira agora tenta, sem sucesso, se desfazer de uma unidade em Minas Gerais que tem investidores locais como sócios.
Em nota, a estatal reforçou que o Plano de Negócios e Gestão 2018/2022 prevê "otimizar o portfólio de negócios, saindo integralmente das atividades de produção de biocombustíveis, distribuição de GLP, produção de fertilizantes e das participações em petroquímica, preservando competências tecnológicas em áreas com potencial de desenvolvimento".
A reportagem apurou que o grupo alemão Sudzucker voltou a olhar ativamente negócios no Brasil - o banco Rabobank tem o mandato da companhia. Com tradição em comercialização global de açúcar no mundo, a trading alemã informou, em nota, que estuda oportunidades dentro e fora do País, mas não quis comentar estratégia, nem confirmar o assessor financeiro contratado para avaliar potenciais negócios.
 
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