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Porto Alegre, segunda-feira, 01 de janeiro de 2018.

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sistema financeiro

Notícia da edição impressa de 02/01/2018. Alterada em 01/01 às 18h16min

Discussão sobre bolha do bitcoin ganha força

No Brasil e nos EUA, não há consenso entre especialistas sobre megavalorização da criptomoeda

No Brasil e nos EUA, não há consenso entre especialistas sobre megavalorização da criptomoeda


VISUALHUNT/DIVULGAÇÃO/JC
Será que o bitcoin, que acumula alta neste ano de mais de 1.700%, está seguindo o mesmo caminho de uma bolha como a da internet dos anos 2000? Essa é uma discussão que ganhou força nas últimas semanas e gera reações apaixonadas. Se os entusiastas pela moeda virtual defendem com unhas e dentes a solidez do ativo, uma parcela do mercado financeiro se questiona até que ponto essa onda é baseada em fatos reais.
Para seus defensores, os sucessivos recordes dos últimos meses se devem à confiança de que o bitcoin será usado como moeda no futuro. Os detratores, por outro lado, não veem perspectivas que sustentem essa demanda e associam o processo especulativo ao de uma bolha, como a do "ponto.com", quando empresas de internet com faturamento pequeno logo passaram a ser avaliadas em bilhões de dólares na bolsa.
O primeiro grupo vê a valorização do bitcoin como natural dentro de um contexto de oferta e demanda. Há um número limitado de moedas que podem ser produzidas, e uma procura crescente por quem acredita no bitcoin. "É um ativo que está chamando a atenção e que, no médio e longo prazo, vai continuar se valorizando", diz Paschoal Baptista, sócio da consultoria Deloitte.
Outro fator que valida a defesa do bitcoin é a entrada de bolsas de renome nos Estados Unidos nesse mercado. A maior bolsa de opções dos Estados Unidos, a Cboe, já lançou contratos futuros atrelados à moeda, e o mesmo caminho será seguido nesta semana pela Bolsa de Chicago, a maior de derivativos do mundo.
"Esse movimento é interessante, porque coloca o selo de uma bolsa respeitada. Até hoje, o bitcoin, que já tem 10 anos, era uma coisa muito incipiente. Agora, potencialmente, você atrai investidores institucionais, como fundos", afirma Frederic De Mariz, diretor do UBS Brasil.
Para Guilherme Vitolo, gerente da consultoria Ernst Young, a formação da cotação do bitcoin deve se tornar mais previsível, mas isso não significa que os preços ficarão mais estáveis. "Se os contratos forem usados para proteção, tendem a ter sucesso. Mas darão uma volatilidade ainda maior."
Mas já há especialistas que veem a formação de uma bolha. "Eu entendo como uma bolha, sim, porque uma hora estoura. Não passa de meio especulativo", diz Adilson Ernesto Silva, sócio da consultoria Mazars Cabrera. Para ele, depois que o preço da moeda digital se ajustar, ela continuará existindo, mas pode perder interesse para o especulador. "Vão achar outro ativo para especular".
Ricardo Rocha, professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), é da mesma opinião. "Nos Estados Unidos, especula-se até com opções sobre o bacon. Se está mais frio, o norte-americano compra mais bacon. Então por que não pode ter opções sobre o bitcoin?" Nos Estados Unidos, o jornal The Wall Street Journal entrevistou, no mês passado, 53 economistas, e 51 deles disseram que a moeda vive uma bolha especulativa.
Aqui, como lá, o tema não é consenso, e muita gente é reticente sobre se é bolha. "Você precisa ter uma referência de preços. No mercado de ações, há um parâmetro para o valor dos ativos. No bitcoin, não temos essa referência, mas não dá para dizer que é bolha", diz Ricardo Rochman, coordenador do mestrado em Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV). "Há essa variação de preços, porque, aos poucos, o ativo está caindo no conhecimento do povo", afirma.
Na economia, uma bolha é caracterizada por uma alta generalizada gerada por excesso de confiança, e uma posterior queda dos preços. Na crise do "ponto.com", o índice da bolsa de tecnologia Nasdaq subiu 1.280% entre o início de 1995 e março de 2000, antes do estouro. Depois, em um mês, caiu 17,5%. "O bitcoin não é a bolha, é a agulha que vai furar o sistema tradicional", diz Rudá Pellini, sócio da plataforma de investimento Wise&Trust ao ressaltar que, na bolha da internet, os sobreviventes (como Amazon e eBay) se transformaram em gigantes. "Não são todas as criptomoedas que vão sobreviver, só as mais fortes."

Brasil tem mais de um milhão de investidores

Ainda que muitos só estejam descobrindo agora o mundo dos bitcoins, outros tantos estão se arriscando nesta aventura faz tempo. No Brasil, estima-se que haja mais de um milhão de investidores de bitcoins, enquanto a bolsa tradicional tem pouco mais de 500 mil. Trocar bitcoins por pizza é coisa do passado. Hoje, a tentação é ver o dinheiro investido se multiplicar. E isso representa riscos, muitos riscos.
O empresário Leandro França de Mello começou a apostar em bitcoins em 2012, comprando e vendendo diariamente a moeda, tentando ganhar nas oscilações. Se tivesse simplesmente deixado-as na carteira, ele calcula que não teria do que se arrepender. Mas não foi assim. E parte do patrimônio ele perdeu por descuido. Mello guardava displicentemente em um bloco de notas do computador suas chaves criptográficas privadas, os tais códigos intransferíveis que garantem o acesso aos bitcoins. Quando o PC queimou, as moedas associadas àqueles números foram relegadas ao umbral dos bitcoins. Este limbo, que inclui ainda moedas órfãs de investidores falecidos, soma pelo menos R$ 6,9 bilhões, segundo estudo da Chainalysis publicado no mês passado. Os fóruns da internet estão repletos de lamentações saudosas sobre bitcoins perdidos para sempre. "Na época, como estudante de economia, eu achava muito esquisito que uma moeda se valorizasse para sempre", diz.
A história de Estevão Goldani, de 28, é outra. Em dois anos, o assistente de pós-produção se transformou de pacato aplicador da caderneta de poupança em especulador das chamadas criptomoedas. Ele entrou com força no bitcoin nos últimos meses e diz que ainda não se arrepende. "Todo mês, vou colocar um pouquinho da sobra do salário em bitcoins. Meus pais não entendem. Meu pai ganhou uma grana na quina, e implorei para que investisse também, mas ele é muito conservador e não quis."
Luana Larissa Teixeira, de 18 anos, dividiu seu tempo neste ano entre os estudos no cursinho vestibular, as madrugadas jogando "League of Legends" e as apostas em criptomoedas. Jogou-se no bitcoin aos 17, no final do ano passado, por amor. Seu namorado queria aplicar ali as economias, mas o expediente no trabalho não lhe permitia operar ao longo do dia. Coube a ela a tarefa. A partir de um capital inicial de R$ 8 mil, a jovem passou a dedicar parte importante do dia à compra e venda de bitcoins.
Apaixonou-se pelo que fazia e via ali muito mais sentido do que posts no Facebook ou no Instagram, aos quais é avessa. Lamentou quando, em maio, precisaram sacar o dinheiro para pagar despesas da casa. "O humor oscila com a volatilidade do preço. Eu me empolgava quando estava ganhando e, às vezes, chorava nos momentos de queda, achando que perderia tudo. Ficava monitorando a cotação pelo celular ao longo do dia, e meus amigos não entendiam muito o motivo."
No final de 2013, Luiz Moretzsohn Neto satisfez a curiosidade aguçada por um amigo do ramo de tecnologia comprando algumas daquelas excentricidades que mal conhecia. Não prestou mais atenção naquilo até que, dois anos depois, lembrou-se de checar o saldo e sorriu com a valorização de 650%. Sacou o patrimônio e só quis saber de bitcoin de novo neste ano, colocando cinco vezes o que aplicara em 2013 para ver o bolo crescer.

Pequeno aplicador precisa tomar cuidado

Apesar da "insanidade", o pequeno investidor que quer entrar neste mercado deve ter muito cuidado. "Nossa visão é de cautela. O investidor tem a obrigação de diversificar seu portfólio, ter diferentes tipos de risco", afirma Frederic De Mariz, diretor de análise de empresas financeiras do UBS Brasil. "Investimentos com volatilidade e nascentes não parecem ser adequados para quem não tem conhecimento dos produtos. Isso vale para qualquer tipo de investimento", acrescenta.
A avaliação é a mesma de Fernando Ulrich, especialista em blockchain do Grupo XP. "O pequeno investidor tem que ter cuidado. Está numa máxima histórica de preço, pode prejudicar quem está entrando agora. O risco nesse ativo é a volatilidade, não pode ser visto como investimento seguro", afirma.
Mesmo quem tem perfil moderado de investidor deve destinar pouco dinheiro ao bitcoin, diz Luciano Tavares, presidente da plataforma de investimentos Magnetis. "Tem que ter cuidado para não comprar demais e ficar com carteira muito arriscada, o bitcoin faz sentido como diversificação. O perfil moderado deve ter no máximo 2% investido nisso. O arrojado pode ter até 5%."
 

Moeda virtual supera bolsa em número de investidores

A valorização de quase 1.800% que o bitcoin sofreu somente neste ano tem gerado uma demanda "insana" pela moeda digital, na fala de operadores que atuam neste mercado, e o número de pessoas registradas nas corretoras em busca de parte desse ganho já supera 1 milhão.
Como comparação, a bolsa brasileira tinha 613 mil CPFs cadastrados, segundo dados de novembro. "Está uma insanidade, não consigo achar um adjetivo melhor", afirma Rodrigo Batista, presidente do Mercado Bitcoin, a maior das casas que operam com a moeda digital.
A empresa, que começou a atuar em 2011, tinha 200 mil clientes cadastrados um ano atrás. O número já está em 700 mil no ano - e deve atingir 800 mil, segundo estimativas de Batista. "São 10 mil novos cadastros por dia. Movimentamos R$ 105 milhões em 2016, hoje estamos movimentando R$ 120 milhões por dia", diz.
Além de bitcoin, a empresa negocia outras duas moedas: light coin e bitcoin cash. Muitos dos que se cadastram são leigos, reconhece Batista, do Mercado Bitcoin. "Uma boa parte entende o que é o negócio, mas outros não sabem exatamente o que está acontecendo, por que está valorizando. Têm pessoas que entram sem nenhum conhecimento, mas é semelhante ao que ocorre com outros investimentos."
O movimento também foi observado na Foxbit, que tem 270 mil clientes cadastrados. "O volume diário era de R$ 15 milhões a R$ 20 milhões, mas nas últimas duas semana tivemos pico de R$ 120 milhões por dia", diz Guto Schiavon, diretor de operações da Foxbit.
Hoje, a empresa só opera bitcoin, mas deve oferecer aos usuários ethereum e netcoin no primeiro trimestre de 2018. "Ninguém previa crescimento de 1.800% no ano." A plataforma da CoinBR tem 100 mil usuários. "A cada dia que sai uma matéria, mesmo as que falam mal, surgem 400 usuários no dia seguinte", diz Rocelo Lopes, presidente da empresa.

Regulação é necessária, defende especialista

A regulação poderia proteger o usuário que compra moedas digitais, em especial o leigo, na avaliação de Frederic De Mariz, diretor de análise de empresas financeiras do UBS Brasil. "Quanto maior a inovação e seu poder de disrupção, maior tem que ser a regulação. Hoje, sem regras, não há a quem recorrer em caso de problema."
O presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, disse que comprar bitcoin é operação de risco, mas o órgão não restringiu negociações. "É a típica bolha, pirâmide, em algum momento vai subir e depois voltar", declarou. 
No esquema de pirâmide, usuários são remunerados ao atrair novas pessoas. Não é o que acontece na compra de bitcoin. No entanto especialistas interpretam que o efeito manada - ou seja, novos investidores entrando em busca de ganho - seria comparável.
Para Adilson Ernesto Silva, da consultoria Mazars Cabrera, há omissão do Banco Central. "A regulação seria a única coisa que eliminaria a especulação em torno do bitcoin. Só vai fortalecer a moeda no futuro", afirma.
Em tese, porém, a regulação vai contra os princípios fundamentais da moeda, que foi criada com o registro descentralizado e de código aberto, com validação colaborativa. Mas nada impede que governos criem suas próprias criptomoedas, como é o caso da Venezuela, que, em crise e sob sanções dos EUA, vai lançar a petro, lastreada pelas reservas de petróleo, gás e óleo. Na Holanda, o banco central criou, há dois anos, a sua própria moeda digital, mas ela circula apenas internamente na instituição, como uma forma de aprendizado.
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