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Porto Alegre, segunda-feira, 06 de novembro de 2017.

Jornal do Comércio

Geral

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Cultura

Notícia da edição impressa de 07/11/2017. Alterada em 06/11 às 22h43min

Catálogo do Queermuseu desaparece de bibliotecas

Após protestos, exposição no Santander Cultural foi encerrada

Após protestos, exposição no Santander Cultural foi encerrada


/MARCO QUINTANA/JC
Isabella Sander
Um desafio novo tem sido enfrentado pelas entidades de biblioteconomia no Estado: a censura a livros. No mês passado, ao menos cinco Câmaras de Vereadores no Rio Grande do Sul solicitaram às prefeituras que retirassem de circulação o livro feito com o catálogo das obras da exposição "Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira", encerrada em setembro no Santander Cultural, em Porto Alegre, após protestos de pessoas que consideravam que algumas pinturas do acervo faziam apologia a pedofilia e zoofilia e afrontavam a religião.
Como de praxe em atividades patrocinadas pela Lei de Incentivo à Cultura, o livro foi distribuído em todas as bibliotecas públicas gaúchas. Os pedidos de retirada da obra dos acervos foram feitos por vereadores de Bento Gonçalves, Cachoeirinha, Caxias do Sul, Erechim e Uruguaiana. A reportagem do Jornal do Comércio averiguou que as bibliotecas municipais de Bento Gonçalves e Uruguaiana não estão mais com os livros em suas dependências.
Em Uruguaiana, segundo o diretor de Cultura, Ricardo Peró Job, o livro foi retirado da biblioteca, sem autorização, pelo vereador Eric Lins (DEM), autor da moção de repúdio no município. "Ele entrou no setor restrito a funcionários, onde a obra estava, e saiu com ela", relata. Job solicitou à Câmara que a publicação fosse devolvida pelo parlamentar, mas ainda não obteve retorno.
Lins, por outro lado, alega ter pego o livro como qualquer cidadão poderia fazer, assinando a folha de retirada. Em posse da publicação, a levou para o plenário, fez a moção de repúdio e devolveu a obra, junto com a moção, para que o prefeito do município entregasse ambas para o Santander. "Há uma grande leniência em relação a coisas que desbordam o irrespeitável, e isso tem que terminar. Começamos a mostrar o que está acontecendo, para que as pessoas percebam os abusos silenciosos que sofrem e voltem a ter capacidade de indignação", pontua.
Em Bento Gonçalves, a obra chegou a ser encaminhada à biblioteca, mas a Secretaria Municipal de Cultura pediu que fosse enviada para a prefeitura antes de se tornar disponível. Até o momento, não voltou aos bibliotecários. "Ainda estamos discutindo de que maneira o livro fará parte do acervo. A proposta é que haja uma classificação indicativa da obra", explica o secretário da Cultura do município, Evandro Soares.
Em Caxias do Sul, o livro está em processo de catalogação e deve ficar disponível para público restrito. O catálogo será encaminhado para o setor de obras raras, no qual poderá ser pesquisado na presença de um funcionário, mas não poderá ser emprestado.
Em Cachoeirinha, a publicação ainda não está nas prateleiras porque está sendo catalogada. Posteriormente, entrará no setor de acervo fixo, no qual não é possível retirar o livro da biblioteca. Também será colocado um selo na capa, de consulta apenas para adultos.
Erechim foi a única cidade que recebeu moção de repúdio por parte de vereadores na qual o livro está disponível para empréstimo - inclusive, está emprestado no momento.

Bibliotecários criticam atitude de vereadores e afirmam nunca ter sofrido censura antes

O presidente do Conselho Regional de Biblioteconomia, Alexsander Borges Ribeiro, relata que, a partir do momento em que os livros foram doados, houve uma onda de vereadores propondo moções de repúdio. O Conselho Federal de Biblioteconomia lançou nota criticando a retirada dos catálogos. "Não costumamos ter problemas, pois os bibliotecários filtram muito bem o que deve ou não ser exposto a crianças. Temos áreas restritas com livros sobre nazismo e outros que podem incitar o suicídio, por exemplo. Não é preciso que vereadores, por politicagem, interfiram", afirma.
Para Ribeiro, todos os livros são importantes, mesmo os que têm conteúdo controverso, uma vez que um livro de apoio ao nazismo, por exemplo, pode ser usado por um pesquisador em um estudo sobre o combate à prática. "É preciso entender os pensamentos diversos existentes no mundo. Todo livro tem seu leitor e, historicamente, os bibliotecários fazem essa filtragem", critica.
Na opinião do presidente do conselho, outras exposições mais chocantes passaram batidas e não há por que se começar a revisar livros agora. "Temos bibliotecários que não concordam com o conteúdo, mas lidam bem, porque entendem que a biblioteca deve estar livre de qualquer interferência ideológica e acessível a todos", pontua.
Sob a ótica do presidente da Associação Riograndense de Bibliotecários, Alexandre Demétrio, biblioteca é um espaço de liberdade de expressão. "Quando não sabemos que em uma biblioteca existem regras e um sistema de organização, pensamos que qualquer pessoa pode pegar o que quiser ali. Não é assim. O bibliotecário tem técnicas para disponibilizar as informações de acordo com seu perfil", enfatiza.
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