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Porto Alegre, quinta-feira, 16 de novembro de 2017.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Notícia da edição impressa de 17/11/2017. Alterada em 16/11 às 18h48min

Desafios

Cultor do documentário, realizador de duas obras-primas do gênero, Nelson Freire e Santiago, João Moreira Salles volta a oferecer ao público um trabalho ao qual não se pode negar excepcionalidade. Depois do pianista e do mordomo, o diretor inova outra vez, realizando um filme na primeira pessoa, ele mesmo narrando as impressões e as meditações dele próprio permitidas pela descoberta de um filme realizado pela mãe em viagem à China, na época da chamada revolução cultural. No primeiro filme citado, o cineasta exaltava não apenas um artista, porque também focalizava sua solidão e colocava na tela uma personalidade cuja integridade não poderia ser aferida apenas pela emoção despertada por seu talento. No segundo, realizado a partir de um filme já feito, no caso pelo próprio Salles e interrompido por dificuldades de elaboração depois superadas pelo diretor, os registros do comportamento do mordomo da família permitiam a descoberta de uma sensibilidade oculta. Ligando um filme ao outro, a música se fazia presente, dominando o primeiro e surgindo no segundo na admiração pela ópera, por uma cena de dança numa obra de Vincente Minnelli e pela sequência em que o protagonista se veste a rigor para interpretar uma peça de Beethoven. Em seu novo filme, No intenso agora, Salles, sem abandonar o interesse em descobrir o indivíduo atrás das aparências, ergue um painel que tem por tema principal tentativas de alterar o cenário no qual o ser humano é condenado a viver. O filme procura flagrar a revolta em dois países europeus, em 1968, e também, a partir das imagens registradas por Elisa Moreira Salles, em 1966, uma fuga do cotidiano então substituído pela contemplação de encenações dirigidas pela burocracia chinesa da época.
A revolta estudantil na França, que deixou marcas pelo mundo todo, modificando comportamentos sem alterar estruturas, é recuperada através de documentários realizados por grupos organizados e também por filmes oficiais, entre eles os que registram pronunciamentos do presidente, cuja renúncia é uma das exigências dos revoltosos. É perfeita a maneira como Salles coloca em cena a figura de De Gaulle, que surge como o pai exigindo ordem e disciplina. O conflito foi resolvido, como se sabe, depois de uma grande manifestação contrária a uma revolta cujo líder, Daniel Cohn-Bendit, é atualmente conselheiro informal do presidente Emmanuel Macron. A habilidade de Salles em utilizar material de arquivo permite que toda uma fase da história reapareça de forma intensa e dramática. É notável, também, a maneira como o realizador transforma um manifestante em atleta olímpico. No mesmo ano, no mês de agosto, a revolta na Checoslováquia não foi reprimida pela palavra de um pai ofendido por filhos rebeldes e sim por tanques de vários países, unidos para defender uma ordem ameaçada. No caso, uma ordem disposta a não permitir qualquer manifestação contrária. Salles, recorrendo a filmes realizados de forma secreta, acentua as diferenças entre países regidos por sistemas opostos. É quando ele introduz o tema do suicídio, representado pelo ato extremo de Jan Palach, em protesto pela ocupação soviética.
Ao contrário do que aconteceu na Europa, na China, onde crianças eram obrigadas a decorar os ensinamentos contidos no Livro Vermelho, a movimentação era comandada pelo sistema. Os integrantes da Guarda Vermelha, que humilhavam professores e intelectuais, obedeciam a ordens do chefe. O próprio cinema chinês, realizado depois, focalizou e criticou tal espetáculo, que foi concluído, como se sabe com a prisão da mulher do líder. Apontada como a comandante da gangue dos quatro, Jian Quing foi condenada à prisão perpétua e terminou cometendo suicídio. Observando e filmando as aparências, a mãe não percebeu a essência do que então acontecia. O objetivo oculto de tais rituais, que de certa forma iria resultar no massacre de 1989, quando estudantes foram vítimas de extrema violência, não é percebido. Tudo então se transforma em símbolo de uma derrota, algo que o filme sugere sem abordar diretamente. O relato poderia ser mais explícito, mas ainda assim o documentário é fascinante, principalmente por se afastar de fórmulas que já mostram, em outros exemplares, sinais de esgotamento.
 
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