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Porto Alegre, quinta-feira, 09 de novembro de 2017.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Crítica

Notícia da edição impressa de 10/11/2017. Alterada em 09/11 às 17h39min

Sangue sobre a neve

Hélio Nascimento
Depois de ter escrito roteiros para Dennis Villeneuve e David Mackenzie, os realizadores de Sicário e A qualquer custo, Taylor Sheridan assina a direção de Terra selvagem. Este não é o primeiro filme do diretor e roteirista, pois ele havia realizado em 2012 Ville, filme no qual não era o autor do argumento. Agora, neste Terra selvagem, acumula as duas funções. Um realizador não precisa ser o responsável pelo roteiro para obter o direito de ser considerado o autor de um filme. Há inúmeros exemplos que confirmam tal afirmação e só os que não veem o cinema como uma forma de expressão que tem na imagem sua essência pensam o contrário. Mas o fato de Sheridan trabalhar sobre um argumento próprio revela um realizador de personalidade e que merece atenção, pois o filme tem qualidades que o colocam bem acima da média.
O interesse por determinado tema é a revelação de uma personalidade e tem unificado a obra de grandes cineastas, mesmo que em sua extensão os roteiros tenham sido escritos por autores diferentes. No caso de Terra selvagem, o espectador é informado de que o filme a ser visto a seguir tem como base fatos verdadeiros. Uma outra informação, esta colocada depois que a narrativa é encerrada, fornece dados sobre o desaparecimento de pessoas. O argumento escrito por Sheridan tem, portanto, como ponto de partida uma observação sobre o real. De certa forma, o segundo filme do cineasta dá continuidade a seu trabalho como roteirista, que assim continua a focalizar a violência que tem tumultuado a vida contemporânea, sem que o relato seja contaminado pelas simplificações e pela linguagem panfletária.
A sequência de abertura, marcada por um realismo brutal, é uma espécie de resumo do que acontecerá a seguir. A agressividade parte do próprio indivíduo. É ele que para proteger seu rebanho age com violência, antes de fazer a descoberta que fará o passado interferir no presente. A união dos dois tempos é o ponto principal do filme. A dor que se renova faz o protagonista agir de forma a procurar agora uma solução para um drama não resolvido. O filme exemplifica com clareza como uma colocação em cena realista permite, quando manipulada com talento e imaginação, uma volta ao passado, sem que a realidade cênica seja alterada. A investigação policial não é apenas a busca por um culpado, sendo também a revelação das causas do crime.
Usando a técnica de aos poucos ir desenhando o retrato do protagonista, Sheridan termina por unir os dois tempos, dando assim ao personagem principal a oportunidade de corrigir erros e dar outro rumo à sua agressividade. No momento em que ele encontra os predadores é também aquele no qual a agente do FBI se depara e encontra os culpados, em outra cena de extrema violência, a lembrar certos momentos de Quentin Tarantino.
Em algumas cenas, o roteirista vence o diretor, com a ênfase nas palavras suplantando as imagens. No entanto, mesmo que algum desequilíbrio possa ser percebido, não há desarmonia, nessa constatação de que o núcleo familiar desfeito se encontra em processo de recuperação. O pai irá retirar do rosto a pintura bélica, mas a dor permanecerá, algo que a direção acentua através de uma encenação que evita um epílogo voltado para qualquer solução superficial. Termina prevalecendo o desejo de ultrapassar os limites que marcam o território no qual comandam a agressividade e a violência.
O cenário de gelo expressa visualmente a ausência de comunicação e a morte de qualquer forma de humanismo. O corpo congelado e marcado pela brutalidade na sequência inicial é um símbolo vigoroso da desumanidade que o filme procura flagrar, algo que consegue fazer com algumas imagens poderosas e com cenas impactantes, como aquela do tiroteio. O realizador de Terra selvagem já pode ser incluído entre os realizadores que têm procurado manter vivo um cinema ligado a um tempo e preocupado em colocar na tela os sinais mais reveladores das complexidades e dos dilemas colocados diante de observadores e protagonistas de um drama infindável e irredutível.
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