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Porto Alegre, segunda-feira, 06 de novembro de 2017.

Jornal do Comércio

Empresas & Negócios

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Notícia da edição impressa de 06/11/2017. Alterada em 06/11 às 14h22min

Editoras infantojuvenis se reinventam

PRESSFOTO - FREEPIK.COM/DIVULGAÇÃO/JC
Thiago Copetti
Fundamental para o futuro do mercado editorial, a formação de novos leitores no Brasil vem convalescendo em uma crise que, aparentemente, não tem data para terminar. Em 2014, quando o governo federal realizou sua última compra de livros de literatura infantil e juvenil pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), as empresas do setor colocaram 57,3 milhões de unidades em prateleiras de todo o Brasil, o que corresponde a 11,4% do total publicado no País. Um ano depois, o setor produziu menos da metade desse volume (23,8 milhões) e teve pequena recuperação em 2016 (26,8 milhões), de acordo com estudo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Mas, ao que tudo indica, encerrará 2017 com os mesmos baixos volumes do ano passado.
Criado em 2000, o PNBE se tornou referência para editoras especializadas no público infantojuvenil, chegando à aquisição de cerca de 40 milhões de livros por ano. Com esse estímulo, o número de livros voltados ao segmento superou inclusive o volume de obras de literatura para adultos, ao menos até 2014: foram 57,3 milhões de obras destinadas a crianças e adolescentes ante 48,5 milhões para adultos. Em 2016, os volumes se inverteram: 26,8 milhões (infantojuvenil) ante 31,6 milhões (adultos).
O resultado? Fechamento de portas, demissões, diminuição de publicações e enxugamento de empresas que haviam se especializado no segmento, como a Editora Projeto, de Porto Alegre, que reduziu o quadro de funcionários em cerca de 80% e diminuiu o número de livros impressos de até 400 mil por ano para entre 40 mil e 50 mil unidades. "Sempre tivemos um vínculo forte com o PNBE. Demais, até. Mas, durante muitos anos, era um segmento que precisava ser atendido. Tínhamos uma dependência mais alta do que o recomendado nas compras governamentais e fomos bastante atingidos", analisa Anette Baldi, umas das proprietárias da editora.
Sem previsão de novos editais para compras por parte do Ministério da Educação, diz a empresária, a única perspectiva é de que livros de literatura infantil entrem como um braço do Programa Nacional do Livro Didático (PNDL). Por conta do fim do PNBE, desde agosto de 2016, a Projeto não fez mais lançamentos. Das vendas da editoria, diz Anette, 70% eram para o governo e 30% para o setor privado. "Estamos nos reinventado, publicando e reimprimindo o que temos em catálogo. Agora, atendemos mais a escolas privadas e prefeituras, por exemplo. O volume de compras vem mesmo é das escolas. A compra espontânea, do leitor individual, é difícil e pequena", ressalta Anette.
Retomar os negócios com menos funcionários exigiu da empresária novas estratégias e atitudes, que, pouco a pouco, começam a trazer resultados. Anette conta que voltou a viajar pelo Estado visitando escolas e se direcionou novamente à área comercial. A editora também passou a oferecer cursos, oficinas e atendimento customizado a instituições privadas, participa de mais feiras alternativas e menores, eventos de leitura e venda por site.
Mariana Bueno, responsável pelos estudos da Fipe sobre o mercado editorial, explica que, apesar dessa conjuntura desfavorável, o número de editoras no mercado vem se mantendo dentro de uma constância, entre 730 e 750 empresas no País. De acordo com a economista, em números absolutos, o fechamento de editoras tem sido compensado pelo surgimento de novas empresas, mas de menor porte. "O que percebemos é que aumentou a proporção de editoras com faturamento menor, de até R$ 18 milhões, e reduziu aquelas que estão no topo da classificação por receita superior aos R$ 300 milhões", explica Mariana.
Presidente da Câmara Rio-grandense do Livro (CRL), Marco Cena ressalta que o fim das compras do governo federal abateu diferentes editoras no Estado e tem efeitos diretos no setor, que lida com um equilíbrio financeiro bem diferente do segmento adulto. "Esse apoio do poder público é fundamental para manter o mercado do livro infantil e juvenil, que tem um custo muito maior do que o livro adulto tradicional, porque envolve mais profissionais (o escritor e o ilustrador) e tem uma impressão mais cara, colorida", explica Cena.
Sem essa "venda certa", diz o presidente da CRL, muitas editoras não têm mais como manter esse tipo de investimento, fazendo minguar lançamentos, reduzir a presença de bons produtos nas livrarias e enxugar o mercado de trabalho. "Apenas a venda em livrarias, que pouco espaço têm para o segmento, não sustenta o setor, mesmo em um estado como o Rio Grande do Sul, que conta com o maior número de feiras de livro do Brasil. A compra governamental é para abastecer as escolas, mas também permitir que as editoras trabalhem com preços menores ao público em geral", argumenta Cena.

Impacto é direto no mercado de trabalho de autores e ilustradores

Eliandro Rocha, autor

Eliandro Rocha, autor


/Arquivo Pessoal/Divulgação/JC
Com o fechamentos de editoras e a redução nos lançamentos em todo o Brasil, o mercado de trabalho editorial voltado aos leitores infantis e juvenis, claro, não foi poupado. Quem não fechou, reduziu o número de lançamentos, alguns de uma centena para duas dezenas, em alguns casos, de acordo com o presidente da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil (Aeilij), Alexandre de Castro Gomes.
"Isso retirou muito do mercado de trabalho de escritores e ilustradores. Se antes era possível, apesar de difícil, viver de direitos autorais, com o fim das compras feitas pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), ficou praticamente impossível", lamenta Gomes. O escritor avalia, ainda, que as compras governamentais abriram "até demais" o mercado, o que levou muita gente a começar um negócio na área. "Com o fim do programa, ficou apenas quem se dedica muito e tem realmente afinidade com o segmento", afirma Gomes.
Outro efeito que preocupa, diz o presidente da Aeilji, é a redução do volume de livros nas bibliotecas, já que a reposição se faz necessária com mais frequência, uma vez que as obras são manuseadas por várias crianças e tendem a se desgastar rapidamente. "Por isso, o fim do PNBE afetou diferentes setores e atividades", reforça Gomes.
O fim do programa, de certa forma, vinha se anunciando com verbas reduzidas ao longo dos anos. "A consequência foi a extinção de um trabalho desenvolvido em toda a cadeia da leitura, que engloba editoras, bibliotecas, leitores, editoras, escritores, ilustradores", critica Rosana Rios, escritora que, com 160 livros já publicados, se tornou uma referência no mercado infantojuvenil.
O caminho das compras governamentais, considerado pelo setor como fundamental para democratização da leitura e formação de leitores, diz Rosana, não será feito nem pela venda em livrarias, nem pelo livro digital. E, para piorar o cenário, a escritora paulista, que é presença constante na Feira do Livro de Porto Alegre, aponta outra ameaça ao setor. "Há uma invasão de livros-brinquedo e de reproduções malfeitas de contos clássicos vinda da China, que sequer tem autoria e conta com imagens que nem podem ser chamadas de ilustrações. Em alguns eventos, é praticamente só o que se vê", critica Rosana.
A crítica de Rosana encontra eco nas ponderações do escritor Eliandro Rocha, proprietário da distribuidora Ama Livros, que tem levado o tema para debates em eventos pelo Estado. "Para mim, isso é até mais danoso do que o fim do PNBE", diz o empresário. Rocha, que também é autor de obras infantis, é um dos representantes gaúchos da melhor parcela do mercado editorial voltado aos novos leitores: a qualidade que abre mercados internacionais. Neste ano, dois de seus livros vão cruzar oceanos e serão publicados na China e na Ilha de Malta.
 

Câmara Brasileira do Livro espera por leve retomada governamental

O foco didático da literatura infantil e juvenil é um dos argumentos e esperanças do presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Luís Antônio Torelli, para a volta das compras feitas pela União. "A educação não se faz apenas com livro didáticos, mas com literatura também, que amplia a capacidade de interpretação e entendimento do texto, seja por estudantes, seja por profissionais. A literatura presente desde cedo aumenta o rendimento escolar e o desenvolvimento do País", destaca Torelli.
O presidente da CBL ressalta, ainda, que é o livro infantil que pode elevar o baixo número de leitores no Brasil. É com a literatura infantil e juvenil, explica Torelli, que se conseguirá novos leitores adultos. "Ninguém começa a ser leitor com uma obra de Machado de Assis", argumenta Torelli.
De acordo com o Ministério da Educação (MEC), a atual gestão reativou o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), interrompido em 2014, ainda no governo de Dilma Rousseff, mas incorporado ao recém-lançado Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), criado com o Decreto nº 9.099, de 18 de julho de 2017. O volume atual, porém, é consideravelmente inferior ao adquirido anualmente ao longo da última década.
O MEC afirma, ainda, que o governo federal fez aquisição de obras literárias às escolas por meio do Programa Nacional Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), no segundo semestre de 2016, com distribuição, em 2017, de aproximadamente 19,9 milhões de obras. O MEC destaca, ainda, que o primeiro edital com as regras do novo decreto para obras didáticas foi lançado neste ano, e o novo edital para aquisição das obras literárias está em elaboração, com previsão para 2018.
"Na última grande compra, em 2013, foram 39 milhões de livros distribuídos em bibliotecas pelo País, dentro do PNBE, que, desde 2000, adquiriu 230 milhões de livros", destaca Torelli, exemplificando a importância histórica da iniciativa. Para o presidente da CBL, há poucas esperanças de ter um horizonte da valorização da literatura nas escolas.
Uma delas é o projeto de lei aprovado ainda na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que prevê que, até 2020, todos os municípios devem ter ao menos uma biblioteca. "Mas sou pessimista quanto ao futuro, apesar de termos um projeto da senadora Fátima Bezerra (PT-RN) para criar um plano nacional do livro e da literatura como projeto de Estado, e não de governo, para que sucessivas trocas de presidente e de ministros não sejam motivo de retrocessos", ressalta Torelli.

Espaço nobre, mas menor, na Feira do Livro

O cenário de crise não poupou a área infantil da Feira do Livro de Porto Alegre, iniciada no dia 1 de novembro. O espaço, que chegou a contar com 14 estandes em 2014 e avançou para 15 em 2015, retrocedeu para 13 neste ano.
A área infantil e juvenil, no entanto, segue um dos pontos nobres e mais movimentados do evento, reunindo o Teatro Carlos Urbim, a Tenda de Pasárgada (com encontros de autores e estudantes, entre outras atividades), o QG dos Pitocos e a Bebeteca (com atividades para crianças de até seis anos), por exemplo. O objetivo central da programação, segundo a coordenadora da área, Sônia Zanchetta, é a formação de leitores e de mediadores da leitura.
"Além dos encontros do ciclo O Autor no Palco, de espetáculos teatrais, contação de histórias, seminários e oficinas para educadores, serão dezenas de sessões de autógrafos de livros produzidos com textos de alunos, assim como relatos de experiências realizadas nas áreas da leitura e da escrita na escola e na comunidade", resume Sônia.
O somatório das atividades que serão realizadas no local dá a dimensão da abrangência e relevância do setor: são mais de 520 atividades em 19 dias. Paralelamente aos eventos na Praça da Alfândega, outro bom retrato do dinamismo é a programação simultânea, que envolve 131 encontros em escolas municipais de Porto Alegre pelo Programa Adote um Escritor (em parceria com a Secretaria de Educação de Porto Alegre).
Haverá, ainda, programação em 52 escolas estaduais da Região Metropolitana pelo Programa Lendo pra Valer (com a Secretaria de Estado da Educação) e em seis unidades da Fundação de Atendimento Socioeducativo com adolescentes que se encontram cumprindo medidas socioeducativas.

Foco no mercado privado minimiza crise

Cassol comemora resultados com a aposta em projetos integrados e em escolas privadas

Cassol comemora resultados com a aposta em projetos integrados e em escolas privadas


/MARCELO G. RIBEIRO/JC
A opção por trabalhar com projetos integrados de literatura e foco nas escolas privadas permitiu à Editora Cassol, de Porto Alegre, escapar imune aos cortes federais no setor. "Praticamente nunca fizemos livro para vender ao governo, pois nosso foco sempre foram escolas particulares e projetos integrados de leitura, contação de histórias, contato com o escritor e feiras de livros. Ou seja, miramos no mercado privado", relata o diretor e sócio-proprietário da editora, Gilmar Cassol.
Na conta da Cassol, diz o empresário, os recursos federais pingaram apenas uma vez, em 2010, com a venda de 90 mil livros para o Ministério da Educação. É fato que não vender "livros'", mas projetos, tem garantido o faturamento da editora sem grandes sobressaltos, e até com crescimento.
Criada em 2003, depois que Léia, esposa de Cassol encontrou dificuldades em publicar o primeiro livro, a editora, hoje, emprega diretamente cerca de 10 pessoas e, indiretamente, envolve cerca de 20 profissionais na confecção de histórias, ilustrações e projetos. "Atualmente, além da Léia, publicamos cerca de 12 autores. Em 2016, lançamos oito novos títulos, cada um com tiragem entre mil e 5 mil unidades", comemora Cassol.
O impacto nas vendas da empresa ocorre apenas no volume de vendas, retraído pela instabilidade econômica do País como um todo, e das escolas privadas. O empresário explica que, há poucos anos, cada turma de estudantes adquiria entre 24 e 30 livros. Hoje, calcula Cassol, gira em torno de 18 a 20 unidades por sala, em alguns casos. "Isso, claro, exige uma certa adaptação nos projetos e vendas", pondera o empresário.
 

Adote um Escritor tem verba reduzida na Capital

Elogiado e reconhecido Brasil afora, o programa Adote um Escritor, promovido pela Prefeitura de Porto Alegre em parceria com a Câmara Rio-Grandense do Livro, completa 16 anos em 2017, levando livros e autores para dentro das escolas, é outro motivo de preocupação no mercado livreiro gaúcho voltado ao público infantojuvenil. O programa, que consiste em preparar alunos e professores durante um ano inteiro para trabalhar um autor específico, com verba para a compra de livros e visita do escritor à escola, culminando com encontros em feiras do livro, teve cerca de 75% de seus recursos suspensos neste ano.
O Adote chegou a receber da prefeitura cerca de R$ 1 milhão para aquisição de obras, melhorias em bibliotecas, transporte de estudantes até a Feira do Livro e pagamento de escritores. Em 2017, porém, a prefeitura limitou os recursos a próximo de R$ 220 mil. "Isso precisou ser feito por absoluta falta de recursos e da crise econômica que vive o município", diz o secretário de Educação da Capital, Adriano Naves de Brito.
O argumento de Brito, de que a essência do programa - a presença de autores nas escolas - foi mantida apesar da falta de recursos é rebatida por Christian David, presidente da Associação Gaúcha de Escritores (AGE), entidade que se mobiliza pela manutenção plena do programa. "Não foram poucos os professores que eu vi chorar pelo fim do Adote. A prefeitura diz que mantém o programa, mas quer fazê-lo sem dinheiro. É um proposta bizarra", critica David.
Responsável pela área infantil e juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre, Sonia Zanchetta diz que a redução drástica da verba alocada para a aquisição de livros dos autores selecionados para participar do Adote um Escritor gerou grande preocupação entre as escolas, os autores e os editores quanto ao futuro do programa. "As editoras de literatura infantil e juvenil gaúchas, assim como a de outros estados, têm sido gravemente impactadas pelas suspensão das compras do Programa Nacional de Biblioteca da Escola, assim como de iniciativas similares de vários estados", lamenta Sônia.
 
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