Comentar

Seu comentário está sujeito a moderação. Não serão aceitos comentários com ofensas pessoais, bem como usar o espaço para divulgar produtos, sites e serviços. Para sua segurança serão bloqueados comentários com números de telefone e e-mail.

500 caracteres restantes
Corrigir

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Porto Alegre, domingo, 17 de setembro de 2017. Atualizado às 14h18.

Jornal do Comércio

Política

COMENTAR | CORRIGIR

comunicação

Notícia da edição impressa de 14/09/2017. Alterada em 14/09 às 12h32min

Intolerância não é uma forma de expressão, diz Sakamoto

Jornalista ministra palestra hoje, na Unisinos, sobre tolerância nas redes

Jornalista ministra palestra hoje, na Unisinos, sobre tolerância nas redes


/PEDRO FRANÇA/AGÊNCIA SENADO/JC
Bruna Suptitz
A liberdade de expressão não pode aniquilar a dignidade do outro, do contrário, se transforma em discurso de ódio. A avaliação é do jornalista e doutor em Ciência Política Leonardo Sakamoto, que hoje à noite ministra palestra na Unisinos, em São Leopoldo, sobre tolerância na internet. "A intolerância não surge nas redes. O ódio sempre existiu e é organizado de forma mais rápida via internet", avalia.
O recente fechamento da exposição Queermuseu no domingo, resultado de manifestações contrárias ao teor de algumas obras de arte que estavam expostas desde agosto no Santander Cultural, em Porto Alegre, representa "uma sucessão de equívocos". "Contrapõe-se uma voz com outra voz", defende Sakamoto.
Admitindo a dificuldade de se reconhecer e combater o discurso de ódio, a defesa do jornalista é não silenciar. Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, ele fala sobre o livro "O que aprendi sendo xingado na internet", em que defende a qualificação do debate público, contrapondo discursos de ódio "apresentando os motivos, e de forma educada".
Jornal do Comércio - Como diferenciar liberdade de expressão e liberdade de opinião?
Leonardo Sakamoto - Quando o discurso visa à aniquilação e à destruição do adversário, da sua dignidade, da sua voz, deixou de simplesmente proferir opinião e passou a proferir ódio. Isso é de uma maneira geral. Cada caso deve ser interpretado à sua luz e no seu contexto. Quando é que termina o meu direito à liberdade de expressão? Não é apenas quando começa o direito do semelhante, mas quando começam outros direitos. Por exemplo, o meu direito à liberdade de expressão não pode aniquilar o direito à moradia, à identidade, à liberdade, à dignidade do semelhante. Nenhum direito é absoluto. Vivemos um momento em que as pessoas confundem o seu direito de expor opiniões com o direito de aniquilar a outra pessoa. O mais interessante de tudo isso é que as pessoas clamam o direito à intolerância, como se fosse uma forma de expressão. Isso é bastante equivocado.
JC - A intolerância saiu das redes e está nas ruas?
Sakamoto - A intolerância não surge nas redes. O ódio sempre existiu, e é organizado de forma mais rápida, simples, encurtando espaços, distâncias e tempos via internet. O Brasil é uma democracia em construção. Desde a redemocratização, a rua "pertenceu" aos anseios da esquerda. O movimento de junho de 2013 é um chamamento à rua para todo mundo. Acontece que vão mais pessoas para a rua, o que aumenta a incidência de debates, que acabam se transformando, muitas vezes, em clivagens.
JC - Tivemos, recentemente, o fechamento de uma exposição artística...
Sakamoto - O caso que aconteceu no Rio Grande do Sul, extremamente preocupante, é uma sucessão de equívocos. As pessoas têm direito a protestar contra uma exposição? Sim. Impedindo outras pessoas de verem a exposição? Não. Entre todas as obras de arte reunidas, não há nenhuma que fomente discurso de ódio e violência. O que se pode, sim, é questionar o gosto, a mensagem, muitas coisas. O lado insatisfeito poderia ter tentado promover uma discussão pública a respeito dessas obras, e não fechar a exposição. Contrapõe-se uma voz com outra voz, e não com o silêncio. A isso, damos o nome de democracia. À negação disso, damos o nome de ditadura. Também houve erro do patrocinador da exposição. Os bancos, como grandes representantes do liberalismo, deveriam agir como liberais não apenas economicamente. Isso prova que vivemos um capitalismo de brincadeira. É uma disruptura total entre ação e discurso do banco, que quer liberdade para o dinheiro, e não para as pessoas.
JC - Como o senhor usa sua experiência em situações de manifestação de ódio?
Sakamoto - Não se ataca ódio com mais ódio. Para muitas pessoas, verdade é tudo aquilo com o que ela concorda e mentira é tudo aquilo com o que ela discorda. Não para para pensar que, às vezes, situações no seu campo de esquerda ou de direita são ações de ódio. Se o debate público fosse mais qualificado, as pessoas se sentiriam motivadas a se informarem melhor. Se, em uma mesa de bar, um amigo faz piada racista, machista, homofóbica e ninguém fala nada, ele se sente empoderado. A mesma coisa acontece nas redes sociais. As pessoas estão coletivamente endossando aquele comportamento. Se fosse criticado, fariam menos isso. Então temos que, coletivamente, na mesa de bar, no escritório ou na amplidão da sociedade, não fazer silêncio. Não é devolver na mesma moeda e de forma violenta, mas exatamente não aceitando, apresentando os motivos, e de forma educada. Não tem importância se o outro não age de forma educada, não se pode agir com violência para questionar a violência, se não a forma acaba suplantando o conteúdo.
COMENTAR | CORRIGIR
Comentários
Nario Fagundes 17/09/2017 06h51min
Tenho acompanhado diversas manifestações e comentários a respeito do assunto. Resumindo essa exposição estava em um local fechado, deveria ter indicação de idade mínima, e esclarecer ao público o que estaria exposto. E vai quem quer.. acho que o boicote também é valido de quem não concorda. A decisão de encerrar foi do Santander Cultural por pressão. Falta é respeito a opiniões seja de A e B. O importante é ter liberdade de opinião certo ou errado depende de quem interpreta.
Luciano Loposzinski 14/09/2017 09h39min
Suas considerações são muito coerentes. É um alívio perante tanta intolerância demonstrada nas redes sociais. Precisamos evoluir - o caminho é longo - e acredito que o debate civilizado é fundamental nesse processo. Incitar a pesquisa, o conhecimento e a avaliação das informações é um ótimo começo. Sempre de forma gentil, assertiva e educada. A pena é mais forte que a espada, ainda.