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Porto Alegre, domingo, 10 de setembro de 2017. Atualizado às 18h59.

Jornal do Comércio

Empresas & Negócios

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conjuntura

Notícia da edição impressa de 11/09/2017. Alterada em 08/09 às 18h40min

Brasil na lanterna do crescimento

STOCKPHOTO/DIVULGAÇÃO/JC
O Brasil descolou do resto do mundo no crescimento da economia. Após a crise global de 2008, a maior desde a Grande Depressão de 1930, os países ao redor do mundo já escaparam da recessão e mostram resultados positivos, enquanto o Brasil engatinha numa recuperação ainda incerta. Segundo projeções de Alessandra Ribeiro, sócia e economista da Tendências Consultoria, o Brasil ainda estará andando atrás do mundo no quesito crescimento econômico na próxima década. "No nosso cenário, olhando para os próximos 10 anos, o País crescerá em média 2,6%, enquanto o mundo deve ter expansão média de 3,2% no mesmo período", projeta a economista.
Mas o que nos jogou na lanterna do crescimento? Entre mais de 40 países, o Brasil ocupou a penúltima posição no desempenho do segundo trimestre deste ano, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A alta de 0,3% frente a abril e junho de 2016, a primeira nesse tipo de comparação depois de três anos, só foi maior que o desempenho da Noruega, que sofreu com as oscilações do preço do barril do petróleo, item forte na sua economia.
Na avaliação da economista Monica de Bolle, professora da Escola de Estudos Avançados da Universidade Jonh Hopkins e pesquisadora sênior do Peterson Institute for International, tudo começou a dar errado para o Brasil em 2011. Entre 2004 e 2011, crescíamos em média 4,4%, enquanto o mundo, 4,25%. "Começamos a descolar do mundo quando o ciclo das commodities virou, e os preços começaram a cair. Coincide com o primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff. Isso levou a que vários preceitos de política econômica fossem alterados no Brasil. Usou-se crédito público para irrigar a economia, houve afrouxamento na questão fiscal para manter o crescimento. No fim, deu tudo errado. Foram nossas escolhas que nos puseram nessa situação de hoje."
O efeito foi sentido logo a seguir. Entre 2012 e 2016, enquanto o mundo crescia em média 3,4%, a economia brasileira recuava 0,4% ao ano. Alessandra lembra que a política econômica adotada para fazer frente ao freio no boom das commodities incentivava a demanda. "Entendia-se que o País não crescia por falta de demanda. Então vamos inflar a demanda, reduzindo impostos, dando subsídios, depreciando o câmbio para exportar mais. Mas não tínhamos capacidade para atender a essa demanda, e os preços subiram. Quem não lembra da inflação dos serviços, que bateu mais de 12%. Restaurante no Rio era mais caro que em Nova Iorque. Tinha alguma coisa errada, claro."
Reflexo disso começou a bater nas nossas contas com o resto do mundo: o déficit em transações correntes chegou a 4% do PIB. Precisava-se importar muito para atender ao consumo em alta. Monica afirma que outros países vizinhos também sofreram com o baque do fim do ciclo de alta, mas mantiveram as políticas macroeconômicas, sem ameaçar as contas públicas. Perderam em crescimento, mas não amargaram dois anos seguidos de recessão, que fez a economia brasileira recuar quase 8%, deixando mais de 13 milhões de desempregados atualmente.
"Chile, México, Peru e Colômbia enfrentaram a reversão do ciclo das commodities de forma mais ordenada. Quando se esgotou aquele cenário externo muito benéfico, se readequaram. Mantiveram a política macro, ninguém fez maluquice no lado fiscal, elevando o déficit nas contas públicas e aumentando a dívida." Atualmente, esses países têm mostrado crescimento bem superior ao do Brasil. O Chile cresceu 0,9% no segundo trimestre, contra 0,3% do Brasil; e vem nessa trajetória de alta pelo menos desde o início de 2016, de acordo com levantamento feito pelo economista Alex Agostini, da Austin Rating. Naquela época, em 2016, o PIB brasileiro se retraíra 5,4%, enquanto o Chile crescera 2%.
Até o México, que vem enfrentando a ameaça do fim do Nafta, acordo de livre comércio com Estados Unidos e Canadá, feita repetidas vezes pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, exibe taxas mais robustas que o Brasil, cresceu 1,8% no segundo trimestre. Os Estados Unidos, o berço da crise global de 2008, já mostra avanços mais fortes que o Brasil, cresceram 2,2% de abril a junho.
As distorções na economia atacaram dois pontos. A inflação subiu pela demanda forte, e as desonerações para sustentar o consumo afetaram a situação fiscal, a ponto de sairmos de superávit primário (receita menos despesas antes do pagamento de juros) para déficit de 2,66% do PIB neste ano.

Consumo das famílias reage

Setor de serviços cresceu 0,6% na comparação com o primeiro trimestre

Setor de serviços cresceu 0,6% na comparação com o primeiro trimestre


ELZA FIÚZA/ELZA FIUZA/DIVULGAÇÃO/JC
O dinheiro extra do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), a inflação mais baixa e os juros menores aumentaram o poder de compra do brasileiro no segundo trimestre e ajudaram a tirar o País da recessão mais duradoura e intensa pela qual já havia passado. Após nove trimestres em queda, o consumo das famílias registrou alta de 1,4% na comparação com os três meses anteriores, surpreendeu analistas e foi o principal fator por trás do crescimento de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB) no período. O resultado - a segunda expansão consecutiva da economia brasileira - permitiu que, pela primeira vez em mais de dois anos, especialistas dissessem que o pior da crise ficou finalmente para trás.
No primeiro trimestre, o PIB havia crescido 1%, a primeira alta após uma sequência de oito trimestres negativos. O número, no entanto, foi visto com muita cautela e não empolgou, por ter sido resultado de um desempenho extraordinário da agropecuária, que representa pouco mais que 5% da economia brasileira. Agora, o cenário é diferente. O consumo das famílias tem peso de 64% do PIB, quando consideradas as componentes do lado da despesa. E, quando cresce, ajuda a impulsionar o setor mais importante do País, o de serviços, que responde por 73,3% da economia, pelo lado da produção.
E foi exatamente isso que aconteceu no segundo trimestre. Embalado pelo consumo em alta, o setor de serviços cresceu 0,6% na comparação com o primeiro trimestre. Foi a maior alta desde o terceiro trimestre de 2013. Na comparação com o segundo trimestre do ano passado, o dado ainda é negativo, queda de 0,3%, porém menos intensa que nas divulgações anteriores. Nesse tipo de cálculo, o consumo das famílias também avanço, 0,7%. "Quando consumo e serviços começam a se recuperar, é muito mais consistente do que a gente tinha no primeiro trimestre", afirma Luis Otavio Leal, economista-chefe do banco ABC Brasil.
Só o dinheiro das contas inativas injetaram cerca de R$ 40 bilhões na economia nos últimos meses. Embora parte desse dinheiro tenha sido destinado ao pagamento de dívidas e à formação de poupança, uma parcela significativa também foi gasta no comércio. O segmento, que faz parte do setor de serviços pela metodologia do PIB, cresceu 1,9% no segundo trimestre, em relação ao primeiro - a maior alta desde 2014.
Ao efeito FGTS, se somou a inflação mais baixa, que ficou em 3,6%, na média do período. Com o índice de preços mais controlado, o dinheiro no bolso de quem conseguiu manter o emprego ficou mais valioso: a massa salarial registrou alta real de 2,3%. Contou ainda a queda da taxa Selic, que baliza os juros da economia, de 14,1% ao ano em 2016 para 10,9% ao ano no segundo trimestre de 2017.
"De abril a junho, houve mais abertura de postos de trabalho, o que não acontecia desde 2014. Isso talvez seja o fator mais importante para explicar essa reação do comércio. Houve melhoria do mercado de trabalho, tanto do ponto de vista do emprego, como da renda. O crédito ficou mais barato. Tivemos também o fator FGTS, o que ajudou o comércio. E, por último, a inflação baixa. Eletrodomésticos e bens de consumo duráveis, por exemplo, estão acumulando deflação",  resume Fabio Bentes, economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC).
A análise de que o saque das contas inativas do FGTS - encerrado em julho - foi importante para o resultado do segundo trimestre levantou a questão sobre a possibilidade de o consumo manter o ritmo de crescimento nos próximos meses. Artur Passos, economista do Itaú Unibanco, avalia que há fôlego para continuar crescendo, mesmo sem o dinheiro extra circulando, embora os próximos resultados tendam a ser menos intensos. "O consumo cresceu com a melhora dos fundamentos da economia. O mercado de trabalho reagiu antes do que se esperava. Não foi uma coisa pontual por causa do FGTS."

Indústria volta ao patamar de 2009

Setor industrial ainda causa preocupação quanto aos resultados

Setor industrial ainda causa preocupação quanto aos resultados


/CLAITON DORNELLES/JC
O resultado positivo do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre, de crescimento de 0,2% ante o trimestre anterior, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sinalizou que a recessão brasileira caminha para o fim. Mas a indústria ainda causa preocupação. Os números mostram que o PIB industrial registrado entre abril e junho está no mesmo patamar do terceiro trimestre de 2009.
O desempenho negativo da construção civil foi o principal fator a derrubar os resultados da indústria no PIB. No segundo trimestre, o setor industrial recuou 0,5% em relação aos primeiros três meses do ano. Na comparação com o mesmo período do ano anterior, a retração foi de 2,1%. A construção responde por cerca de um quarto da indústria.
"Se olharmos neste instante, os sinais de recuperação da construção civil ainda são mínimos. Há uma perspectiva de retomada a partir do ano que vem, com uma Selic na casa dos 7%, que colocaria o mercado imobiliário em outra realidade", diz José Carlos Martins, da Câmara Brasileira da Indústria de Construção (Cbic). "O que o nosso setor sente é que ainda é preciso atravessar um rio, seja de que jeito for, para chegar vivo ao outro lado. Ninguém espera resultados espetaculares, a gente só espera chegar vivo."
Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, avalia que, apesar de os resultados da indústria ainda serem preocupantes, há mais sinais de recuperação do que nunca. "Já é possível perceber uma reação no segmento de máquinas e equipamentos, por exemplo. A construção, de fato, demora mais tempo para sair do vermelho, mas ela vai reagir assim que o ambiente econômico estiver mais claro."
"Para o terceiro e quatro trimestres, há também perspectivas positivas para o segmento de automóveis", diz Vale. Em agosto, o emplacamento de veículos teve alta de 14,76%, segundo a Fenabrave, que representa concessionárias.
Segmentos da indústria de transformação reclamam, porém, que a taxa de câmbio não tem favorecido uma retomada mais robusta do setor. "Há muito tempo, as projeções mostram que o dólar deveria estar um patamar superior, com o real mais fraco, e isso não tem acontecido. Temos um aumento grande nos nossos custos, seja de energia, seja de insumo de um modo geral, e o real continua fortalecido", diz Ricardo Neves de Oliveira, diretor executivo do Sinproquim (Sindicato das Indústrias de Produtos Químicos para Fins Industriais e da Petroquímica). Na indústria química, que detém a quarta maior fatia da indústria de transformação, o crescimento previsto para este ano é de, no máximo, 0,5%.
Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, lembra que a grande capacidade ociosa que ainda ronda a indústria e posterga investimentos ajuda a entender a queda nos investimentos no segundo trimestre, que voltaram ao mesmo patamar do segundo trimestre de 2009. "A construção civil também não tem ajudado e não deve vir particularmente forte nos próximos trimestres. Para além da economia, um outro fator que atrapalha a volta dos investimentos é a baita incerteza política, a gente não sabe quem vai ser eleito no ano que vem, e a escolha vai ser decisiva para os rumos do ajuste fiscal", diz.
"Quando nos damos conta de que, de todos os componentes do PIB no segundo trimestre, o único com resultado expressivo é o consumo das famílias, não dá para fechar os olhos. Ainda faltam componentes dinâmicos para continuarmos crescendo", diz André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos. No campo positivo, o consumo das famílias até ajudou a embalar o PIB do segundo trimestre, mas o resultado do ainda ficou distante do pico da série do IBGE, registrado no último trimestre de 2014, data da reeleição da ex-presidente Dilma Rousseff e antes do agravamento da crise.
As exportações também atingiram números expressivos no segundo trimestre, principalmente por conta de petróleo, soja e minério. "O segundo semestre deve manter o ritmo de mais exportações do que importações, até pelo reflexo da baixa demanda interna", analisa José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).
 
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