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Porto Alegre, quinta-feira, 10 de agosto de 2017. Atualizado às 22h58.

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

TEATRO

Notícia da edição impressa de 11/08/2017. Alterada em 10/08 às 17h21min

Nelson Rodrigues revelado por Jorge Farjalla

Doroteia é uma peça escrita por Nelson Rodrigues em 1949, portanto pouco depois do escândalo provocado pela estreia de Álbum de família, texto que seria responsável pelo resto da vida do dramaturgo Nelson Rodrigues, de perseguições e más interpretações. Mas o escritor não se deixaria controlar. Doroteia, por exemplo, é uma "farsa irresponsável em três atos". O enredo se prende a um núcleo de quatro mulheres, três das quais mais velhas, que, em suas noites de núpcias, sentiram "a náusea" (brincadeira de Nelson Rodrigues com o texto de Jean-Paul Sartre? O romance do escritor existencialista francês é de 1938) e se tornaram estéreis. Para elas, o homem é um ser invisível. Encontram-se à espera da noite de núpcias da mais nova. É quando chega uma visitante inesperada, Doroteia, que se diz parente, que as mulheres pensam já ter morrido, mas que depois descobrem ser uma "outra Doroteia", aquela que "se perdeu". Doroteia suplica ser recebida na casa. Conta que perdeu seu filho e sente-se arrependida da vida pregressa. Enfim, admitida, é levada a manter relações com Nepomuceno, um homem portador de chagas, as quais deverão ser transmitidas a jovem, para que ela deixe de ser bonita.
O texto de Nelson Rodrigues não é dos mais montados no teatro brasileiro, mas a versão do diretor Jorge Farjalla é verdadeiramente reveladora, transformando-se numa tragédia naquilo que tem de arquetípico - Farjalla é mineiro de Uberaba, onde estudou teatro. Nelson Rodrigues é de seus dramaturgos preferidos. No caso de Doroteia, ele fez opções ousadas e inovadoras que ajudam a uma releitura da obra, começando pelo extraordinário cenário de José Dias, uma floresta aérea centenária, que avança sobre a plateia, em cuja clareira ocorre a cena, graças a um tablado levantado no palco, onde também pode se sentar o espectador.
Assim, todo o espetáculo torna-se uma espécie de experiência voyeurista de proximidade: não vemos apenas os aspectos físicos das personagens, mas também suas almas que se revelam gradualmente nas palavras e nos gestos (os que realizam e os que se tornam impossível realizar). A trilha sonora de João Paulo Mendonça, interpretada ao vivo, por músicos que saem dos grossos troncos das árvores e que lembras às vezes os cenários de Alice no país das maravilhas, com seu misto de fantasia e de horror é inusitada, com forte influência de ritmos latino-americanos vinculados à tradição do continente e aos romances amorosos mal-acabados, chega ao ápice com a passagem da Missa Crioula de Ariel Ramirez, num dos momentos mais incríveis do espetáculo. Também a iluminação de Patrícia Ferraz, do próprio diretor e do cenógrafo auxiliam fortemente na criação do clima narrativo, inclusive ajudando a superar passagens do diálogo que, na época, poderiam soar a sério, mas que hoje provocam risos e deboches do público, situação só suplantada justamente pelo ritmo narrativo que é sustentado por todos os demais elementos cênicos.
No elenco, Rosamaria Murtinho, 60 anos de teatro, e quem escolheu o texto, e o diretor, vive Dona Flávia, a castradora. Letícia Spiller encarna a filha pródiga Doroteia; Dida Camero é uma esfuziante Dona Assunta da Abadia. O elenco se complementa com Ana Machado, que vive Das Dores, a defunta noiva que não sabe ter morrido; Jaqueline Farias como Carmelita, e Alexia Dechamps, que vive Maura, num conjunto equilibrado e eficiente. Rosamaria Murtinho evidencia força e poder; Leticia Spiller poderia, talvez, ser mais ambígua, mas tem garra; as demais mulheres do elenco fazem sua parte, com destaque para Ana Machado, pelas passagens em que contracena com o noivo, que deveria ser invisível, mas não o é.
A peça de Nelson Rodrigues é uma provocação. A teoria freudiana de que a civilização é frustrante porque recalca os instintos humanos, é, aqui, mais uma vez evidenciada. Doroteia quer "ser boa", mas intimamente sente-se atraída pela sexualidade. Só um fato advindo do exterior - as chagas - podem afastá-la deste "mal" que, para ela, é um bem. Nelson sempre inverte os papéis para evidenciar suas teses. Nem sempre os diretores o entendem. Neste caso, Jorge Farjalla soube lê-lo com perfeição e por isso seu espetáculo é revelador e admirável, coisa de se ver bem mais que uma só vez.
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