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Porto Alegre, sexta-feira, 11 de agosto de 2017. Atualizado às 12h22.

Jornal do Comércio

Colunas

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Jaime Cimenti

Livros

Notícia da edição impressa de 11/08/2017. Alterada em 10/08 às 14h32min

Brasil recente e futuro

Para entender o que aconteceu e acontecerá no Brasil, depois da sessão da Câmara que barrou o processo por corrupção contra o presidente Michel Temer no STF, é fundamental examinar o período de crise que acabou com o governo Dilma Rousseff.
É a proposta do livro A verdade é teimosa (Intrínseca, 368 páginas), da consagrada jornalista Míriam Leitão, mineira de Caratinga, nascida em 1957 e com muitos prêmios importantes em mais de 40 anos de profissão. Entre eles, o Jabuti de não ficção de 2012, por Saga Brasileira (sobre o Plano Real), e o de jornalista de economia mais admirada pelo Jornalistas & Cia. Ela escreveu também História do futuro: horizonte do Brasil no século XXI e Tempos extremos.
A coletânea de 118 artigos publicados por Míriam de 2010 a 2016 traz os diários da crise que, mais uma vez, adiou o futuro de nosso País. Como se sabe, não há governo que pare em pé quando o governante provoca uma grave crise econômica. A recessão severa que assolou o Brasil nos últimos anos, com um rombo inédito nas contas públicas e o aumento brutal do desemprego, que levaram ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, não foi surpresa para Míriam Leitão. Ela diz que o governo fechou os olhos a todos os alertas, que não adianta brigar com os fatos.
Os textos do livro mostram que a verdade é teimosa e aparece mesmo depois de ser encoberta por malabarismos estatísticos ou retóricos. A jornalista, todavia, não perde a esperança no futuro e ressalta que temos muito do que esse século exige dos países. Temos terra, água, fontes diversas de energia renovável, biodiversidade, e isso conta muito, nos coloca em vantagem. Mesmo com o cenário desanimador ou que parece tão desanimador, temos condições de construir uma nação, com progresso econômico e social.
Nossos jovens viverão num mundo com rupturas tecnológicas. O mundo do trabalho se altera, pedindo educação de boa qualidade, investimento em novas tecnologias e aumento da competitividade das empresas.
Precisamos pensar no País, fazer as reformas e cobrar dos políticos e administradores públicos e privados uma postura diferente diante do que está aí. Devemos cair na real, como aconteceu quando administradores e sociedade colocaram nas ruas o Plano Real, talvez o maior e melhor fato histórico da nossa República.

lançamentos

  • Tropicália - Gêneros, identidades, repertórios e linguagens (Educs, 344 páginas), organizado por Ana Mery Sehbe de Carli e Flávia Brocchetto Ramos, segunda edição ampliada e atualizada, traz textos das organizadoras e outros autores sobre o lendário movimento que pregou diversidade musical, rebeldia e abertura de novos caminhos culturais. Caetano e Gil foram os líderes do movimento, que parecia fugaz, mas que até hoje permanece vivo.
  • Literatura & Cinema (Editora Plátano, 136 páginas), publicado pelo Círculo de Pesquisas Literárias (Cipel), apresenta textos de 14 autores sobre a rica temática cinema-literatura. Rafael Bán Jacobsen (organizador), Lotário Neuberger, Felipe Daiello, Moacyr Flores e Hilda Agnes Hübner Flores são alguns dos autores dos estudos sobre cinemas norte-americano, brasileiro, europeu e sul-rio-grandense, com temas variados.
  • Anjos e bonsais - A dança entre o amor e a liberdade (Alternativa, 140 páginas), do engenheiro e mestre em Estudos Internacionais Cláudio Goidanich Kraemer, autor de O pescador de sonhos e outros livros, trata de biodança, amor, liberdade e outras questões básicas para os seres humanos, sempre com Norte no amor e na liberdade. Para o autor, na escassez do amor, vinga o medo, que corta as asas do grande pássaro da liberdade, transformando casas em gaiolas.

Dia dos Pais

Meu pai se foi e jamais foi, de uma hora para outra, há 30 anos. Imigrante italiano, antes de chegar ao Brasil, em 1949, de navio, com minha mãe e meu irmão de cinco meses, começou a trabalhar numa fábrica, na Itália, aos 14 anos. Participou como soldado e sargento na Segunda Guerra Mundial. Depois do conflito e de se formar geômetra, trabalhou numa empresa de construções.
Apesar da vida difícil, das perdas e dos ganhos, meu pai mantinha a vontade de viver, trabalhou até o dia em que faleceu, aos 67 anos, gostava da minha mãe, de mim e dos meus irmãos, de música clássica e popular, vinho com moderação, leitura, boa comida, de trabalhar como construtor e manter a família unida. "O dia tem 24 horas, oito de descanso, oito de trabalho e oito de diversão", me ensinou. Disse-me para não pedir dinheiro emprestado e ir ao banco mais para depositar que sacar; a pedir desconto e pagar à vista; a ser comedido na cobrança de honorários (fui advogado), não exagerar em nada (tudo em exagero não dá), tratar bem todas as pessoas, independentemente da classe social ou econômica; me disse, socrático, que o que a gente sabe é que nada sabe; que o amor e a família são o mais importante. Um dia me disse que era bom gastar dinheiro. Quando eu tinha seis e 11 anos, me levou para a Itália. Conheci o País e os parentes. O primeiro sorvete italiano e os sorrisos das nonnas nunca esqueci. De vez em quando, meu pai deixava mensagens escritas, mais refletidas. Brincava com meu pai dizendo que ele tinha me tirado a chance, que ele, privilegiado, teve, de começar do zero. Certa época, eu andava meio à deriva, sem pensar muito em estudo ou trabalho. Dormia tarde, acordava tarde, quando chegava da rua, de manhã, ele estava tomando café, pronto para ir trabalhar. Aí ele foi muito duro, duríssimo comigo: "O horário da pensão aqui é meio diferente do teu. Te aconselho a segui-lo. Tu vais ser ou fazer na vida o que quiseres, menos fazer e ser nada". Depois de alguns anos, vi que ele até foi mole. Como disse o Twain: "Quando eu tinha 18, achava que meu pai não sabia nada. Aos 21, me dei conta como ele aprendera coisas em três anos".
No final, o que um filho lembra mais do pai, além das palavras ditas ou escritas e dos silêncios, é o exemplo de como o pai era, como agia e reagia, como se relacionava com as outras pessoas, com o poder e com o dinheiro e o que trazia na alma.
Sou pai há 27 anos. É pouco tempo. Pai vai se construindo, reconstruindo, aprendendo e desaprendendo até o dia em que se torna energia pura. Só vai morrer realmente quando ninguém mais lembrar dele. Pais espertos se deixam educar, ao menos um pouco, pelos filhos, que sabem muito bem como é difícil educar um pai. Pais espertos, por vezes, não dizem nada sobre as famosas incontinências verbais dos filhos. Faz parte. Pais sabem que a melhor forma de ganhar uma discussão é, muitas vezes, não começá-la, tipo assim zen. Pais espertos sabem que é melhor dar uma de mãe: amar os filhos sem condições ou cobranças. Pai de hoje visita o filho na cadeia.

a propósito...

No meio da discussão sobre o papel do homem e do pai, é bom lembrar que não é só certidão de nascimento, cheque da conta da maternidade, docs do colégio e da faculdade e conta do super. Papel de pai hoje é tipo assim pãe, meio mãe, meio terno, mas sem perder a dureza necessária para a essencial disciplina da vida, que não anda lá muito disciplinada. Não é fácil, não é impossível. É pedra e mel nas mãos, dependendo do dia e das circunstâncias. Antes, pai era autoridade, provedor, cara séria, surra no fim do dia ("quando teu pai chegar...") - hoje, é sério e brincalhão, liberal e durão, forte e frágil, e humano, demasiado humano, maravilhoso, como todos nós.
 
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Comentários
PAULO ROBERTO SANTOS DE CARVALHO 11/08/2017 09h39min
Parabéns Jaime Cimenti pela excelente definição e refleção sobre o papel do Pai na família. Tenho três filhos, dois homens e uma mulher, já casados e de cujos cônjuges os tenho como filhos também. Meu jeito de educá-los sempre foi mais ou menos similar ao seu, e, como resultado meus filhos se tornaram adultos responsáveis, educados e queridos em seu meio. Parabéns Jaime Cimenti e que Deus o abençoe.