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Porto Alegre, quinta-feira, 10 de agosto de 2017. Atualizado às 22h58.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Notícia da edição impressa de 11/08/2017. Alterada em 10/08 às 17h31min

Fantasia reveladora

Uma das imagens mais poderosas do cinema de ficção-científica é aquela que encerra a narrativa de Planeta dos macacos, o filme que Franklin J. Schaffner realizou em 1968, tendo por base o livro de Pierre Boulle. O plano que mostrava a Estátua da Liberdade enterrada na areia resumia o sentido do filme, ao sintetizar uma crítica a toda uma civilização, cujo fracasso era então inteiramente revelado ao público.
O gênero, na literatura e no cinema, permite que a imaginação dos narradores faça com que viagens no tempo sejam possíveis e que situações encenadas de forma a permitir que a fantasia a tudo domine captem a essência do que o autor pretende explicitar. O filme original, encenado de forma realista, colocava o espectador num mundo estranho, no qual os macacos dominam a cena, enquanto figuras semelhantes aos seres humanos são amplamente dominadas. Só no final, naquele momento antológico, o espetador fica sabendo toda a verdade. O sucesso de público e também a boa recepção por parte da crítica permitiram que fossem realizadas, ainda no século passado, algumas continuações. Nenhuma obteve o mesmo sucesso. Recentemente, uma nova série, agora beneficiada pelo aperfeiçoamento dos efeitos especiais, colocou outra vez na tela o conflito entre os símios e os humanos. É desta série o filme que agora está sendo exibido.
Planeta dos macacos: a guerra traz a assinatura do diretor Matt Reeve, também um dos autores do roteiro. Suas habilidades de narrador são evidentes, e pelo menos na primeira metade do filme ele consegue manter a atenção do espectador, antes de ser vencido pelas explosões de sempre e pelos costumeiros exageros utilizados em filmes endereçados a plateias pouco exigentes. Os grandes espetáculos realizados pelo cinema norte-americano atualmente são quase todos assim: repetitivos e barulhentos. Há uma clara tendência de impressionar o público com aqueles truques que a tecnologia atual permite. No admirável filme sobre a retirada de Dunquerque, o diretor Christopher Nolan mostra que a tecnologia não é inimiga de uma narrativa sóbria e inteligente, na qual os recursos técnicos são empregados visando à criação de um realismo indispensável ao relato. No filme de Reeve, claro, predomina a fantasia, mas é evidente que o realizador se apoia em excesso nas facilidades permitida por tal opção. Porém, é também necessário notar que ele pelo menos procurou colocar em seu filme vários temas que o transformam em curioso painel sobre o mundo real, marcado por uma série de referências que não devem passar despercebidas.
Em primeiro lugar, há que ressaltar o fato de que o hino nacional norte-americano é utilizado de forma a tornar claro que o personagem vivido por Woody Harrelson, claramente inspirado em personagem do romance Coração nas trevas, de Joseph Conrad, modelo para Francis Ford Coppola em Apocalypse Now, no qual era interpretado por Marlon Brando, representa um tipo de cultura dominada pela alucinação. O campo de concentração construído pelo personagem não é apenas uma referência ao nazismo e à utilização de prisioneiros como auxiliares no assassinato de judeus, porque todos eles estão sendo utilizados na construção de um muro de proteção, o que é uma clara alusão a um fato da atualidade. O filme de Coppola é também lembrado nas sequências finais, inclusive pelo emprego de helicópteros. Reeve tem o mérito de procurar escapar do maniqueísmo, como na expressiva cena na qual o coronel narra para César o que havia acontecido com ele.
Mas há, também, recursos dispensáveis como a figura daquele macaco fugitivo, um descendente dos personagens cômicos que costumam frequentar os desenhos animados. E o restante é apenas a técnica na qual os atores interpretam cobertos de efeitos. A fantasia, assim, domina a narrativa e comanda o espetáculo. Não estamos diante de algo desprezível, mas é importante que se tenha diante de tal proposta um certo distanciamento. Não há o menor sentido tratar um filme como este como se estivéssemos diante de Noite e nevoeiro. Se assim for feito, é grande o risco de o retrocesso registrado pelo filme se transformar em realidade.
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