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Porto Alegre, quinta-feira, 13 de julho de 2017. Atualizado às 21h47.

Jornal do Comércio

Colunas

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

Notícia da edição impressa de 14/07/2017. Alterada em 13/07 às 15h06min

O kinébalé de Deborah Colker

Fui ao teatro com muita ansiedade e muita curiosidade para assistir ao balé Cão sem plumas, de Deborah Colker e seu grupo. Qualquer um vai se dar conta que idealizar uma coreografia a partir de um poema, mesmo que um poema dramático, exige uma enorme coragem e inspiração. Pois, ao final do espetáculo de hora e dez minutos de duração, não fiquei inteiramente satisfeito, mas saí admirando ainda mais esta artista, que não se cansa de ousar e abrir caminhos.
Cão sem plumas deveria ser classificado como um kinébalé - isto é, um balé cinematográfico, porque, certamente, muito da beleza do espetáculo é produzido pelo contraste entre as cenas projetadas na tela - as imagens cinematográficas - e as imagens do balé propriamente dito. Às vezes, eles são seu prolongamento; em outros momentos, elas se chocam: se as imagens do filme são mais duras, as imagens do balé são mais poéticas. Enfim, seja como for, o espetáculo inexiste sem a complementação entre as duas artes, tanto que, ao final, saí sem saber se admiro mais a coreógrafa ou a diretora cinematográfica deste documentário dramático que ela rodou, ambas as obras com seus bailarinos/artistas que, do mesmo modo, acabei não sabendo se admiro mais pela coragem de sobreviverem na caatinga e na lama - às vezes seca, às vezes liquefeita - ou de serem capazes de realizar o projeto coreográfico que lhes foi proposto. O que se deve dizer é que ninguém passa incólume por esta experiência. Definitivamente, guardadas suas identidades e tendências absolutamente diversas, pode-se dizer que o Brasil possui pelo menos duas grandes companhias de dança: o Grupo Corpo, liderado por Rodrigo Pederneiras; e a Cia. Deborah Colker.
Cão sem plumas contou, além da coreografia de Deborah, com a cenografia de Gringo Cardia, a direção cinematográfica de Cláudio Assis (repartida com Deborah), a direção musical de Jorge Dü Peixe e Berna Ceppas, os figurinos de Cláudia Kopke, e a direção executiva de João Elias, que deve ter sido fundamental para tornar possíveis todas as utopias pensadas e imaginadas pelo grupo de criadores. O resultado é um espetáculo profundamente bem acabado, em que a simbiose da imagem cinematográfica, projetada quase que durante todo o tempo do espetáculo, ora sobre os corpos dos bailarinos, ora em extensão a eles, funcionou absolutamente sincronizada. Por outro lado, a iluminação, sempre recatada, sem nenhuma luz branca com incidência direta sobre os bailarinos e o espaço do palco, sugere a mesma dramaticidade - em cena - que vemos na tela cinematográfica. É como que a paisagem árida do Nordeste expandida pelos corpos dos dançarinos, de tal maneira que dali não mais sai, e a tintura de seus figurinos - na verdade, malhas de corpo inteiro, de cor de carne - como que aprofunda aquela experiência. A destacar, neste sentido, a pintura dos figurinos, a cargo de Nayara Pereira, além do texto de Luiz Fernando Vianna, que funciona como uma espécie de guia de cego para o espectador acompanhar o que lhe está sendo apresentado.
Sem intervalo, o espetáculo; sem respiração, o espectador - a gente vive um (des)alento só, do início ao fim da performance, de certo modo sabendo o que vai se ver, mas, ao mesmo tempo, na expectativa por aquilo que efetivamente será visto. Treze bailarinos alimentam a coreografia, e devem sair exaustos ao final do mesmo: durante todo o tempo, permanecem na postura e na movimentação - mimetizada, é claro - do animal caranguejo, joelhos flexionados, braços abertos, como pinças, andar gingado, lento e pesado, ainda que isso jamais impeça o artista de fazer seus saltos e malabarismos, quando necessário.
Falei, no início, que não saíra inteiramente satisfeito. Sei que Deborah Colker e seus companheiros se preocuparam em fugir do folclórico e do óbvio. Mas, ainda assim, preferia uma trilha cuja sonoridade se aproximasse mais das raízes da música nordestina. Apesar disso, entendo que este é um balé para se ver e rever muitas vezes, tal a multiplicidade de imagens que apresenta e que não podem, todas, ser plenamente fruídas pelo espectador, numa primeira e única vez.
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