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Porto Alegre, segunda-feira, 17 de julho de 2017. Atualizado às 17h41.

Jornal do Comércio

Empresas & Negócios

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FINANÇAS PESSOAIS

Notícia da edição impressa de 17/07/2017. Alterada em 17/07 às 17h44min

Quando mais é mais

FREEPIK.COM/DIVULGAÇÃO/JC
Samuel Lima
Lucas Martins, 27 anos, é um dos 118,7 mil trabalhadores de carteira assinada demitidos em março do ano passado, quando o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, registrava 1,850 milhão vagas eliminadas em apenas 12 meses. Pior do que entrar para a nada agradável estatística do desemprego, foi o fato de que a filha tinha apenas um ano de idade e a esposa, Giane Bruna Villant, também estava sem ocupação formal naquele momento.
Sem desanimar, Martins, que era vigia na Pucrs, começou a bater em portas, entregar currículos e a fazer entrevistas - enquanto a família sobrevivia com a verba da rescisão. O auge da crise econômica, porém, foi implacável, e as tentativas de dois meses frustradas. "Era uma época complicada, difícil de levar, com muitas contas. Nossa filha, sempre no inverno, tem algum problema de saúde. Precisávamos de um dinheiro para qualquer emergência", conta ele. Foi então que o casal, que nunca tinha cozinhado um brownie, procurou receitas na internet, juntou duas ou três delas e apostou o resto do caixa na ideia. Em uma semana, fez e vendeu os primeiros doces a amigos e conhecidos em Porto Alegre.
Pouco a pouco, os comerciantes da região, principais clientes até hoje, conheceram o brownie. E o que era um bico passageiro, fruto da necessidade, acabou virando o trabalho integral do jovem, que, atualmente, comercializa cerca de 570 unidades por mês, com preços que variam de R$ 3,50 a R$ 10,00. "Consigo equiparar com a renda que tinha antes. Não diria que vivemos confortavelmente, mas estamos levando da mesma forma que estaríamos com o trabalho fixo", diz.
Casos como esse encontraram paralelo em 57% das famílias brasileiras no ano passado, de acordo com a pesquisa Retratos da Sociedade Brasileira, divulgada em agosto pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), com alcance de 2 mil pessoas em 141 municípios. Esse é o percentual de entrevistados que disseram ter parentes que perderam o emprego na crise. O mesmo estudo indica que quatro em cada 10 brasileiros tiveram queda na renda nos 12 meses anteriores, 40% da população acreditavam ter menor poder de compra naquele momento e 67% estavam receosos em perder o padrão de vida.
Não é difícil imaginar que, nesse cenário, parcela significativa dos brasileiros resolveu trabalhar um pouco mais, sobretudo em bicos. A pesquisa da CNI mostra que o percentual de pessoas que foram atrás de trabalhos extras para complementar renda passou de 25%, em 2013, para 48%, em 2015, e alcançou 56% em junho do ano passado. "Quem perde o emprego, procura dois ou três para chegar na renda que tinha antes", afirma o gerente de estudos da CNI, Renato da Fonseca. O especialista também atribui a disparada no índice à pressão exercida sobre o jovem para colocação no mercado de trabalho mais cedo e sobre cônjuges e familiares no grupo de postulantes a vagas.
A mesma crise foi capaz de inverter a tendência de queda de redução na economia informal que durava, pelo menos, 11 anos no Brasil. Estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre) indica que o tamanho da economia subterrânea - termo que faz referência a atividades legais e também ilegais do trabalho informal - caiu de 21% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2003, para 16,1%, em 2014. Mas o número voltou a crescer no ano seguinte e, novamente, em 2016, chegou a 16,3% - o equivalente a uma movimentação financeira de R$ 983,3 bilhões.
O pesquisador em Economia Aplicada do FGV/Ibre e responsável pelo estudo, Fernando de Holanda Barbosa Filho, diz que a tendência de encolhimento no mercado informal se deve ao maior acesso à educação pelo brasileiro, ao atrativo do crédito e a algumas mudanças tecnológicas, como a implantação da nota fiscal eletrônica. Já a virada no indicador é explicada por fatores conjunturais, como desemprego e queda no PIB per capita. "A característica de complementar a renda é, em geral, informal", analisa o economista. Para ele, a flexibilidade que as pessoas têm nesse ramo funciona como "válvula de escape" em anos de crise.
Fonseca, da CNI, diz que, mesmo com a aparente retomada na abertura de postos de trabalho em 2017 - o Caged aponta saldo positivo de 48,5 mil nos primeiros cinco meses do ano -, a situação atual é bastante similar à registrada no ano anterior. Para ele, as pessoas não devem abrir mão, tão cedo, de uma segunda atividade, inclusive para quitar dívidas. "A retomada não é imediata", acredita.

Motorista de Uber e Cabify tem três atividades paralelas

Para Peixoto, serviço com renda variável também sofre com a crise

Para Peixoto, serviço com renda variável também sofre com a crise


MARCO QUINTANA/MARCO QUINTANA/JC
Depois de anos trabalhando com carteira assinada em bancos e lojas, Luciano Peixoto, 46 anos, tem hoje três atividades diferentes de renda variável. A principal é como motorista da Uber e da Cabify, aplicativos de transporte urbano, o que faz há seis meses com o automóvel próprio. O dinheiro que consegue com essas corridas representa hoje 70% da renda da família - moram com ele a esposa, que trabalha no comércio, e a filha, de cinco anos.
As outras duas atividades são na parte comercial de uma empresa de eventos, em que ele ganha comissão a cada venda, e não há horário e salário fixos, e em uma agência de turismo e transporte.
Os dois serviços sofreram retração com a crise, o que o obrigou a buscar novas fontes de renda. "Não foi uma opção, mas o que apareceu no mercado", conta ele, que diz hoje trabalhar mais e ganhar menos. "Carteira assinada era bem melhor, você sabe quanto vai ganhar no final do mês."
 

Auxiliar de limpeza cobre as despesas revendendo pomada

Maria Vilma Castro Lima, que é case da central do Empresas & Negócios sobre complementação de renda.

Maria Vilma Castro Lima, que é case da central do Empresas & Negócios sobre complementação de renda.


JONATHAN HECKLER/JC
Maria Vilma Castro Lima, de 46 anos, é um exemplo de como o mercado flexível de trabalho pode ser atrativo. Ela atua como auxiliar de limpeza em uma fornecedora de implantes ortopédicos e equipamentos hospitalares de Porto Alegre, onde fica das 8h às 18h, de segunda a sexta-feira, antes de voltar para casa, que divide com a filha pequena, de 9 anos, no bairro Sarandi. Mas o salário não cobre todas as despesas mensais, como as passagens para levar e buscar a filha no colégio (cerca de R$ 400,00 todo mês), o condomínio (R$ 200,00), a prestação do apartamento financiado (R$ 600,00) e a conta de luz (R$ 60,00).
O jeito foi apelar para a revenda de produtos a amigos, colegas de trabalho, vizinhos e até mesmo no ônibus. Desde janeiro, ela compra no atacado e vende por conta própria uma pomada para dores nas costas e articulações. Antes, fez o mesmo com roupas femininas, durante três anos. "Sem a renda extra, seria só o básico do básico", conta Maria Vilma. "Tem que correr atrás."

Trabalho depende de habilidades individuais

Quando escolheu trabalhar nos aplicativos de transporte urbano, Luciano Peixoto levou em conta a experiência que adquiriu ao longo do tempo com o relacionamento interpessoal e no transporte de passageiros para a empresa de turismo. Essa é uma tendência na hora de definir o tipo de bico seguir, de acordo com a coordenadora do Centro de Desenvolvimento de Empreendedorismo da ESPM-SP, Letícia Menegon. "Depende muito da habilidade de cada um", ressalta ela.
Outra característica desses negócios é o investimento em algo barato e de consumo imediato, porque geralmente eles surgem em momentos de pouco capital disponível, e essas atitudes evitam estoques. Letícia ainda lembra que a busca por um complemento de renda não surge exclusivamente com o desemprego, mas também com a alta de inflação e reajustes salariais abaixo dela. "A maioria faz, porque não quer perder o padrão de vida que tem, ou não perder tanto, pelo menos."

Ex-cabeleireira volta à ativa nos fins de semana

É pela tranquilidade financeira nos últimos dias do mês - aqueles críticos que antecedem o salário - e por pequenos luxos que Eloisa Andrade, de 52 anos, gerente de relacionamento de uma clínica de psiquiatria e psicologia da Capital, trabalha como cabeleireira e manicure aos fins de semana, e faz venda direta para as empresas de cosméticos Avon, Natura e O Boticário. Ela conta que teve ocupação numa estética, durante sete anos, mas que decidiu mudar de emprego em 2012, por uma menor carga horária.
No início, com o salário bem mais baixo que no salão de beleza, ela recebia várias clientes do antigo emprego em casa. Com situação financeira mais confortável hoje, ela atende apenas cinco clientes fixas. Quanto à venda por catálogo, ela prefere vender somente a colegas de trabalho, nunca na rua - geralmente usando a comissão na compra de produtos da própria revista. "Acho que todo mundo deveria ter um plano B, um bico, diversificar o que faz", sugere.
 

O perfil dos bicos

PRODUTOS
Vender o que não é seu
Para ter um dinheiro extra, é comum que as pessoas comprem caixas e mais caixas no atacado de um produto de fácil e rápida saída e façam a revenda a amigos, colegas de trabalho, vizinhos, na rua e no transporte público, com uma margem de lucro. O perfil também serve, entre outras atividades, à chamada venda direta - revenda de cosméticos de Avon, Natura, O Boticário e outras marcas, por um preço fixo e estipulado em catálogo e recebendo percentual de comissão. Em 2016, havia 4,3 milhões de brasileiros trabalhando nesse mercado, que movimenta R$ 45,7 bilhões ao ano. O principal benefício é a praticidade e o baixo custo para começar, mas oferece menor retorno financeiro e exige uma boa rede de relacionamento.
Vender algo próprio
Brasileiros aproveitam habilidades individuais para desenvolver produtos e vender onde quiser. O mais comum são cozinheiros amadores criando bolos, biscoitos e salgados diversos e comercializando informalmente na rua, para o varejo da região ou mesmo pela internet. O benefício em relação ao primeiro é colocar no bolso 100% do faturamento, mas também exige investimento, melhor gestão financeira e pode gerar um bom prejuízo.
SERVIÇOS
Oferecer trabalho de modo autônomo
É o popular bico e depende muito de habilidades individuais. Para complementar a renda, um músico oferece aulas de violão, um estudante de graduação dá aula particular de reforço, uma cabeleireira atende clientes nos finais de semana, um garçom trabalha em casas noturnas quando o dinheiro aperta - e de modo convencional, autônomo, sem intermediário. Todo dinheiro que entra é do prestador de serviço. A maior dificuldade é entrar em contato com a demanda, que está dispersa. Conta muito com o boca a boca e a divulgação própria para ganhar a clientela. Também há menos garantias de pagamento.
Entrar na onda dos sites e aplicativos
É idêntico ao anterior, mas conta com a ajuda de sites e apps como Uber, Cabify, EasyTaxi, BlaBlaCar (transporte), Airbnb e Coworking (aluguel de espaço), Fleety (aluguel de carro), DogHero e Pethub (cuidadores de animais), Rent a Local Friend (guia turístico), Profes (aulas particulares), Freelancer e Bicos Online (diversos), entre outros, para encontrar clientes. Mas a facilidade tem seu preço - o Uber, por exemplo, cobra 25% dos motoristas sobre o valor da corrida na categoria popular. A economia compartilhada ou colaborativa, como é chamada, tem potencial para movimentar US$ 335 bilhões em 2025, apenas nos setores-chave (viagem, carros, finanças, serviços pessoais e streaming de música e vídeo). Em 2014, foram US$ 15 bilhões em todo o mundo.
Fontes: Letícia Menegon (ESPM-SP), Renato da Fonseca (CNI), Associação Brasileira de Empresas de Vendas Diretas (ABEVD), PriceWaterhouseCoopers (PwC).
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