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Porto Alegre, sexta-feira, 14 de julho de 2017. Atualizado às 18h07.

Jornal do Comércio

Dia do Comércio 2017

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Pesquisa

Notícia da edição impressa de 14/07/2017. Alterada em 14/07 às 18h10min

Pesquisa aponta que consumidores diminuíram gastos com lazer

Dia do Comércio 2017 - Personagens pesquisa consumidor porto-alegrense

Levantamento identificou três diferentes perfis de consumidores no comércio de rua de Porto Alegre


Thiago Machado/Arte/JC
O difícil momento econômico vivido pelos brasileiros nos últimos anos teve grande impacto nos gastos com lazer em Porto Alegre. Esta é uma das principais conclusões da pesquisa "Os porto-alegrenses e o consumo", desenvolvida pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-Sul) com exclusividade para o Jornal do Comércio. O estudo aponta que os moradores da capital gaúcha reduziram significativamente a frequência de viagens, jantares em restaurantes e idas a espetáculos musicais, por exemplo. Em sua nona edição, o levantamento traz uma novidade em relação aos anos anteriores: a identificação de três diferentes perfis entre o público presente nas ruas mais movimentadas do comércio local (veja abaixo).
Os dados vêm de questionários respondidos por 401 pessoas, consultadas durante o mês de maio, em diferentes pontos de Porto Alegre - como o Centro Histórico e avenidas de grande movimento comercial, como Azenha e Assis Brasil, além de bairros como Tristeza e Moinhos de Vento, na região do Parcão. Os participantes foram abordados nas calçadas, aleatoriamente, e o tempo necessário para responder às perguntas ficou em torno de 12 minutos.
A pesquisadora e professora da ESPM-Sul Liliane Rohde salienta que os dados obtidos refletem pensamentos e opiniões da população que circula pelas ruas de Porto Alegre. "Hoje, muitas pesquisas, de mercado ou acadêmicas, são feitas via formulários de internet. É uma amostra mais rápida e mais barata, mas não se tem garantia de quem está respondendo do outro lado. Aqui, temos a certeza de que as pessoas estavam na rua", destaca Liliane, mestre em Marketing e especialista em Pesquisa de Mercado e Comportamento do Consumidor.
A amostra consultada tem proporção semelhante à da população geral da cidade na distribuição por sexo, com ligeira maioria feminina. Quanto à idade, o estudo deste ano teve leve aumento na presença de um público mais adulto - metade dos entrevistados, por exemplo, tem idade acima de 35 anos, o que não havia ocorrido em anos anteriores. A distinção de classes sociais obedeceu ao Critério Brasil - que avalia a posse de bens como televisores e carros, entre outros, além da escolaridade do chefe da família - e mostrou índices parecidos com os do ano passado. "Guardadas as proporções, (os índices) não são tão diferentes da população total de Porto Alegre", observa Liliane. "A classe A1 não aparece (no estudo), talvez por estar ausente das ruas. As classes D e E aparecem pouco, porque foram abordadas pessoas que têm poder aquisitivo para o consumo", explica a pesquisadora.
A frequência de compras de diferentes tipos de produtos, o crescimento da procura pelo varejo on-line e as expectativas quanto ao futuro do País e da economia são outros aspectos importantes da pesquisa, que parece apontar para um quadro de otimismo. O número de entrevistados para quem o momento político nacional deve melhorar, por exemplo, aumentou de 21% em 2016 para 37% neste ano. A margem de erro da pesquisa é de cinco pontos percentuais, para mais ou para menos.
A definição dos perfis dos consumidores foi feita a partir dos índices de concordância quanto a 18 afirmações relacionadas com aspectos de comportamento - como a preferência por shopping centers para o lazer e a busca por uma alimentação saudável, por exemplo. "Usamos a técnica estatística para identificar os grupos, a partir de características comportamentais", esclarece Liliane.
PARA FAZER O DOWNLOAD DA PESQUISA COMPLETA, ACESSE O HOTSITE

Diminui o ritmo das viagens

Um dos dados mais evidentes na pesquisa deste ano é a redução na frequência de atividades de lazer - uma consequência direta do prolongamento da crise econômica. O número de pessoas que viajam regularmente - uma vez por mês, ou mesmo por ano - apresentou queda. Em contrapartida, 74% dos entrevistados disseram viajar eventualmente, índice que era de 26% em 2016. Da mesma maneira, foi afetada a presença em shows musicais: apenas 3% dos consumidores consultados relataram ir a espetáculos uma vez por semana, e no ano passado foram 13%. Um outro aspecto de lazer importante para o público da cidade também sofreu mudanças: o número de pessoas que costumam jantar fora semanalmente, por exemplo, caiu de 26% para 18%. A pesquisadora Liliane Rohde, da ESPM-Sul, lembra que a renúncia ao lazer é tendência nacional. "As pessoas não deixaram de fazer viagens, só houve redução na frequência. Com os shows, o pessoal parou mais. O 'jantar fora' reduziu, mas ainda se pode dizer que é um programa do porto-alegrense", diz a professora. A frequência de idas aos shopping centers não teve queda tão pronunciada - e até houve um aumento de pessoas que dizem visitá-los mensalmente, de 14% para 20%. Em relação aos supermercados, o estudo revela que a tradição do rancho mensal já não é tão forte: 20% dos entrevistados disseram ir às compras no super mensalmente, enquanto 19% vão quinzenalmente e 25%, semanalmente.

Compras de móveis e eletrodomésticos desaceleram

Em uma tendência semelhante à verificada nas atividades de lazer, a compra de itens como móveis e eletrodomésticos também apresentou um espaçamento maior. A procura anual por móveis, por exemplo, foi citada por 12,5% dos entrevistados - haviam sido 20% em 2016. Nos eletrodomésticos, mais pessoas disseram fazer as compras anualmente (28%) ou de dois em dois anos (19%), reduzindo o percentual de quem compra duas vezes por ano (9%).
Quanto às compras de roupas, o estudo também aponta para uma diminuição na frequência. As pessoas que compram duas vezes por ano representam 30% (eram 14% em 2016), enquanto aquelas que dizem adquirir roupas mensalmente passaram de 23% para 13%. A pesquisadora Liliane Rohde acredita que, além do fator econômico, esse fenômeno também esteja relacionado com a preocupação dos consumidores com a sustentabilidade.
Carros e materiais de construção são itens com aquisição ainda menos frequente, segundo a pesquisa. Respectivamente, 55% e 60% dos entrevistados disseram não ter o hábito de comprar esses itens.

Aumenta o otimismo quanto ao futuro

Há um equilíbrio entre os entrevistados que percebem perspectivas de melhora no futuro do País (28%), os que acreditam em piora na conjuntura (39%) e os que preveem uma situação semelhante à atual (33%). No entanto a pesquisadora Liliane Rohde alerta que essa proporção pode ter sofrido alterações com as delações dos empresários da JBS, surgidas na mídia na segunda metade do mês de maio, ainda enquanto eram coletados os dados da pesquisa.
Por outro lado, otimistas e pessimistas empataram na opinião sobre o momento político: 37% acham que o quadro vai melhorar, e outros 37% creem que irá piorar. "Esse pode ser um indicador de fim de crise, assim como a intenção de retomar a poupança", afirma Liliane.

Entrevistados querem retomar poupança

Um dos principais indícios do impacto da austeridade econômica é a redução severa no índice de entrevistados que investem em poupança - são 28% neste ano, e eram 60% em 2016. Esses números se refletem em outros pontos da pesquisa: 62% da amostra disse que seu perfil de investimento não mudou nos últimos tempos, e 61% pretende manter seu ritmo de compras. Embora 42% dos consumidores digam que não têm condições de fazer investimentos, outros 31% manifestam a intenção de voltar a fazer poupança nos próximos dois anos.
O lazer, como já havia sido indicado, é o item que mais entrevistados (67%) admitem cortar. Seguem-se nessa tendência o vestuário (55%) e os sapatos (37%) - nesta categoria, como as respostas são múltiplas, os percentuais totais ultrapassam 100%.

Lojas de rua são as preferidas

As lojas de rua representam a principal opção de compra dos entrevistados em diferentes tipos de produtos - de móveis a material esportivo, de brinquedos a eletrodomésticos. Esse resultado é visto como natural, pelo fato de os consumidores terem sido entrevistados nas calçadas.
Os shopping centers aparecem como segunda escolha na maioria dos casos. Mas não nas compras de eletrônicos - produtos nos quais a internet mostra sua força: 42% dos entrevistados os compram on-line; 39%, em lojas de calçada; e apenas 16%, em shopping centers. Segundo a professora Liliane Rohde, os compradores, às vezes, pesquisam on-line e compram na loja determinados itens, adotando o comportamento inverso para outros.
Entre os fatores relevantes para escolher uma loja, 67% dos entrevistados ressaltaram a questão do preço e 28% mencionaram a facilidade de pagamento - outro claro reflexo da crise econômica. Liliane explica que, em pesquisas anteriores, itens como atendimento e atmosfera do ponto de venda já tiveram mais destaque nessa escolha. "O público já foi mais exigente. Agora, o principal é o melhor preço e o fato de conseguir pagar", diz a pesquisadora.

Mais pessoas fazem compras via internet

Comprar on-line é uma tendência cada vez maior entre os porto-alegrenses. No levantamento da ESPM-Sul, dobrou o número de entrevistados que dizem sempre usar a internet para consumir: eram 12% em 2016, e agora são 24%. Mas 30% dizem nunca fazer compras on-line, e 46% preferem fazê-lo eventualmente.
Entre os itens adquiridos via computador, os índices são parecidos com os do ano passado, com destaque para livros, passagens aéreas e produtos eletrônicos. Uma queda significativa (de 16% para 7%) apareceu na aquisição de reservas de hotéis - um reflexo claro da queda na frequência das viagens, segundo a professora Liliane Rohde.
Outro indicativo da relação cada vez mais forte entre o varejo e a internet é o alto percentual de consumidores que busca na rede as informações sobre locais de compra e lazer. O Facebook, por exemplo, é mais citado como fonte de informação (49%) do que o contato com amigos e conhecidos, o tradicional boca a boca (48%). Os sites das lojas (31%) e o Instagram (21%) também se destacam nesse quesito.

Os três perfis de compradores de Porto Alegre

A principal inovação do estudo em 2017 foi a intenção de identificar perfis de consumidores, a partir de determinadas variáveis de comportamento. Para isso, o questionário convidou os entrevistados a avaliar 18 afirmações - como "Considero olhar vitrines um lazer" e "Sinto prazer em fazer compras pela internet" - e responder se concordavam ou não com elas, em uma escala de cinco pontos. Os resultados apontaram três grupos distintos e praticamente equivalentes em proporção. "As características que aparecem (em cada grupo) são as de maior fator discriminante, ou seja, são aquelas em que surgem diferenças maiores entre os grupos", explica a professora Liliane Rohde.

Consumidor consciente

Consciente
Consciente
Thiago Machado/Arte/JC
É o consumidor mais atualizado e preocupado com ecologia. Entre as afirmações com maior concordância neste perfil estão "Eu gosto de ter muitas emoções na minha vida", "Sou a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo", "Eu procuro seguir uma alimentação saudável" e "Gosto de aprender sobre arte, cultura e história". "Esse último item sugere um público mais intelectualizado. E é alguém experimentador e mais jovem", diz a pesquisadora. A questão ecológica tem destaque: quase todos os 22% dos entrevistados que concordaram com a frase "Me informo se a empresa tem preocupação com o meio ambiente antes de comprar nela" estão neste grupo.

Consumidor indiferente

Indiferente
Indiferente
Thiago Machado/Arte/JC
Este é um perfil mais voltado ao consumo do que à ecologia. Tem semelhanças com o Grupo 1, em aspectos como o gosto pelas emoções e a posição pró-casamento entre pessoas do mesmo sexo. A principal diferença, aqui, é a pouca preocupação ecológica: muitos discordaram de afirmações como "Eu tenho o hábito de consumir produtos orgânicos" e "Prefiro produzir/fazer algo do que o comprar". Também estão nesta categoria a maioria dos entrevistados que concordaram com a afirmativa "Na minha opinião, o shopping center é um local de lazer". "São pessoas menos conservadoras, mas ainda focadas no mercado consumidor. Possivelmente, este é o grupo mais consumista", explica Liliane.

Consumidor conservador

 Conservador
Conservador
Thiago Machado/Arte/JC
Dos três perfis, este é o de características mais conservadoras e com mais representantes da classe C. Uma das afirmativas que mais teve adesão neste grupo foi "A vida de uma mulher só é assegurada se ela puder fornecer um lar feliz para sua família". "É alguém mais velho, com visão mais tradicional da vida, e de poder aquisitivo mais baixo. É a categoria mais pessimista quanto à situação política", ressalta Liliane. "Este é o grupo mais afetado pela crise, uma classe que teve ascensão e agora se vê mais ameaçada", acrescenta a pesquisadora, lembrando que muitos discordaram da afirmativa "Eu gosto de liderar outros": "Isso sugere que são pessoas que ocupavam ou ocupam empregos mais tradicionais".
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